Coveiro autista de SC transforma cemitério com esculturas feitas à mão após se inspirar em Paris
Com TEA, servidor público aprende escultura sozinho e cria obras no cemitério onde trabalha. Arte no luto feita à mão.
Na cidade de Schroeder (SC), uma história silenciosa vem tomando forma entre lápides e flores. Pablo Luis Nicoline, funcionário público e coveiro do cemitério municipal, encontrou na escultura não só uma forma de expressão, mas também um gesto profundo de respeito e acolhimento ao luto. Autodidata e diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), ele decidiu transformar com as próprias mãos o ambiente onde trabalha todos os dias, criando obras artísticas para embelezar o cemitério e homenagear aqueles que partem.
O desejo de tornar o cemitério um lugar mais acolhedor
Pablo atua nos serviços funerários da Prefeitura de Schroeder, no Norte catarinense. Entre enterros e despedidas, ele percebeu que o espaço que acolhe tantas dores merecia também um pouco de beleza. Nasceu daí o desejo de mudar a atmosfera do cemitério, não com palavras, mas com esculturas que pudessem trazer um pouco de paz às famílias enlutadas.
Referência inesperada: cemitério francês influenciou a visão de arte no luto
Ele se inspirou no Cemitério Père-Lachaise, em Paris — onde está sepultado Oscar Wilde, um dos autores que mais admira. “Sempre me inspirei muito nesse lugar. É uma obra de arte a céu aberto, não apenas pelos nomes famosos, mas pelas esculturas espalhadas por toda a sua extensão”, explica.


Sem apoio institucional, ele decidiu realizar o projeto por conta própria
A ideia, no entanto, não encontrou apoio imediato. Pablo chegou a apresentar um projeto para a administração municipal, mas a resposta foi o silêncio. “O silêncio foi tão sepulcral quanto as catacumbas que faço”, recorda.
Mesmo sem incentivo institucional, a vontade de transformar o espaço não saía de sua cabeça. Ele decidiu seguir por conta própria, usando recursos pessoais e enfrentando os desafios técnicos sozinho. Começou sem qualquer formação artística, apenas com determinação e curiosidade.
Autismo e autodidatismo: o caminho até a escultura em cimento
Sua condição de pessoa com Transtorno do Espectro Autista acabou se tornando uma aliada. Foi o hiperfoco que o levou a mergulhar em livros técnicos, estudar anatomia humana e experimentar métodos até encontrar um caminho. “Nem sabia que seria capaz de fazer uma obra dessas”, admite.
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Sem escola, sem professor, sem ateliê. A oficina de Pablo era um rancho empoeirado. As primeiras ferramentas: uma colher de pedreiro e um grampo de roupa. O material escolhido foi o cimento, difícil de trabalhar devido ao tempo limitado de manuseio: muito mole, não se sustenta, e à medida que enrijece , se torna mais difícil de moldar. Mesmo assim, ele insistiu. Se algo saía errado, corrigia até ficar satisfeito. Foi um processo de tentativa, erro e superação.
Estudo de anatomia foi essencial para alcançar realismo nas esculturas
Além da prática manual e da experimentação com ferramentas improvisadas, Pablo entendeu que, para representar figuras humanas com fidelidade, precisaria dominar proporções, formas e estruturas corporais. Foi aí que mergulhou nos estudos de anatomia, consultando livros técnicos, alguns deles tão específicos que nem mesmo profissionais da saúde que ele conhecia costumavam utilizar. O esforço rendeu frutos: com conhecimento adquirido por conta própria, passou a esculpir com mais precisão, respeitando simetrias e detalhes anatômicos que dão veracidade às obras.
Primeira escultura ganha forma após um ano de trabalho solitário
Aos poucos, a experiência foi mostrando resultados. Se com ferramentas improvisadas já conseguia bons efeitos, imaginou o que poderia fazer com instrumentos adequados. Investiu, então, em um kit completo para escultura em cimento.
Um ano depois, a primeira estátua, denominada “O Luto” está quase finalizada. Para Pablo, esse trabalho não é apenas artístico, mas também simbólico: uma forma de romper a barreira que existia entre ele e as famílias que atendia. A escultura, segundo ele, cria um elo, humaniza o espaço e abre caminho para novos olhares sobre o cemitério.
O projeto pessoal que está mudando a paisagem do cemitério de Schroeder
Ao começar a trabalhar no cemitério, Pablo se incomodou com o abandono e a frieza do local. Agora, vê seu sonho ganhando forma pelas próprias mãos. A primeira escultura é só o começo. Ele pretende seguir criando novas peças para tornar o espaço mais acolhedor, sem jamais perder de vista o respeito pelas histórias que ali descansam.
Entre Oscar Wilde e Hamlet: referências que guiaram o processo criativo
Apaixonado por grandes autores, Pablo cita como referências Oscar Wilde, Sêneca e Shakespeare. Mas faz questão de não parecer pretensioso. “Não quero ser tomado por intelectual. Tenho minhas limitações, e entendo as dificuldades de quem tem TEA — meu filho também tem o diagnóstico”, afirma.
Suas inspirações são, antes de tudo, humanas. Suas esculturas não nascem da vaidade, mas da empatia. Não querem ser monumentos, mas gestos de cuidado.
Como isso impacta sua vida?
Se você mora em Schroeder ou em alguma cidade próxima, essa história talvez mude sua maneira de ver o cemitério local. O espaço, muitas vezes marcado apenas pela dor da perda, começa a se transformar pelas mãos de quem trabalha ali todos os dias. A arte de Pablo é um convite ao olhar mais atento, ao cuidado com a memória e ao respeito por quem parte, e por quem fica.
Marcio Martins
Profissional da comunicação desde 1992, com experiência nos principais meios de Santa Catarina e no poder público. Observador, contador e protagonista de histórias, conheço Jaraguá do Sul como a palma da mão