Guardiões do passado: como dois catarinenses ajudam a manter viva a história de Jaraguá do Sul
Foto: Divulgação/Arquivo pessoal
Manter viva a história de uma cidade vai muito além de preservar documentos e itens antigos. É um trabalho constante, que ajuda a garantir que as novas gerações compreendam de onde vieram, quem construiu a comunidade em que vivem e quais escolhas foram feitas no caminho até aqui.
Em Jaraguá do Sul, esse trabalho essencial é realizado, principalmente, por dois profissionais que dedicam a vida à memória local: Silvia Kita e Ademir Pfiffer.
>> Nomes que, inclusive, são presença constante aqui no JDV. São eles que nos ajudam a contar, com precisão e afeto, as histórias que moldaram a cidade e, também, a região. 😉
Estes historiadores são verdadeiros guardiões do passado local, pois têm um papel central na preservação e na difusão da história jaraguaense. Cada um, com trajetórias singulares e complementares, ajuda a montar o quebra-cabeça da identidade local, conectando documentos, relatos orais, fotografias e registros esquecidos no tempo.
O JDV conversou com os dois especialistas para entender como é feito esse trabalho, quais são os desafios de manter a história viva em tempos digitais e por que lembrar do passado pode ser um ato revolucionário.
Silvia Kita: uma vida entre documentos, acervos e descobertas
Silvia Regina Toassi Kita sempre foi fascinada por história. Desde a infância, o gosto pela leitura de fatos e acontecimentos despertou um olhar atento para os registros documentais. Sua relação com a história de Jaraguá do Sul se intensificou quando passou a atuar como professora – na Escola Cristina Marcatto, Helmuth Duwe e Educação de Jovens e Adultos na WEG II – e, mais tarde, no Arquivo Histórico do município, onde trabalha desde 1994.
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Ela atuou também como pesquisadora e responsável por arquivos em outras cidades, como Blumenau e Rio do Sul, sua cidade natal – onde foi contratada para implantar o Arquivo Histórico, reabrindo o Museu Municipal entre 1991 e 1993.
No dia a dia, aqui em Jaraguá, Silvia orienta uma equipe na higienização, acondicionamento, descrição e digitalização dos acervos. O material inclui registros administrativos da Prefeitura desde 1917, documentos da Câmara, do Judiciário, de personalidades locais e de instituições como o Hospital São José.
Ela defende que o Arquivo tem uma missão clara: “preservar a memória histórico-documental do município e disponibilizar o acervo para todos”.
“Um dos principais desafios é garantir que a documentação esteja bem guardada e conte com profissionais qualificados para organizar, inventariar e preservar o acervo. Infelizmente, muita gente ainda descarta papéis importantes sem considerar a possibilidade de doação ao Arquivo Histórico”, alerta.
Essa falta de consciência sobre a importância da preservação, segundo ela, também é um desafio quando se trata das novas gerações.
“Querem tudo na ponta do dedo e muitos não têm noção de que, antes disso, alguém pesquisou, inventariou, escreveu e digitalizou”, observa Silvia, ao lembrar que a informação fácil de hoje é fruto de um trabalho longo e técnico feito por trás dos bastidores.
Ademir Pfiffer: o historiador que traduz o Vale do Itapocu
Ademir nasceu em Guaramirim e cresceu imerso nas histórias da família e da região. As visitas ao avô materno, Alwin Maas, descendente de pomeranos, foram seu primeiro contato com a memória ancestral.
“Nos anos 60, durante minha infância, as visitas à casa dos Maas, no bairro Vila Nova, em Joinville, eram momentos de grande aprendizado. Enquanto eu e meus irmãos brincávamos no rancho rural, eu ouvia meu avô contando histórias da Pomerânia e da Alemanha”, lembra.
Na juventude, veio o interesse pelos livros de Viriato Correia e Monteiro Lobato, além do encanto pelas aulas de História, então, desde muito cedo começou a questionar. Formou-se em História pela Univille entre 1987 e 1991, e concluiu a pós-graduação em 1996, em São Paulo.
