Quando a máquina aprende o nosso estilo, o que ainda é autoria?
| Divulgação

Quando a máquina aprende o nosso estilo, o que ainda é autoria?

LC - Agência de Comunicação

/ Por LC - Agência de Comunicação

Com ferramentas capazes de reproduzir estilos literários, a escrita enfrenta novas questões sobre autenticidade e criação

Por Josué Souza*

Desde que publiquei Elefante, pela Editora Patuá, a recepção dos meus leitores mirins tem me deixado muito feliz. Eles demonstram uma relação próxima com a obra e suas temáticas, especialmente com a amizade entre Gugu e POC, que transcende a própria história e permite abordar aceitação, diversidade familiar e luto como algo triste, mas que também pode ser compreendido e elaborado.

Uma pergunta de um deles, porém, me chamou a atenção: “Josué, você acredita que, com a Inteligência Artificial (IA), o escritor de hoje não vai mais existir no futuro?” Na hora, respondi que não tinha uma resposta. Contudo, a IA já é uma realidade com a qual todos nós teremos de conviver cada vez mais. Uma máquina já pesquisa, escreve, revisa, traduz, resume, organiza ideias e reproduz padrões de linguagem com uma velocidade que nenhum ser humano consegue acompanhar. Quanto mais essas ferramentas aprendem sobre aquilo que fazemos, mais difícil pode se tornar distinguir o que foi efetivamente criado por uma pessoa daquilo que apenas parece ter sido. (Podem ficar tranquilos: este texto é original, embora eu tenha recorrido à IA, depois de escrevê-lo, para a revisão gramatical.)

Então surge outra inquietação: se uma máquina aprender completamente nosso estilo, o que faremos enquanto escritores? Temos palavras, estruturas, ritmos e procedimentos aos quais retornamos, o nosso “arroz com feijão” literário. Depois revisamos, cortamos, acrescentamos e reescrevemos. Mas, se uma IA aprender justamente isso, como ficamos? A questão não é apenas técnica, mas ética: o que queremos dizer quando afirmamos que determinado texto é de alguém?

Este debate ganha força com o caso de C’était ça ou mourir (algo como Era Isso ou morrer, em tradução livre), do escritor Thélyson Orélien, que foi retirado do Prêmio Goncourt, em meio a acusações relacionadas ao uso de IA. Nesse caso, não considero que a resposta esteja simplesmente em proibir a tecnologia. Ela já existe e continuará sendo aperfeiçoada. Precisamos discutir o que torna uma obra verdadeiramente autoral. A resposta talvez não esteja apenas no estilo, que pode ser analisado e reproduzido.

Quando escrevi Elefante, eu queria transmitir o peso de POC sem fazê-lo pesado em palavras: “Como pode seu peso imenso ser tão leve, e o caminho certo ser uma ponte para as estrelas?” (p. 12). Gugu nasce também como POC, como a floresta, como Guilherme e Joshua. A literatura permite que esses nascimentos aconteçam simultaneamente, como uma explosão que, ao mesmo tempo que devasta, dá origem a um universo. Uma máquina pode modificar aquilo que escrevi, mas não pode transmitir a experiência que me levou a escrever, aquilo que eu tentava compreender e não consegui simplesmente esquecer.

Quando escrevi sobre crianças cujas vidas foram interrompidas, precisei lidar com uma responsabilidade que não poderia ser resolvida automaticamente pela produção de bons parágrafos. Era preciso compreender o limite entre transformar uma dor em literatura e transformá-la em objeto de consumo. Essa responsabilidade também faz parte da autoria. Eu não queria produzir somente linguagem, mas uma experiência estética e de leitura.

Por isso, talvez a resposta para aquele leitor mirim não seja confirmar se a IA substituirá ou não o escritor futuramente, pois o escritor do futuro poderá ser justamente aquele que souber utilizá-la, formando uma espécie de simbiose entre sua experiência com a palavra, a memória e a imaginação e a potência técnica de uma ferramenta capaz de produzir novas formas de expressão.

*Josué Souza é acadêmico de Letras Português/Inglês na Universidade de São Paulo (USP). É autor de Elefante, obra que explora temas como luto, memória, infância, imaginação, diversidade, amor, perda e permanência.

Instagram: @jsescrittor

AnúncioSAMAE
Clique para ler mais notícias como esta
Adicione o JDV como fonte preferida no Google Participe de nossa comunidade no WhatsApp

Últimas 10 notícias publicadas

Especial JDV

22 de outubro de 2026

Primeiro conto de ficção maçônica brasileira se passa em sociedade futurista

A história dos Templários e os símbolos da Maçonaria ganham uma nova abordagem em Exílio Templário: Conto de Ficção Maçônica, lançamento do escritor e Mestre Maçom grau 31 Wildon Lopes. A obra reúne pesquisa histórica, ensaios, poesias, microcontos e ficção científica para discutir questões relacionadas à fraternidade, liberdade, justiça e desenvolvimento humano. Em uma das […]

Cotidiano

Carregando clima…

Especial JDV

Especial JDV

22 de outubro de 2026

Segundo Turno: votamos movidos por quais sentimentos?

Por Deborah Dubner* Vivemos mais uma vez um momento eleitoral marcado por polarizações. Cada extremo puxa a corda para o seu lado, na esperança de vencer. O problema é a corda romper diante de nós, comprometendo, nesse processo, relacionamentos, vínculos e projetos. Todos perdem. Estamos diante do segundo turno das eleições presidenciais. No primeiro turno […]

Cotidiano