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Notícia . Especiais 28/01/2015
Foto 02.

Abrigo Rückl/Cemitério dos Botocudos - Segunda Parte 2/3

(uma das primeiras e importantes descobertas arqueológicas da região norte de Santa Catarina no final do século XIX).

As informações inéditas a respeito deste lugar é que o local foi descrito em detalhes pelo agrimensor Fernando Oppitz, estão publicadas no jornal impresso Gazeta Paranaense nos dias 11 e 16 de abril de 1886. Transcrição dos textos abaixo dividido em duas partes (mantendo a ortografia original da época).

Gazeta Paranaense Anno X (Curitiba) Nº 82, de 11/04/1886 (Página 3)
Museu Parananense – A ´este estabelecimento publico forão offerecidos pelo Sr. Engenheiro Fernando Oppitz, distincto anthropologista e digno chefe da comissão de medição de terras do patrimonio dotal de S.S. Imperiaes, dous craneos humanos encontrados em um cemiterio de incolas paranaenses, situado sobre a encosta da Serra do Mar que serve de divortium aquarium entre o Rio Negro e o Itapurá*, fazendo acompanhar tão precioso donativo do officio seguinte:

Curityba 7 de Abril de 1886. – Illm. Sr. Dr. Ermelino Agostinho de Leão. Digmº Director do Museo Paranaense. Tomo a liberdade de offerecer a V. S ª, para o Museo Paranaense,dois craneos de indigenas, (provavelmente botocudos,) que foram extrahidos durante a expedição da Commissão de medição de terras do Patrimonio Dotal de S.S. A.A. Imperiaes, os senhores Conde e Condessa d´Eu, de um cemiterio situado na Serra do Mar (Divisa d´agua entre o Rio Itapurá* e Rio Negro) no lado Oeste da mesma serra, na latitude 26° 36` S.

O sitio, que precisarei em outra parte desta, cazo alguem tiver interesse em visitai-o, foi casualmente descoberto por pessoas da minha turma que encontrarão duas caveiras e ossos espalhados, sem porem conhecer a importância dessa descoberta. Logo que foi possível, partimos para submetter o lugar a um exame minucioso. Sahindo do nosso abarracamento, que se achava perto de um grande banhado, o qual estende-se até a margem direita do Rio Preto, seguimos na distancia de cerca de 300,0m um riacho acima, até encontrar um rochedo extrapumado de 80,0m mais ou menos de cumprimento e 10,0 á 12,0m de altura, do qual despenha-se o mencionado riacho formando uma linda cascata.

Na base desse rochedo e por ele abrigado extende-se um plano de cerca de 25,0m de cumprimento e 8 a 10,0m de largo sendo a altura a extensão do extrapumado de 5 á 30m. Em tempos remotos esse plano deve têr-se extendido em todo cumprimento do rochedo, emquanto actualmente no extremo do cumprimento acima mencionado, espectador depara com uma barroca funda, na qual os decompostos destroços de rocha indicão os sucessivos desmoronamentos. Nesse plano, á superfície da terra, encontramos diversos ossos humanos mas a grande quantidade demonstrava, que não se tratava somente de dois esqueletos, cujos craneos tinhamos presentes; continuamos pois nas investigações, porem só na superfície, a qual a primeira vista parecia coberta de uma camada de pó de pedras decompostas, camada que, depois de sujeira a um exame mais detido, provou ser cinza.
(Continúa.)

OBS: Itapurá* = Itapocu

Gazeta Paranaense Anno X (Curitiba) Nº 85, de 16/04/1886 (Página 3)
Museo Paranaense – Continuação do n. 82:
Suppúz á principio, que nos achavamos no escondrilho de alguma féra, até que uma pequena elevação concava no chão despertou a minha attenção; e mandando eu remover a camada de cinza que tinha de espessura 4 á 5 centimetros, reconhecemos ser um crânio humano, á cujo lado se achavão os ossos maiores do esqueleto ao qual o crânio pertencia. Os ossos menores, taes como: das mãos, dos pés e bem assim as vertebras não existiam.