Antes disso, trabalhou como professor e diretor escolar, criou o grupo folclórico Schroederstrasse Eins e participou de diversos projetos de fomento cultural. “Mais de mil horas em cursos de formação me prepararam para atuar como pesquisador da educação e da memória”, conta. Foi aprovado em concurso da Prefeitura de Jaraguá do Sul em 1998, sendo chamado em 2001, na gestão de Irineu Pasold e Moacir Bertoldi.

Desde então, atua como historiador público, com contribuições no registro de patrimônios, apoio a museus e incentivo a políticas de preservação da memória local. Entre os trabalhos mais marcantes, cita o tombamento da Igreja Luterana de Santa Luzia, a pesquisa sobre o Clube Atlético Baependi (com Silvia Kita), e o levantamento oral e documental para o livro de Schroeder (2020).
Para ele, preservar a história “transcende a guarda de registros”: “É um ato de reverência aos que edificaram essa região. A história nos conecta ao presente e nos permite projetar um futuro mais consciente”.
Ademir também é ativo nas redes sociais, onde compartilha conteúdos históricos com linguagem acessível. “A tecnologia me permite democratizar o acesso à história. Consigo dialogar com o público, responder dúvidas e tornar o conhecimento mais próximo de todos.”
As marcas deste trabalho histórico na vida da cidade
O impacto do trabalho de Silvia e Ademir está espalhado por toda Jaraguá do Sul. O acervo organizado por Silvia no Arquivo Histórico Municipal, com mais de 38 mil caixas de documentos e 600 mil fotografias, é utilizado diariamente por pesquisadores, estudantes, jornalistas e moradores em busca de registros para aposentadorias, comprovações, projetos culturais e trabalhos acadêmicos.
“No Arquivo, nós não apenas guardamos documentos. Nós garantimos o acesso às histórias e aos direitos de cada cidadão”, diz.
Silvia também é autora e coautora de diversas publicações, como Festa de Rei (2000), Baependi: 100 anos de muitas histórias (2008, com Ademir Pfiffer), A Saúde em Jaraguá do Sul – Memória e História (2016), Balduino Raulino – A vida que desejo para qualquer um (2025), Pelas Ruas da Memória (2025, com Loreno Luiz Zatelli Hagedorn), entre outros. Assina ainda capítulos e textos em livros voltados à história de Jaraguá, da imigração italiana e húngara, educação e espaços de memória.
“A história de Jaraguá do Sul tem muito da coletividade. Foi feita por muitos braços. A comunidade sempre se envolveu nas igrejas, nos hospitais, nas ações sociais. Gosto de pesquisar as primeiras décadas porque é ali que vemos como tudo foi sendo criado a partir de muito esforço”, afirma.
Ademir, por sua vez, tem contribuído para uma valorização mais ampla da identidade regional. Sua atuação no tombamento da Igreja Luterana de Santa Luzia, no plano museológico do Museu Histórico Emílio da Silva e em projetos como o monumento da Segunda Guerra em Massaranduba são exemplos de sua dedicação ao que chama de “memória afetiva e simbólica”.

“A história de Jaraguá e dos municípios da região são verdadeiros testemunhos de resiliência e iniciativa coletiva”, define.
Juntos, os dois constroem pontes entre passado, presente e futuro. Não apenas registrando o que passou, mas ajudando a sociedade a se entender e a se planejar a partir da memória. Como Silvia defende, “um Centro de Memória moderno, acessível, com exposições e salas de pesquisa, é o legado que a cidade merece e precisa”.
Como isso impacta sua vida?
Sem memória, uma cidade perde seu eixo. O trabalho de Silvia e Ademir garante que Jaraguá do Sul continue reconhecendo suas origens, celebrando seus personagens e aprendendo com suas trajetórias. Mais do que guardar documentos, esses guardiões da história mantêm viva a identidade de um povo. É por meio deles que gerações futuras poderão entender quem somos e como chegamos até aqui.
Gabriela Bubniak
Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.