A lacuna de liderança que nos aguarda na era da IA 
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A lacuna de liderança que nos aguarda na era da IA 

LC - Agência de Comunicação

/ Por LC - Agência de Comunicação

Executivo da Microsoft e autor de "A tecnologia e você: quem controla quem?", Marcus Fontoura mostra como o Brasil precisa de líderes mais preparados à frente da revolução tecnológica

Por Marcus Fontoura*

O mundo está se tornando cada vez mais digital. No entanto, a maioria dos nossos líderes — tanto no setor público quanto no privado — não compreende a tecnologia em um nível complexo. Esse descompasso vem se tornando progressivamente pior.

Estamos no centro da revolução da inteligência artificial e às portas da revolução da computação quântica. Ambas as tecnologias já causam impactos drásticos na forma como trabalhamos e na dinâmica da nossa sociedade. Precisamos, com urgência, de lideranças preocupadas com o que ensinaremos às nossas crianças e em como elas colaborarão em projetos daqui a vinte anos.

Há histórias incríveis de sucesso que mostram o que acontece quando líderes governamentais letrados em tecnologia investem em iniciativas voltadas à transformação social. Nos últimos anos, o Banco Central do Brasil implementou uma solução nacional de pagamentos digitais em tempo real: o Pix. Desde a sua criação, a ferramenta permitiu a inclusão de milhões de pessoas no sistema financeiro nacional. Hoje, 85% da população brasileira tem acesso a serviços financeiros.

A Fundação Gates também acumula casos de sucesso sobre como a tecnologia pode ser empregada para resolver os maiores gargalos do mundo, como a erradicação da malária e o combate à disseminação do HIV. Tudo começa por compreender os problemas e entender como a tecnologia pode solucioná-los.

Uma das leituras mais relevantes que fiz recentemente foi o livro Algorithmic Institutionalism (Institucionalismo Algorítmico). A obra expande nossa visão tradicional de “instituição” para incluir também os algoritmos, dado o peso que eles têm na modulação dos nossos comportamentos diários.

Os sistemas de computação influenciam nossa forma de trabalhar, comprar e consumir notícias. Um dos muitos exemplos abordados no livro vem da área da saúde, mais especificamente do processo de seleção de receptores para doação de rins. Existem diversas regras codificadas no sistema que impactam diretamente quais indivíduos da fila de transplante receberão os órgãos doados.

Os algoritmos desempenham um papel central na sociedade e devem ser tratados como tal. Precisamos de uma cooperação mais estreita entre sociedade civil, governo e setor privado para pensarmos, juntos, em projetos e regulamentações que nos permitam desenhar o futuro que desejamos e merecemos.

Com bilionários da tecnologia mais interessados em colonizar Marte e alcançar a AGI (Inteligência Artificial Geral) do que em resolver nossos dilemas atuais, cabe ao restante da sociedade e aos governos assumirem o compromisso de entender, regular e guiar o desenvolvimento desses sistemas. Acredito ser infinitamente mais importante resolver nossos desafios presentes — acesso à energia, mudança climática, descoberta de medicamentos, transporte — do que nos preocuparmos com a vida na Terra daqui a mil anos ou se atingiremos ou não a AGI.

Com ou sem Inteligência Artificial Geral, já dispomos da tecnologia necessária para enfrentar essas grandes questões sociais. O que nos falta é engajamento coletivo. Em seu instigante livro Abundance (Abundância), Ezra Klein e Derek Thompson debatem a “política da abundância”: como continuar crescendo a economia por meio do investimento e da entrega de projetos que atendam às nossas necessidades básicas?

É muito mais vantajoso financiar iniciativas que gerem avanços disruptivos na medicina e na redução do custo de vida do que tentar equilibrar, a fórceps, o orçamento da previdência e da saúde pública. Contudo, se quisermos avançar nesses projetos, o futuro não poderá ser uma mera repetição do presente. Quanto melhor compreendermos as tecnologias que moldam nossas vidas hoje, mais capazes seremos de guiar o nosso amanhã.

Precisamos da agência humana para direcionar a busca pela utilidade da máquina (Machine Usefulness ou MU, termo cunhado pelos economistas do MIT e prêmios Nobel Daron Acemoglu e Simon Johnson), em vez de focar apenas em inteligência pura ou automação. Precisamos entender os algoritmos que permeiam nossa rotina para que não tenhamos medo deles. Em vez disso, devemos compreender os benefícios reais de sua adoção e nos munir das ferramentas certas para tomar as melhores decisões.

Outra discussão fundamental é o trade-off entre eficiência e humanidade. Se eu tivesse que resumir esse dilema em uma única frase, diria que precisamos de sistemas eficientes para enfrentar os problemas que trarão um impacto positivo para a sociedade, mas devemos ser extremamente criteriosos sobre quando e como adotar essas tecnologias. Se for necessário construir um sistema, que construamos o mais eficiente possível. Porém, antes de dar o primeiro passo, devemos avaliar se ele de fato enriquecerá a experiência humana. A eficiência pela eficiência pode nos levar a consequências indesejadas.

Espero inspirar as novas gerações a estudar mais e a assumir um papel ativo na construção do nosso futuro. Precisamos de líderes completos, que compreendam a tecnologia e saibam utilizá-la para impactar a sociedade de forma holística. Organizações sem fins lucrativos, como a Code.org, desempenham um papel central ao democratizar o acesso ao ensino de ciência da computação. E devemos ir além, dada a onipresença dos sistemas computacionais em nossas vidas.

Minhas filhas adolescentes estão preocupadas com a IA. Elas me perguntam com frequência se é possível que os robôs destruam a humanidade. Em um tom mais sério, também questionam o que as pessoas farão no futuro quando a IA for capaz de realizar todas as tarefas melhor do que os humanos. Ainda estamos nos estágios iniciais da revolução da IA. Se investirmos em compreender melhor a tecnologia e exigirmos que nossos líderes façam o mesmo, poderemos influenciar os rumos do nosso amanhã. Está em nossas mãos. Mas cada um de nós precisa fazer a sua parte.

Agindo juntos, poderemos construir uma sociedade melhor, mais eficiente, produtiva e feliz.

*Marcus Fontoura é autor de A tecnologia e você: quem controla quem?, publicado pela Citadel Editora. Está atualmente em seu segundo mandato como technical fellow e vice-presidente corporativo na Microsoft, onde atua como CTO do Azure Core. Marcus também ocupou cargos no Google, Yahoo e IBM Research. Foi pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Princeton e obteve seu doutorado em Ciência da Computação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Ele também é autor de Tecnologia intencional (Citadel, 2024).

LinkedIn: Marcus Fontoura

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