[Opinião] O fim dos orelhões e a S.W.A.T
Foto: JDV
Tuein tuein/ Ocupado pela décima vez/ Tuein/ Telefone não consigo falar/ Tuein tuein/ Estou ouvindo há muito mais de um mês/ Tuein” (Telefone; Wilson Simonal)
Quem aqui tem mais de trinta anos talvez já tenha utilizado um orelhão. Quem tem mais de quarenta, muito provavelmente. E quem tem mais de 50, com toda a certeza (salvo se viveu em algum lugar que essa tecnologia nunca chegou).
Para os leitores mancebos, orelhão é aquele equipamento público com um telefone de gancho, para chamadas locais ou interurbanas mediante a utilização de fichas (para os mais antigos) ou cartões (para os menos antigos) previamente comprados. Soube, inclusive, há não muito tempo, que os orelhões atualmente permitem chamadas gratuitas.
O apelido veio, muito provavelmente, do formato da concha que protege o equipamento. Em cidades turísticas, a forma é da mais diversificada, de acordo com alguma característica ou produto típico local.
O fim dos orelhões
Vi uma matéria, hoje, que me surpreendeu. Em Santa Catarina há 65 orelhões em funcionamento e pouco mais de 90 ativos (a diferença se refere àqueles que estão em manutenção). Sim, você leu certo, sessenta e cinco! Possivelmente umas duas ou três décadas atrás esse deveria ser o número de aparelhos em uma cidade de pequena para mediana.
Conteúdos em alta
No país, o número total de telefones em atividade é de menos de 10 mil. Dez mil! Para os mais saudosos, essa informação deve ser um susto. Não sei quantos orelhões existiram no auge de sua existência, mas dez mil para o Brasil inteiro é quase um disparate!
E parece que até o final do ano o número será zero. Salvo se alguém se dispuser a manter como relíquia ou atração turística ou história esses dinossauros da comunicação à distância. As concessões das operadoras obrigando a manutenção dos aparelhos termina esse ano e a previsão é justamente essa: retirar tudo.
Mudança de hábito
Sou do tempo que o telefone em casa era o fixo. Primeiro o de disco (que se colocar na frente de algum adolescente de hoje, possivelmente não conseguirá ligar para ninguém), e depois, a grande novidade, o de teclas. Alguns tinham até uma chavezinha embutida para evitar que os filhos ou colaboradores da casa ficassem pendurados o dia inteiro no aparelho. Para os de disco foi criado um cadeado específico. A engenhosidade em ação! Quem nunca viu, procure aí na internet que saberá do que falo.
E quando fui estudar fora, não tive o privilégio de ter um telefone em casa. Como fazia para me comunicar com minha família? Uma a duas vezes por semana, ligava de um orelhão, normalmente a cobrar, para dizer que estava vivo.
Acontece que eu não era o único estudante sem telefone em casa. Logo, as filas no orelhão, especialmente a partir das 20 horas, eram bastante grandes. Esse era o horário em que as ligações interurbanas ficavam mais baratas.
Mas nem sempre, a gente conseguia ligar. Muita fila, muito cansado, muito trabalho ou livros para ler. E ficava tudo bem. Nossos pais sabiam que no outro dia, ou alguns dias depois ligaríamos.
Façamos um corte de uns 30 e poucos anos. Um adolescente ou jovem na faculdade, morando sozinho ou com amigos em alguma república em outra cidade, que não atende a mãe no seu aparelho celular. O que acontece?
Não duvido que em poucas horas a mãe já tenha acionado a S.W.A.T. para invadir o apartamento e ver se está tudo bem com seu bebê…
Raphael Rocha Lopes
Disrupção.TUDO! - Raphael Rocha Lopes é advogado e professor. Escreve sobre educação, comportamento e transformação digitais | @raphaelrochalopesadvogado