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Coluna 16/11/2018

Nunca abrireis

Em um mundo repleto de lucidez, a lucidez não habitava os seres humanos. Assim era a vida de Anne, Josh e seu único filho, Tom. Um mundo onde ninguém havia visto o primeiro raio de sol da manhã, ou visto o rosto da pessoa que amava, ou até do seu filho. Você deveria escolher entre viver ou morrer. Escolher entre passar apenas um momento vendo algo, que nunca mais veria, ou viver aquele momento, pelo mínimo que seja, mas cair em um breu de escuridão eterna, onde você nunca conseguiria sair, passaria a eternidade com almas podres e sombrias, que trocaram a vida por uma tentação, igual a você. O mal vivia em todo o lugar. Ninguém sabe o que ele é, mas sente a sua presença, isso é indiscutível. Mas se quiseres conhecer ele, bastava tirar a venda de seus olhos.

Anne fazia todas as tarefas, desde pegar água no poço, até ir colher os seus legumes. Josh apenas cuidava de Tom, que tinha uma alma tão pura, que não entendia, porque uma criança merecia crescer com tanto sofrimento. Nunca tivera ninguém para brincar, ou para compartilhar os seus sonhos de criança, quase impossíveis. Ele havia sido treinado desde bebê. Quando nasceu, em seu primeiro segundo de vida já teve os olhos tampados por um pano. Quando Tom nasceu, Anne sentia uma respiração na lateral de seu pescoço.

Era um humano? Um animal? Ou algo do desconhecido? O dia que era pra ser o dia mais feliz da sua vida, o nascimento de seu filho, se tornou o dia mais apavorante de sua vida. Ela não sabia o que estava respirando em seu pescoço. Na verdade, ninguém sabia. Os únicos que sabiam o que causava tanta dor e medo estavam mortos. Aquilo exercia uma força grotesca sobre Anne, a fazia ter desejos para tirar a venda. Mas, ela segurava em seus pensamentos o seu filho, que nunca veria o seu rosto.

Eles não emitiam qualquer som, apenas escutavam constantemente gritos estrondosos, de dor, de medo, de desespero, suplicando por uma ajuda. Haviam visto algo que nunca deveriam ter visto. A mulher precisava ir ao poço para pegar água, seguia uma corda que tinha uma espessura fina que estava desgastada. Nela existiam alguns fios soltos, talvez algo já tivesse passado por ali, ou… Estava ali. Era difícil de locomover sem o sentido da visão. Escutava-se apenas o chacoalhar das árvores e de pingos suaves caindo na água do poço. Ela se sentia em um vão de solidão, mas nunca esteve tão acompanhada. Com o balde preparado, começou a fazer movimentos suaves com as mãos, descendo o balde.

O objeto chegou calmamente ao seu destino, então foi puxado com cautela. O som de pássaros começou a surgir em meio ao silêncio. Por que tanta euforia? A mulher se questionava. Aquele som a incomodava era assim toda vez que saía mundo a fora, ou melhor, a quintal a fora. Sua casa era formada por apenas uma regra: Nunca abrireis. O ensinamento de Tom era baseado nessa regra. Quando Anne saía, seus pensamentos giravam ao redor desse fato. Era nisso que estava pensando quando sentiu algo respingando nela. Era um líquido, um líquido quente. Nunca sentira algo tão quente sobre a sua pele. Ela escutara passos, passos de silêncio, como se alguém estivesse se aproximando.

O balde ficou mais leve. Ela se sentia rodeada de olhares, olhares sufocantes, que entrava em seu interior e a instigava. Um grito soou tão forte, tão perto, e… tão familiar. Tom! Os olhares saíram de Anne. A grama molhada fazia um barulho gigantesco de vultos, arcando pelo solo. Ela sentia em suas pernas algo se rastejando, a coisa a agarrou, trancando sua circulação. Aquilo a prendia no chão com uma força imensa. Só conseguia escutar o seu filho gritando com uma voz horrível de desespero. Ela precisava ajudar.

Josh foi ajudar a sua esposa. Do lado de fora da casa, só se ouvia gritos. Gritos de Tom e de Anne. Josh agarrou Anne, e tentou salvá-la. Mais um grito ecoou. O de Josh. Josh tentara salvá-la, mas fazendo isso, esqueceu de se salvar. Por que merecemos isso? Por que merecemos isso? Anne só pensava isso. O silêncio comandou aquele lugar. Não se ouvia mais Josh, muito menos Tom. Mas algo ainda estava presente ali, do seu lado. Em sua cabeça se passava: “Vamos Anne, encontre Tom!”. Sua cabeça dilatava, era uma dor horrível, em seus neurônios ressaltava apenas uma palavra. Veja. Contaminada por sua tentação, sua mão fervorosa foi aos seus olhos e tirou a venda.

Tom estava a sua frente, de olhos abertos, mas morto, e com sangue. Um fluído fervoroso, assim como aquele que exibia em seu rosto. O único contato que havia tido com seu filho, foi o seu sangue, que agora esfriava em seu rosto, igual ao corpo de Tom. Ela se lembraria disso para sempre. A primeira coisa que havia visto, seu marido e seu filho, mortos. Um pensamento eufórico rodeava a sua cabeça. Ali, ao seu lado, o que tinha feito tudo aquilo. Ele chegou perto de Anne. Em seu último suspiro dissera: Nunca abrireis.

(O texto foi produzido nas aulas de Língua Portuguesa da professora Karina H. Deretti. A autora Vanessa é do 8º ano da Escola Jonas Alves de Souza, de Jaraguá do Sul).


Artigo do Leitor

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