Jaraguá do Sul | 03/08/2026 | Atualizado em: 03/08/26 ás 14:45

Conheça a escola sem fins lucrativos de Jaraguá do Sul, construída por famílias, professores e voluntários

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Conheça a escola sem fins lucrativos de Jaraguá do Sul, construída por famílias, professores e voluntários

Foto: Arquivo Pessoal de Danusa

O pão começa a ser preparado antes do intervalo. A terra vira parte da brincadeira. As mãos pequenas aprendem a medir, criar, plantar e transformar. Entre uma atividade e outra, uma história é contada em roda, uma música acompanha a rotina e os materiais ganham novos significados.

Este é um dos recortes do cotidiano da Escola Luz do Vale, em Jaraguá do Sul, uma instituição associativa construída e administrada por pais, professores e voluntários. Criada a partir da união de famílias que buscavam uma proposta diferente de educação, a escola segue a Pedagogia Waldorf e hoje atende 38 crianças, do Maternal ao 2º ano do Ensino Fundamental.

A ideia é que o aprendizado não fique restrito aos conteúdos apresentados em uma sala de aula, mas que atividades – como preparar alimentos, cuidar da natureza, criar objetos com as próprias mãos e participar da organização do ambiente – também façam parte da formação das crianças.

Crianças da Escola Luz do Vale participam de atividade ao ar livre com professora
Crianças participam de vivência ao ar livre na Escola Luz do Vale | Foto: Arquivo Pessoal Danusa

Para entender como essa proposta se traduz na rotina escolar, o JDV conversou com Danusa Araújo, uma das sócias-fundadoras da Associação Luz do Vale. Segundo ela, a forma como a escola organiza o dia a dia parte de uma visão diferente sobre o processo de aprendizagem, especialmente nos primeiros anos da infância.

Uma rotina em que o aprendizado é experienciado

A Pedagogia Waldorf – criada na Alemanha em 1919, por Rudolf Steiner – é um modelo de ensino consolidado globalmente, e tem forte presença no Brasil. Longe de ser uma experimentação isolada, a metodologia parte da ideia de que cada etapa da infância precisa ser respeitada. Nos primeiros anos, em vez de focar em metas puramente acadêmicas, valorizam-se a experiência prática, o movimento e a imaginação como vias para preservar valores e habilidades humanas essenciais para as futuras gerações.

Por isso, na Educação Infantil da Escola Luz do Vale, a rotina é organizada para acompanhar o ritmo da infância, alternando momentos de concentração, brincadeira, criação e convivência.

Ao chegarem, pela manhã, as crianças têm um período de brincar livre enquanto observam os adultos preparando alimentos, costurando, organizando materiais ou confeccionando brinquedos. Dentro da proposta Waldorf, a observação e a imitação fazem parte do processo de aprendizagem, especialmente nos primeiros anos da infância.

“A criança aprende muito pela observação e pela imitação. Então ver o adulto fazendo algo com cuidado também é uma forma de ensinar e educar”, explica Danusa.

Cada dia da semana possui atividades específicas, como pintura em aquarela, culinária, desenho, passeios e trabalhos manuais. As transições entre essas atividades acontecem por meio de músicas, rodas rítmicas e histórias contadas pelas professoras.

A rotina da escola também acompanha as estações do ano e algumas datas do calendário, como Páscoa, São João, São Miguel, Advento e Natal. Segundo a instituição, essas celebrações são trabalhadas de forma simbólica, com atividades ligadas a valores como gratidão, coragem e solidariedade, sem caráter doutrinário.

O contato com a natureza ocupa outro espaço importante no dia a dia. As crianças brincam na terra, na areia, sobem em árvores, exploram os espaços externos e criam suas próprias brincadeiras.

Além disso, os alimentos são preparados na própria escola, com o uso de ingredientes orgânicos. O cardápio não inclui açúcar refinado, leite e glúten, em respeito às restrições alimentares da comunidade; e as crianças participam de diferentes etapas, como preparar a mesa, acompanhar os alimentos sendo feitos, servir os colegas e organizar o ambiente depois das refeições.

No Ensino Fundamental, essa proposta continua com as disciplinas previstas pela legislação brasileira. Apesar de seguir uma metodologia própria, a escola atende aos requisitos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que define as aprendizagens essenciais da educação básica no país.

E, a partir dessa base, a escola combina os conteúdos obrigatórios com atividades como Música, Inglês, Jogos, Culinária e Manualidades, que fazem parte da proposta pedagógica da instituição.

Criança realiza trabalho manual durante atividade pedagógica na Escola Luz do Vale
Foto: Arquivo Pessoal Danusa

Os materiais utilizados também fazem parte da experiência de aprendizagem. A instituição prioriza, sempre que possível, recursos de origem natural, como giz de cera de abelha e tintas de aquarela com pigmentos naturais, buscando estimular aspectos sensoriais e artísticos das atividades.

A escola também trabalha com a produção dos próprios cadernos pelos estudantes, que registram os conteúdos com textos, desenhos e ilustrações.

Ao longo da trajetória escolar, a escola afirma buscar o desenvolvimento de habilidades como criatividade, autonomia, pensamento crítico, resolução de problemas, colaboração, comunicação e responsabilidade.

Do grupo de estudos à criação de uma escola

A história da Associação Luz do Vale começou em 2020, quando um grupo de famílias de Jaraguá do Sul passou a participar de encontros on-line para estudar a Pedagogia Waldorf. Então, de uma troca de conhecimentos entre pessoas interessadas em educação acabou se transformando no desejo de criar uma escola com essa proposta na cidade.

