O terremoto que sacudiu Jaraguá do Sul e assustou a cidade inteira em 1946
Em julho de 1946, um tremor vindo do mar de Cananéia foi sentido em Jaraguá. Na época, os jornais relataram como foi o ocorrido.
Registro aéreo histórico de Jaraguá do Sul feito na década de 1940. | Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul
Resumo completo
Data: 18 de julho de 1946
Horário: por volta das 4h da manhã
Sensação relatada: dois tremores seguidos e um terceiro, mais prolongado
Epicentro: mar, a cerca de 30 km de Cananéia (litoral sul de São Paulo)
Magnitude estimada: 4,5 a 4,6, segundo o IAG/USP
Alcance: área de cerca de 60 mil km², do sul de SP ao leste do Paraná
Se tem algo que o jaraguaense não costuma se preocupar é com terremotos influenciando na rotina da cidade; o chão firme do Vale do Itapocu parece não combinar muito com essa ideia. Mas, por volta das 4h da manhã, no 18 de julho de 1946, moradores acordaram com portas e janelas vibrando, enquanto um estrondo abafado anunciava um tremor.
O episódio, registrado por jornais da época e estudado posteriormente por pesquisadores, ajuda a entender como uma cidade relativamente distante das grandes zonas sísmicas também pode sentir um terremoto.
A madrugada em que a terra tremeu
O relato da época descreve a cena com precisão. A cidade ficou alarmada com um “violento tremor de terra”: dois primeiros tremores seguidos e um terceiro, segundos depois e mais prolongado. Portas e janelas estremeceram e ouviram-se estrondos.
O horário ajudou a conter o susto, porque a maioria da população ainda dormia, e muita gente só percebeu o ocorrido depois.

Naquele momento, sem equipamentos modernos de monitoramento, a população só tinha os próprios sentidos para tentar entender o que havia acontecido. O barulho, a vibração das casas e a sensação de movimento no solo alimentaram o medo de um fenômeno que, até então, não fazia parte do cotidiano da cidade.
Um funcionário do departamento de meteorologia da época classificou o fenômeno como uma “convulsão interna”, comum em países sem vulcões, mas sem maiores consequências.
Conteúdos em alta
O ponto de partida foi no litoral sul de São Paulo, próximo a Cananéia, uma região que possui histórico de atividade sísmica acima da média brasileira. O jornal “O Iguape”, em edição publicada no fim de julho de 1946, registrou que moradores da região sentiram o abalo por volta das 4h e relataram um “ronco surdo”, semelhante a um trovão distante, antes da movimentação das casas.
O abalo foi mais forte no litoral
Jaraguá do Sul até sentiu o tremor, mas não foi aqui que ele bateu mais forte. A maior violência do abalo foi notada em Paranaguá e no sul de São Paulo, onde vidraças se partiram e objetos caíram de cristaleiras. Em Curitiba, o tremor também foi percebido, com pânico especialmente na zona operária, cuja população saiu às ruas.
Estudos posteriores do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG/USP) confirmaram que o terremoto ocorreu no mar, a cerca de 30 quilômetros de Cananéia. A magnitude estimada ficou entre 4,5 e 4,6, com intensidade máxima de grau V na escala Mercalli Modificada, nível em que alguns objetos podem cair, mas sem provocar grandes destruições.

A energia liberada no ponto de origem se espalhou pelo interior da Terra em forma de ondas sísmicas, permitindo que o abalo fosse percebido em uma área extensa.
Por que o tremor chegou até aqui?
A distância entre Cananéia e Jaraguá do Sul passa de 300 quilômetros. Mesmo assim, a cidade sentiu o abalo porque ondas sísmicas de um evento desse porte viajam longe. Os pesquisadores concluíram que o tremor foi percebido numa área de cerca de 60 mil km², atingindo cidades do sul de São Paulo, como Iguape, Eldorado e Jacupiranga, e do leste do Paraná, como Paranaguá, São José dos Pinhais, Morretes e Curitiba. Jaraguá ficou no limite externo dessa área, o que combina com o relato de tremor perceptível, mas sem estragos.
O litoral sul de São Paulo é uma das regiões com mais histórico de tremores no país. Além de 1946, o IAG/USP registra abalos na mesma faixa em Cananéia em 1789 e em Paranaguá em 1887. O evento que chegou a Jaraguá em 1946 está entre os mais fortes já documentados nessa zona.
Os terremotos no Brasil
Muita gente tem uma ideia equivocada de que o Brasil não tem terremotos. O país registra tremores todos os anos, embora a maioria tenha baixa magnitude e passe despercebida pela população.
A diferença na intensidade está na posição geográfica do território brasileiro. O Brasil está localizado no interior da Placa Sul-Americana, uma enorme estrutura rochosa que reúne boa parte da América do Sul. Os terremotos mais fortes do planeta costumam ocorrer nas bordas dessas placas, onde há contato direto entre grandes blocos da crosta terrestre.
É o caso da costa oeste da América do Sul, onde a Placa de Nazca se encontra com a Placa Sul-Americana. Esse movimento é responsável pela formação da Cordilheira dos Andes e pelos grandes terremotos registrados em países como Chile e Peru.

Como o território brasileiro fica distante dessas áreas de encontro entre placas, a atividade sísmica costuma ser menor. Ainda assim, a Placa Sul-Americana não é uma estrutura completamente imóvel. Existem falhas e áreas de fraqueza dentro dela que podem acumular tensão e liberar pequenos tremores.
O país já teve outros tremores impactantes
Ao longo da história, diferentes regiões brasileiras registraram terremotos de maior intensidade. Um dos mais fortes ocorreu em 1955, no Mato Grosso, com magnitude superior a 6. Também houve episódios marcantes no Rio Grande do Norte, Amazonas, Minas Gerais e São Paulo.
Em muitos casos, os danos foram limitados porque os tremores ocorreram em áreas pouco habitadas. O caso de João Câmara, no Rio Grande do Norte, na década de 1980, foi um dos exemplos mais conhecidos de impacto sobre uma cidade brasileira, com milhares de imóveis afetados por uma sequência de abalos.
No Sul do Brasil, registros históricos também mostram ocorrências sísmicas. O próprio litoral entre São Paulo e Paraná aparece entre as áreas brasileiras com maior histórico de tremores, incluindo o episódio de Cananéia em 1946.
Como isso impacta sua vida?
Jaraguá do Sul não está sobre uma falha sísmica e não corre risco de terremoto destrutivo. O episódio de 1946 não é um alerta, é um pedaço esquecido da memória da cidade: a madrugada em que o chão do Vale do Itapocu tremeu por causa de um abalo nascido no mar, a mais de 200 quilômetros dali.]
* Edição e colaboração: Gabriela Bubniak

Max Pires
Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.