O que foi o festival de formas animadas que encantou milhares de espectadores em Jaraguá do Sul e virou referência mundial?
Evento transformou Jaraguá do Sul em referência nacional e internacional no teatro de formas animadas
Apresentação do personagem Kasperle, ícone do teatro de luvas europeu, durante o Festival de Formas Animadas em Jaraguá do Sul - Imagem reprodução YouTube Câmera Coelho
Durante 14 edições consecutivas, o Festival de Formas Animadas transformou Jaraguá do Sul em uma verdadeira capital do teatro de bonecos.
O evento não apenas reuniu artistas de diversos países, mas também marcou a vida de crianças, famílias, educadores e artistas locais. Foi um movimento cultural que projetou a cidade no cenário nacional e internacional das artes cênicas.
Como tudo começou
O embrião do festival surgiu do desejo do Grupo GATS de criar um festival de teatro em Jaraguá do Sul. Em busca de apoio, integrantes do grupo, como Leone Silva, Sandra Baron e Rubens Franco, foram até a Fundação Catarinense de Cultura.
Lá, ouviram que já existiam festivais de teatro suficientes no estado, mas havia espaço para algo inédito, um festival de formas animadas. A sugestão partiu de Marta Mansinho, da direção de teatro da FCC, que também recomendou o uso do termo “formas animadas” em vez de “bonecos” para ampliar o escopo artístico, incluindo objetos, sombras, marionetes e novas linguagens.

O grupo abraçou a ideia. A primeira curadoria aconteceu na sala da casa de Leone Silva, com apoio de Willian Sieverdt (Trip Teatro) e Antônio Bonequeiro (Joinville). O projeto foi aprovado pela Fundação Catarinense de Cultura, e, assim, em agosto de 2001, nasceu a primeira edição do Festival de Teatro de Formas Animadas de Jaraguá do Sul.
Uma curadoria de descobertas
Nos quatro primeiros anos, a curadoria foi coordenada por Leone Silva, que também dirigia o GATS. Ele lembra que o maior desafio era mostrar ao público a diversidade do teatro de bonecos, algo que nem mesmo os organizadores compreendiam por completo no início. O festival, segundo ele, foi uma jornada de descobertas para todos.
Conteúdos em alta
“Foram muitos espetáculos marcantes, mas nunca esqueço o italiano Salvatore Gatto, com sua técnica de teatro de luvas. Ou o argentino Sérgio Mercúrio, que nos abriu portas para um novo mundo. E, claro, nosso próprio espetáculo ‘O Patinho Feio’, que nos levou ao exterior”, relembra Leone.

A curadoria, desde o começo, valorizava o olhar de especialistas da área. Com o tempo, o festival passou a contar com a presença contínua de Willian Sieverdt, reconhecido por sua trajetória no teatro de animação.
A seleção incluía grupos locais, nacionais e internacionais, compondo uma programação diversa, surpreendente e, muitas vezes, provocadora.
Artistas do mundo inteiro em Jaraguá
Entre 2001 e 2014, o festival recebeu companhias de pelo menos dez países, como Itália, Japão, Argentina, Hungria e Espanha, além de grupos de diversas regiões do Brasil. Jaraguá do Sul tornou-se, por alguns dias de cada ano, o epicentro mundial da arte dos bonecos.

A lista de artistas é um capítulo à parte, Salvatore Gatto (Itália), Hoichi Okamoto (Japão), Jordi Bertran (Espanha), Mikropódium (Hungria), Cia. PeQuod (RJ), Grupo Sobrevento (SP), Giramundo (MG), In Bust (PA), Cirquinho do Revirado (SC), Trip Teatro (SC), entre muitos outros. As apresentações ocorriam em teatros, escolas, empresas, praças e até em terminais urbanos, alcançando públicos que, muitas vezes, nunca tinham assistido a uma peça teatral.
Para além do espetáculo, um festival para estudar arte
O impacto do festival não se restringia ao palco. Desde 2004, a programação incluía o Seminário de Estudos sobre Teatro de Formas Animadas, uma parceria entre SCAR, UDESC e artistas como Gilmar Antônio Moretti, Ana Paula Moretti Pavanello Machado e o professor Valmor Nini Beltrame.