Crianças reunidas na entrada da Escola Luz do Vale
Foto: Divulgação/Escola Luz do Vale

Foi nesse movimento que quatro mulheres passaram a liderar a construção do projeto: Ana Vieira, empresária; Magnólia Ramos, educadora; Jaslana Carvalho, arquiteta; e Danusa Araújo, relações públicas.

Para Danusa Araújo, mãe integrante da organização e uma das fundadoras da escola, tudo nasceu do desejo de construir uma educação que respeitasse o desenvolvimento integral da criança.

“A gente começou com uma vontade muito forte de criar um espaço onde a criança fosse vista na sua integralidade. Não queríamos apenas focar no conteúdo tradicional, mas olhar para a criança em sua integralidade. Ao protegermos o ritmo natural da infância, criamos um ambiente seguro para que a criatividade, a essência e o potencial máximo de cada um desabrochem de forma genuína. É assim que garantiremos adultos mais equilibrados e preparados para um mundo em constante mudança”, conclui Danusa.

A construção ganhou forma em 2023, com a chegada do terreno onde hoje funciona a escola, na Rua Lourenço Kanzler, no bairro Nova Brasília. As primeiras atividades pedagógicas começaram em fevereiro de 2024, com 12 crianças entre 2 e 6 anos.

Uma escola onde a comunidade participa das decisões

Diferente de uma escola tradicional com uma estrutura centralizada de gestão, a Luz do Vale funciona a partir de uma associação. Atualmente, são 22 associados, entre famílias, professores e apoiadores, que participam da vida da instituição por meio de assembleias, mutirões e comissões de trabalho.

Alunos participam de atividade de matemática na sala da Escola Luz do Vale
Foto: Arquivo Pessoal Danusa

A escola possui quatro comissões permanentes: Patrimônio, Alimentação, Relações & Mobilização e Acolhimento. Esses grupos ajudam em diferentes áreas da rotina e da organização do espaço.

“É uma gestão muito participativa. As pessoas não estão apenas colocando os filhos aqui e indo embora. Existe um sentimento de pertencimento, porque as famílias ajudam a construir esse lugar”, afirma Danusa.

A proposta associativa também significa que os recursos arrecadados são destinados à manutenção da escola e ao atendimento das crianças. As mensalidades das famílias ajudam a cobrir custos como salários, alimentação e funcionamento da estrutura, enquanto ações comunitárias e arrecadações ajudam nas ampliações.

Atualmente, a equipe fixa da escola reúne 13 profissionais, entre professores e equipe de apoio. As quatro fundadoras continuam envolvidas na condução estratégica da instituição.

O projeto cresce conforme novas turmas chegam

A Escola Luz do Vale continua sendo construída passo a passo. Desde o início do projeto, a expansão segue um planejamento gradual, acompanhando o desenvolvimento das próprias turmas e a capacidade da associação de ampliar a estrutura física.

Em 2025, a escola iniciou o Ensino Fundamental com a primeira turma de 1º ano. A proposta é abrir uma nova série a cada ano, até completar todo o ciclo do Ensino Fundamental. Em 2026, a instituição passou a contar também com o 2º ano, além das turmas da Educação Infantil.

Para acompanhar esse avanço, a associação já possui o espaço destinado à ampliação da estrutura física e um projeto arquitetônico para as próximas etapas da construção. A próxima etapa é a construção de um novo complexo de salas, planejado para receber as turmas do 2º ao 5º ano e permitir a continuidade da expansão.

Segundo a direção, cerca de 20% dos recursos necessários para essa nova fase já foram arrecadados. A continuidade da obra depende de novas ações de arrecadação, do apoio de empresas parceiras e da participação da comunidade que acompanha o crescimento da instituição.

Para Danusa Araújo, esse modelo de participação é parte da identidade da escola. “Acreditamos que a Luz do Vale é um patrimônio em construção para Jaraguá do Sul”, afirma.

Quer fazer uma visita à Escola Luz do Vale?

Localizada na Rua Lourenço Kanzler, 929, no bairro Nova Brasília, a Escola Luz do Vale abre as portas para as famílias que desejam conhecer a estrutura e proposta pedagógica da instituição. Basta entrar em contato pelo telefone/WhatsApp (47) 98451-1753 (com Magnólia) ou pelo e-mail escolaluzdovale@gmail.com.

A rotina da escola e registros das atividades também podem ser acompanhados pelo Instagram oficial: @escolaluzdovale.

Como isso impacta sua vida?

A Escola Luz do Vale ampliou as opções de ensino disponíveis para as famílias de Jaraguá do Sul ao oferecer uma proposta baseada na Pedagogia Waldorf e em um modelo de gestão comunitária pouco comum no país. Mais do que conhecer uma metodologia diferente, a experiência mostra que a cidade abriga uma escola construída coletivamente, onde pais, professores e apoiadores compartilham a responsabilidade pela educação e pelo crescimento da instituição.

* Edição e colaboração: Gabriela Bubniak

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Maria Eduarda Günther

Jornalista em formação na FURB, nascida em Jaraguá. Cresci entre filmes, livros e peças teatrais. Após criar conteúdo para redes socias sobre Formula 1 e esportes descobri a paixão por jornalismo e a área de comunicação. Nunca perco a oportunidade de conhecer novos lugares e novas histórias por ai.

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