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Notícia . Especiais 15/01/2015
Imagem rodapé 01

Abrigo Rückl/Cemitério dos Botocudos - Primeira Parte 1/3

(uma das primeiras e importantes descobertas arqueológicas da região norte de Santa Catarina no final do século XIX).

Este estudo histórico e arqueológico sobre um cemitério de índios botocudos localizado em algum ponto entre o divisor de águas dos rios Preto e Itapocu e que envolve indiretamente a história da nossa região no final do século XIX, teve sua primeira menção histórica no livro “O Primeiro Livro do Jaraguá” (1973) do frei Aurélio Stulzer, página 14, onde se tem a seguinte informação:

No mapa do Patrimônio confeccionado em 1886 por Fernando Oppitz (p. 416) figura um “Cemitério dos Botocudos”, na Serra do Mar, em local para nós difícil de ser apontado. Em todo o caso para os lados do Rio Preto e muito perto da (conforme a legenda) linha imaginária do eng... (nome dilacerado e comido), ao sul, mas que deve ser Jourdan, uma vez que foi o único a medir naquele rumo.* No rodapé da página 14, mostra a seguinte observação: * Na mapoteca do Sr. Carlos Ficker, Joinville (SC), vimos uma cópia e dela se infere que realmente o nome do engenheiro é Jourdan.

Desde o lançamento do livro em 1973, ficou uma lacuna na história sobre o local exato deste cemitério de índios botocudos e se o lugar ainda permanece preservado nos dias de hoje! Infelizmente, frei Aurélio Stulzer não publicou este mapa ou sua parte correspondente em sua obra pra eventual consulta, pois apenas mencionou nas páginas 283 e 284 que este e demais mapas foram consultados por ele na mapoteca do Arquivo Nacional no Rio de Janeiro – RJ. Sobre este mapa de 1886, temos na página 284: O terceiro foi feito por Fernando Oppitz. O título:” Mappa Geral do Patrimônio Dotal do S.S. A.A. I.I. Conde e Condessa d´Eu de acordo com as medições feitas pelos engenheiros Henninger, Jourdan e Oppitz...” do ano de 1886.

De se notar que no terreno do arrendamento de Jourdan, no Jaraguá pois, não figura nada. Esta referência acima foi novamente reproduzida quase 30 anos mais tarde na “Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (Edição 18)”, publicada em 1999, página 111 e também no trabalho acadêmico de Patrícia Zimmermann Wegner intitulado: “Caracterização dos recursos naturais e uso do solo da área de proteção ambiental da represa do alto Rio Preto, Rio Negrinho – SC”, publicado pela UFSC em Setembro de 2000, página 74.

Contudo, somente foi possível esclarecermos esta lacuna histórica consultando diretamente o mapa confeccionado em 1886 pelo agrimensor alemão Fernando (Ferdinand) Oppitz a serviço do governo imperial brasileiro para demarcar as terras dotais dos Conde e Condessa d´Eu nos atuais municípios de Rio Negrinho, Mafra e Itaiópolis. Este mapa se encontra depositado até os dias de hoje na mapoteca do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro - RJ, onde foi possível adquirir uma cópia digitalizada para consultar a marcação “cemitério dos botocudos”:

Parte do Mappa Geral das medições de terras do Patrimônio Dotal de S.S. A.A. Imperiais Os Senhores Conde e Condessa D`Eu compreendendo uma área de quarenta e três e uma terça léguas quadradas situado entre os rios: Itapocú, Jaraguá, Rio Preto e outros nas províncias de Paraná e Santa Catarina / medido pelos engenheiros Dr. Daniel Henninger, Jourdan e Fernando Oppitz organizado e desenhado por Fernando Oppitz (segunda versão deste mapa copiada por Paulo Bustamanty em 1921). Mapa digitalizado fornecido pela mapoteca do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro – RJ. (Imagens rodapé 01)

Falando um pouco da história dos índios botocudos na região da bacia hidrográfica do Rio Preto em Rio Negrinho, a presença destes já era descrita de forma indireta alguns anos antes, quando o jornal Kolonie Zeitung de Joinville publicou no dia 26 de janeiro de 1874, que um mês antes no dia 23 de dezembro de 1873, houve a maior incursão de batedores de mato que chegava num total de 31 homens sobre o comando do vaqueano João dos Santos Reis, buscando os bugres em seus acampamentos além das nascentes do Itapocu, ou seja, até a região do Rio Preto em Rio Negrinho. Segue abaixo o trecho do jornal que fala sobre esta incursão:

“O governo provincial mandou imediatamente uma força que durante o mês de dezembro ficou estacionada na raiz da serra do Rio Secco no lugar, onde se dera o assalto e os índios continuaram a bombear as casas e ameaçar os moradores. Foram distribuídos munições e armamentos entre os colonos das estradas expostas e organizou-se uma expedição de 31 homens entendidos neste serviço para afugentar os índios de seu acampamento. Infelizmente esta expedição por causa do mau tempo não pode progredir até o acampamento dos bugres além do Rio Itapocu e só alcançou, que os bugres se retiraram adiante delle. Também se achava muito exposto às agressões dos indígenas, o novo núcleo colonial de São Bento”.

Parte do Mapa de São Bento (2º Districto da Colônia Dona Francisca/Província de Santa Catharina), confeccionado em 1879. Na parte inferior, foi feito um esboço de onde se encontrava os acampamentos dos índios e por onde era o caminho dos botocudos entre o divisor de águas dos rios Preto e Itapocu (situado entre a Serra de Jaraguá com a Serra das Vertentes). Este mapa confirma as informações fornecidas alguns anos antes pelo jornal Kolonie Zeitung sobre o acampamento de índios botocudos além do Rio Itapocu. Mapa digitalizado fornecido pelo Arquivo Histórico de São Bento do Sul – SC. (Imagem rodapé 02)

Na mesma época em que foi confeccionado este mapa, um dos primeiros moradores do atual território de Rio Negrinho chamado Antônio Ferreira de Lima e filhos, costumavam se deslocar da localidade de Salto, atravessando o divisor de águas do rio Corredeiras (braço do rio Preto) até o ribeirão dos Correas/rio Novo (braço principal do rio Itapocu), onde o patriarca morreu nas mãos dos índios botocudos no ano de 1881, perto do cume do “Morro do Gessner”, na localidade de Rio Novo em Corupá - SC.

Voltando a falar sobre o Cemitério dos Botocudos descoberto pelo agrimensor Fernando Oppitz e seus ajudantes em 1886 na região do Alto Rio Preto, localidade de Cerro Azul em Rio Negrinho, o que ainda existe de inédito pra ser contado aqui?

Continua na próxima edição.


Fabio Krawulski Nunes - safarijow@gmail.com - Pesquisador autodidata da história e arqueologia do Vale do Rio Itapocu


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