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Coluna 20/04/2017

A experiência do Ressuscitado acontece em meio à Paz

Quando ouvimos esse relato, temos a impressão de que, para os apóstolos, foi muito fácil crer na ressurreição de Jesus. Se Jesus aparecesse a qualquer momento, visivelmente aos nossos olhos, acho que nenhum de nós duvidaria. Penso que o evangelista teceu essa narrativa para que fosse mais fácil de entendermos. Vocês repararam que João fala que esse fato se deu no primeiro dia, isto é, no próprio domingo da ressurreição? Para ele, é o grande pentecostes! Os Atos dos Apóstolos vão narrá-lo cinquenta dias depois, mas João já coloca a experiência do Espírito no primeiro dia. O Ressuscitado soprou e disse que eles recebessem o Espírito Santo. Lembrem que, no início do Gênesis, quando existia apenas uma imensidão de águas obscuras, um caos gigantesco, o Espírito pairava sobre as águas.

Aqui também havia um caos, a água tumultuada do medo, poucas velas para iluminar o ambiente, muito silêncio e tristeza. Portas e janelas estavam trancadas por causa do medo. Nada mais caótico, mais negativo do que o medo. Ele nos paralisa, nos deixa sem sentido, sem perceber a realidade. Uma pessoa submetida a um grande medo não sabe sequer dizer o que viu, o que sentiu. O medo obscurece a vista, diminui os sentidos, tem uma força terrível. É caótico! Esse é o medo que existia naquela sala que estava trancada. Jesus não entra, mas já está lá! Esta é a grande experiência: o Senhor sempre estará presente, mesmo que estejamos numa situação caótica. Mesmo quando a noite mais escura cair sobre nós, Ele não entrará, porque já estará lá, ainda que não percebamos. Os apóstolos só perceberão quando algum sinal surgir.

Nós somos muito interessantes! Somos espirituais, temos ideias, pensamos, somos capazes de escrever um texto, redigir, passar num vestibular, fazer um curso superior. Tudo isso vem da nossa inteligência. Mas também somos fortemente presos aos sentidos e, para percebermos o Senhor, apenas a nossa inteligência não é suficiente para captarmos os sinais de que fala João. Neste evangelho, ele nos fala de dois sinais: para os olhos e ouvidos, não físicos. Os ouvidos físicos não captam a voz do ressuscitado, nem os olhos físicos veem o crucificado. Portanto, precisaremos de olhos e ouvidos profundos de quem crê. O ouvido ouve a saudação: “A paz esteja convosco!”. Quem quiser saber onde está o Senhor, procure pela paz, busque-a aonde ela estiver sendo construída.

Numa família em que um estiver puxando o cabelo do outro, o Senhor estará bem escondidinho. Somente quando a paz começar a entrar naquela família, Ele se mostrará no centro. Num país em guerra, Ele estará sofrendo, desejando e aspirando que a paz se implante. O que Ele quer é paz entre os homens, nas famílias, no nosso interior. Quando encontrarmos caras tristes, acabrunhadas, sofridas, marcadas, o Senhor estará presente, mas faltará o sinal para percebê-lo, e esse sinal é a paz.

Quando ela começa a acontecer dentro de nós, podemos saborear a presença do Senhor. Quando Ele acontece dentro de nós, todas as tempestades se amainam, as águas não mais estarão revoltas. Os olhos são mais interessantes ainda. O Jesus glorioso não tem chagas, não pode ter o lado aberto. As chagas foram feitas com pregos e doem, portanto, não são bonitas, mas sangrentas e dolorosas. Não são nenhum sinal de ressurreição. Então, como pode Tomé querer tocar as chagas, tocar o seu lado? O que João pretende dizer com essas chagas, que Jesus não tinha, é que o Cristo glorioso é o mesmo que dias antes fora crucificado, é o mesmo Jesus do Lago de Genesaré! Por isso, o evangelista vai dizer que deveriam ir à Galileia para encontrá-lo.

É o mesmo Jesus histórico, o mesmo Jesus da carne, o mesmo amigo de Marta e Maria. Mas, como o sinal mais forte de identidade, como o seu RG (referência a Registro Geral, o nosso documento de identidade) foram as chagas, João as escolheu para identificá-lo. Tomé não estava presente na comunidade e não percebeu nada. Aos poucos, ele vai-se achegando ao grupo, começa a sentir uma paz que não tinha, um amor capaz de incendiar uma comunidade. Ele precisava ver o Jesus real, não um espectro, uma invenção, um produto de fantasia. O que ele queria era o Cristo histórico, que conhecera na Palestina, com quem cruzara o olhar.

Será esse Jesus que Tomé novamente experimentará, tendo a certeza de que era Ele mesmo. Não precisamos tocar nenhuma chaga, mas apenas ter a fé e saber que o mesmo Jesus histórico está presente entre nós que cremos. A fé é sustentada pela comunidade. Estamos recordando a ressurreição, porque há dois mil anos nos dizemos que Ele está vivo. Onde não se diz, não se crê. Paz e ressurreição só existem onde uma comunidade vive da mesma fé. Como aos apóstolos, a certeza deve vir de dentro de nós. João diz que as portas e janelas estavam fechadas, para significar que Jesus não entrou com seu corpo físico. Nenhum corpo físico pode atravessar paredes.

É fantástico saber que aquele Homem, que caminhava pela Palestina, resolve estar presente em todo momento, e não é outro. É aquele mesmo que chorou, que amou as pessoas. Quando precisarmos de uma presença maior, quando sentirmos o vazio das ausências, saibamos que o ressuscitado não é alguma coisa vaga, abstrata, mas alguém bem concreto, bem histórico, só que glorioso e, portanto, escapa de nossos olhos e ouvidos. (Jo 20,19-31)


Gilberto Kraisch

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