Esse seminário promovia mesas, oficinas e debates com pesquisadores de várias partes do país, e foi o embrião da revista Móin-Móin, uma das poucas publicações científicas no Brasil dedicadas exclusivamente ao teatro de formas animadas. A revista consolidou a relevância do festival como espaço de formação e reflexão, e elevou Jaraguá ao status de referência em estudos na área.
O modelo de Jaraguá do Sul, combinando arte e pesquisa, foi tão inovador que passou a ser citado em estudos acadêmicos e adotado como referência por outros eventos brasileiros, como o Animaneco e o Festejo.
Do encantamento à interrupção
O festival encantou milhares de espectadores, incluindo muitas crianças que tiveram ali seu primeiro contato com o teatro. Projetos como “A Escola Vai ao Teatro” integravam a programação e envolviam redes públicas e privadas de ensino. Personagens como o “Vovô Envergonhado”, um boneco icônico, desfilavam pelas ruas e mobilizavam a cidade inteira.
Entretanto, após 14 edições, o festival foi interrompido em 2015. A 15ª edição chegou a ser anunciada, mas foi cancelada por falta de repasses governamentais. A SCAR declarou que não conseguiria arcar sozinha com os custos.
A suspensão gerou comoção e críticas públicas, pois o evento já era reconhecido como um dos principais do gênero no Brasil, como destaca o livro “Festivais de Teatro de Animação no Brasil, Experiências e Perspectivas” (2021).

Legado vivo na memória e nas novas gerações
Mesmo sem novas edições, o festival deixou marcas profundas. Muitos artistas locais, como Leone Silva, continuaram atuando e formando novas gerações de animadores. Em 2021, por exemplo, foi realizada uma oficina de 24 horas em Jaraguá, seguida de uma mostra aberta. A atividade foi viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc.
Além disso, em 2025, Jaraguá do Sul entrou na rota do Festival Animaneco, um dos maiores do Brasil na atualidade. O público local pôde reencontrar o universo das formas animadas com peças como “O Romance do Vaqueiro Benedito” e “Plural”.

Segundo Leone Silva, o desejo de retomada segue vivo, “Existe uma vontade latente, tanto da nossa parte quanto de outros artistas e do público. O que falta é um alinhamento de ações e políticas para viabilizar essa retomada”.
Publicações como “A cena em movimento, O teatro de animação em Santa Catarina” (Balarin, 2010) e “Festivais de Teatro de Animação no Brasil” (2024) reforçam a importância histórica do festival de Jaraguá, reconhecendo-o como um marco da articulação entre arte e academia no país.
As contribuições de artistas como Ana Paula Moretti Pavanello Machado e Gilmar Antônio Moretti também foram fundamentais para o reconhecimento do evento em todo o estado.

Hoje, o Festival de Formas Animadas é parte da história cultural de Jaraguá do Sul. Seus impactos são lembrados em estudos acadêmicos, relatos pessoais e na memória de quem viveu cada momento de encantamento. Um projeto que nasceu de uma negativa institucional e virou símbolo de inovação, inclusão e orgulho cultural.
O legado de “O Patinho Feio” e sua inovação artística
Entre os espetáculos que nasceram no calor do Festival de Formas Animadas e ganharam projeção nacional, O Patinho Feio ocupa um lugar de destaque. Criado pelo grupo GATS, de Jaraguá do Sul, o espetáculo conquistou prêmios em quase todos os festivais brasileiros em que participou e foi aprovado em sua única inscrição internacional.

O diferencial da peça está na simplicidade criativa e na força simbólica da encenação: os atores utilizam apenas as mãos e sacolas plásticas para contar a história, dispensando bonecos convencionais, figurinos ou falas. A proposta inusitada provoca surpresa e encanto. “Cada festival que a gente se inscreve, o pessoal fica abismado com a proposta”, relata Leone Silva.
A inovação despertou interesse também fora do país. O Patinho Feio chegou à Itália, onde o grupo recebeu um prêmio do Ministério da Cultura e realizou apresentações e oficinas sobre a técnica desenvolvida. “Os grupos queriam saber como era feito, como a gente fazia”, relembra Leone. Segundo ele, há planos de remontar o espetáculo em 2026, com um novo elenco. “O impacto que essa peça gera ainda justifica sua volta.”

Mais do que um sucesso pontual, o espetáculo representa a semente que floresceu a partir do ambiente criativo do festival, uma obra que sintetiza o espírito de experimentação, crítica e delicadeza que marcou as 14 edições realizadas em Jaraguá do Sul.
Como isso impacta sua vida?
O Festival de Formas Animadas é mais do que uma lembrança bonita do passado. É uma prova de que cultura transforma, educa e conecta pessoas. Ao manter viva essa memória, Jaraguá do Sul se reconhece como protagonista de um capítulo especial da história artística brasileira, e sinaliza que esse legado pode, sim, ganhar novos atos no futuro.
Max Pires
Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.