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Notícia . Especiais 01/03/2018
Foto: FJBrugnago/JDV

Haitianos radicados em Jaraguá estão organizados em associação

Carmsherle Bruna Louis nasceu no dia 7 de junho de 2015 no Hospital e Maternidade Jaraguá. Filha de haitianos vai demorar alguns anos para ela entender a tragédia registrada no meio da tarde do dia 12 de janeiro de 2010, que destruiu o Haiti matando pelo menos 300 mil pessoas e obrigando milhares de pessoas a buscar por terras distantes na tentativa de reconstruir a vida. Em Jaraguá do Sul, hoje organizados em uma associação que acaba de ser reconhecida como de utilidade pública municipal pela Câmara de Vereadores, eles são cerca de 200, todos empregados. Mas já foram mais de 600 em períodos posteriores a 2013 quando a migração para a cidade foi bem mais acentuada que agora.

Futuro interrompido

François Louis tem 40 anos e cursava engenharia agroflorestal em uma universidade da República Dominicana. Estava no quarto ano quando o terremoto de 7,0 Mw destruiu o Haiti, com efeitos mais catastróficos na capital do país. “Porto Príncipe sempre teve uma grande população por conta da migração de famílias do interior. Todo mundo gosta de morar em cidades mais desenvolvidas. Naquele dia eu estava em uma localidade do interior, mas não perdi ninguém da minha família, felizmente”. Depois da tragédia, por falta de recursos o governo parou de financiar cursos superiores.

Em 2013, sem trabalho e sem nenhuma perspectiva de vida em meio a uma crise humanitária resultante da tragédia, François decidiu migrar para outro país junto com a mulher, Pelina Jean, 33 anos. À época, os dois filhos, Edners Wolff Erwins Louis e Linscy Mathe Elguine Louis, hoje com 8 e 5 anos, respectivamente, ficaram com um irmão. A saga de François e Pelina começou no dia 28 de fevereiro daquele ano e terminou no dia 14 de março em Jaraguá do Sul. Num roteiro de incertezas pela República Dominicana, Colômbia, Equador, Peru e, finalmente, o Acre, a porta de entrada para o Brasil na condição de clandestinos. A aventura do casal custou US$ 4 mil.

No extremo oeste

Foi em Porto Velho, capital do estado de Rondônia, que François localizou um amigo em São Miguel do Oeste, já na divisa com a Argentina, um professor de uma unidade do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. Na cidade quase nada havia para se fazer como meio de ganhar a vida. Mas foi lá que o haitiano, persistente, diz ter “ouvido falar em Jaraguá do Sul como uma cidade onde havia muitos empregos”. Com algum dinheiro ganho em serviços temporários, o casal se pôs na estrada novamente. Aqui estabelecidos, um mês depois François foi ao Haiti resgatar os dois filhos. E isso lhe custou mais R$ 4 mil duramente economizados em passagens aéreas.

Primeiro emprego

Na função de operador de máquinas, o primeiro emprego foi na Metalúrgica Artama. Porém, a crise no setor provocada pela instabilidade econômica no país provocou a demissão de 70 funcionários, entre eles, François. Sem desanimar, em 2016 eles conseguiram visto permanente no Brasil. Um dos empregos seguintes foi na construção do Supermercado Giassi, como conferente de materiais usados na obra. Há pouco mais de um mês ele conseguiu emprego na empresa Zanotti Elásticos. Ele, a mulher, também empregada, e os filhos (os dois mais velhos frequentando escola da rede municipal) moram no Bairro Rau, em casa alugada.

A Associação

Em 2015 a estimativa era de que pelo menos 600 haitianos residiam e trabalhavam em Jaraguá do Sul. Porém, a crise econômica brasileira fez com que muitos deles buscassem outros destinos, voltando para o Haiti, mesmo com a precária situação que o país ainda vive (embora pouco, há empregos lá), Chile e até mesmo os Estados Unidos, agora ainda mais rigorosos com imigrantes. Restaram cerca de 200 deles na cidade, hoje todos empregados. Foi pensando nas dificuldades enfrentadas com a língua, principalmente, documentos e empregos, por exemplo, que François e outros cinco amigos começaram a pensar sobre uma forma de apoiar aqueles que já estavam por aqui e os que chegavam.

E foi em 27 de outubro daquele ano, que seis haitianos reunidos na Igreja Batista do Bairro Rau, fundaram em Jaraguá do Sul a Associação de Movimento Social para Reunião dos Haitianos no Brasil, presidida por François e que tem Jean Wendy Luc na vice-presidência. Foram motivados pelo assassinato de um compatriota em Itajaí, crime até hoje sem solução. Com apoio decisivo da contadora Neusa da Silva Marques Barth, também procuradora da entidade, a Associação passou a ter existência legal. E, por força de proposição do vereador Pedro Garcia (MDB), a Câmara de Vereadores concedeu o reconhecimento de utilidade pública. O que dá a condição de participar de benefícios oriundos de políticas sociais desenvolvidas pelo município.

Boa acolhida

“O que queremos é dar apoio para haitianos e estrangeiros de outras nacionalidades que chegam à cidade em busca de uma nova vida. Porque aqui não temos abrigos temporários e nenhum tipo de ajuda do governo”, lembra François. Exceto em um único caso onde a empresa alegou não contratar estrangeiros, François Louis diz que sempre teve boa acolhida em todas as vezes que procurou trabalho. Ele não acalenta esperanças de que seu país seja reconstruído tão cedo, mas diz que “apesar de ser um lugar um pouco caro para se viver, pelo menos aqui não temos violência, a gente se sente mais seguro”. Hoje, as reuniões da Associação acontecem em espaço cedido pela Igreja Matriz São Sebastião. Fanáticos por futebol, todos os domingos à tarde um grupo se reúne no campo da Associação dos Servidores Públicos Municipais (Arsepum). A pretensão, inclusive, é disputar o campeonato varzeano da cidade.

Texto Celso Machado


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