Continuamos então com ardor na excavação e estrahimos os esqueletos de oito ou nove individuos de diversas idades, todos enterrados na cinza, ocupando cada individuo uma cova de 0.80m de cumprimento 0,40m de largo e 0,30m de fundo, mais ou menos. Parece que não tomou-se em consideração o gráo ou a idade do individuo relativamente ao lugar, porque achamos nesse pequeno espaço os esqueletos de homem, mulheres e crianças.

Só uma das sepulturas (á esta expressão pode ter applicação) achava-se em baixo forrada de pedaços cortados do tronco fibroso de uma espécie de chaxim ahi também achamos duas cascas de concha de agua doce; é porem duvidoso si estas serviriam de enfeite ou si misturarão se casualmente com a cinza que incerrava os ossos. Não achou se vestígio algum de armas ou utensílios, circumstancia esta que deve ser considerada como uma prova do baixo gráo de cultura desta tribu. Embora suspendessemos a excavação, ficamos convencidos, de que todo o espaço era destinado ao mesmo fim; isto é, de servir de cemitério aos indigenas.

Do modo de enterro póde-se então concluir, ou que os corpos depois da morte ficão expostos à acção do tempo, até se achar completamente putrificada a carne, como acontece entre os habitantes da Nova Zellandia e e algumas tribos das ilhas da Oceania, ou, que tirão a carne dos ossos e queimão-na juntamente com os ossos menores, para depois depositar na cinza os ossos maiores no lugar do ultimo repouso.

Muito significativo é a falta dos ossos menores, acima alludidos; porem sobre isto como também á respeito da idade das caveiras não pretendo impôr a minha opinião propria, para o anthropologo porem devem taes cemiterios offerecer um vasto campo para as mais investigações. Depois de ter escolhido os dois crânios, que envio a V.S., de todos os que encontramos, os mais bem conservados, mandei interrar o resto outra vez o aplainar o lugar, para não ter alguma sollução desagradavel com os indigenas pela profanação desse sitio para eles sagrado.
Sem mais assumpto
Sou
de V.S.
Attª Vem e Cr°.
Fernando Oppitz.
Engenheiro.>>

E o digno e ilustrado director do Museo Paranaense encarregou ao respectivo secretario do acondecionamento de taes especimes anthropologicos, recommendando-lhe também que agradecesse ao Sr. Engenheiro Fernando Oppitz a obsequiosidade da oferta tão importante e de grande alcance scientifico como essa.

Observações: A respeito dos 2 crânios humanos encontrados pela equipe do agrimensor Fernando Oppitz e que foram doados por ele para o Museu Paranaense em 1886, foi feito contato por e-mail com este museu em Curitiba-PR pra saber se os mesmos ainda existem e se encontram também catalogados na reserva técnica, porém, não foi obtido nenhuma resposta do Museu Paranaense a respeito.

Desde 1886 em diante, o local ficou praticamente esquecido pela história e também pela arqueologia até o ano de 1962, quando foram feitos os primeiros levantamentos arqueológicos oficiais do lugar.
Continua na próxima edição.


A foto 01 fica na propriedade onde se encontra no meio do morro o cemitério dos botocudos (assinalado na foto com a seta preta). O lugar fica nas coordenadas geográficas (GPS) 26° 35´ 55.04" S/49° 36´ 26.84" W, estando aproximadamente 900 metros acima do nível do mar. O acesso ao local se dá pela estrada da Usina/Móveis Rückl na localidade de Cerro Azul, distante 50 quilômetros do centro de Rio Negrinho e 110 quilômetros da cidade de Jaraguá do Sul.

A foto 02 é o paredão de rocha onde se encontra o cemitério dos botocudos e também uma das nascentes do rio da Estiva (afluente da margem direita da represa Alto Rio Preto). Ao fundo da imagem da direita, seu Adelino (atual proprietário das terras onde se encontra o Abrigo Rückl/Cemitério dos Botocudos). Até os dias de hoje, neste local se encontram ainda espalhados pelo camada cinzenta no solo pequenos fragmentos de ossos humanos. Pelas características do lugar e pelas descrições feitas por Fernando Oppitz em 1886, este sítio de sepultamento raso em abrigo sob rocha, encontra-se classificado arqueologicamente pertencendo a tradição Itararé.


Fabio Krawulski Nunes - Pesquisador autodidata da história e arqueologia do Vale do Rio Itapocu - safarijow@gmail.com


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