Antes e depois de Antídio Lunelli: o que mudou na gestão pública e por que Jaraguá do Sul virou referência no Brasil
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Ao longo dos últimos anos, uma ideia se popularizou entre os eleitores: a de que a boa gestão pública exige mais do que vocação política. A experiência, afinal, vem mostrando que é preciso preparo, método e experiência real em administrar recursos, pessoas e prioridades. Justamente por isso, muitos cidadãos passaram a valorizar perfis que trazem da iniciativa privada uma cultura de resultados, planejamento e responsabilidade. É exatamente nesse contexto que Antídio Lunelli se destacou em Jaraguá do Sul.
Com uma trajetória consolidada fora da política e experiência prática em gestão, ele levou para a Prefeitura de Jaraguá do Sul, a partir de 2017, todos esses anos de aprendizados. Os números e os resultados ao final do mandato mostraram que aplicar métodos consagrados do setor privado ao serviço público não só é possível, como pode transformar realidades.

Da iniciativa privada para a iniciativa pública
Eleito prefeito em 2016 e reeleito com diferença recorde em 2020, Antídio Lunelli governou Jaraguá do Sul de janeiro de 2017 até abril de 2022, quando renunciou para concorrer ao governo de Santa Catarina, algo que acabou não se concretizando. Empresário de sucesso, levou para a Prefeitura uma lógica pouco comum na administração pública: gestão baseada em dados, metas claras e acompanhamento permanente de resultados.
Ao assumir, encontrou um déficit estimado em aproximadamente R$ 63 milhões. A situação, portanto, exigia decisões rápidas e corajosas.
Ajuste fiscal e o Pacote de Equilíbrio Financeiro
Ainda no primeiro ano de mandato, Lunelli lançou o Pacote de Equilíbrio Financeiro, um conjunto de medidas de austeridade para conter gastos e reorganizar o orçamento municipal. Entre as ações estavam a revisão de benefícios, como ajustes no vale-alimentação dos servidores, e o redirecionamento de recursos de fundos considerados não prioritários para áreas essenciais.
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O objetivo era claro: economizar cerca de R$ 20 milhões em 12 meses e evitar um colapso financeiro que poderia comprometer salários, saúde e educação. As medidas geraram forte reação de alguns setores, incluindo greve de servidores e pressão política, mas foram mantidas.
“São medidas necessárias. Senão, vai faltar dinheiro na Saúde, na Educação e para o pagamento da folha”, justificou Lunelli à época, citando exemplos de estados que enfrentaram colapsos fiscais.
O resultado foi a estabilização das contas ainda em 2017, com retomada dos pagamentos em dia e recuperação da saúde financeira do município.
Valorização do servidor de carreira e meritocracia
Apesar do ajuste rigoroso, a gestão Lunelli não adotou uma política de confronto com o funcionalismo. Pelo contrário: reforçou a valorização do servidor de carreira, com foco em meritocracia e desempenho.
Nos primeiros 100 dias de governo, foi anunciada uma reforma administrativa voltada a:
- Priorizar servidores concursados;
- Reduzir cargos comissionados;
- Valorizar desempenho e produtividade.
Mesmo com autorização legal para mais cargos de confiança, menos da metade das vagas foi preenchida. A decisão gerou economia e deu mais protagonismo aos servidores efetivos, combatendo o inchaço político-administrativo histórico.
Combate ao desperdício e gestão eficiente
Outra marca do governo foi o combate sistemático ao desperdício, resumido no conceito de “fazer mais com menos”. A Prefeitura adotou uma série de medidas para modernizar processos e eliminar ineficiências.
Entre elas:
- Implantação do pregão eletrônico, gerando economia estimada em torno de 30% nas compras públicas;
- Centralização da frota de veículos, almoxarifado e compras;
- Integração de sistemas digitais, como notas fiscais eletrônicas, alvarás online e certidões digitais.
Conforme a nova visão, era necessário “passar Jaraguá do Sul a limpo”, corrigindo distorções e gastando com responsabilidade. O efeito foi direto, resultando em menos desperdício e mais recursos para investimentos.
Gestão por metas, produtividade e tecnologia
A consolidação desse modelo ganhou forma com a criação da Sala de Inteligência e Gestão, implantada a partir de 2021, mas desenvolvida internamente desde 2017.
Instalada ao lado do gabinete do prefeito, a sala reúne painéis com dados em tempo real de todas as secretarias: finanças, obras, saúde, educação e serviços. Inspirada em modelos da iniciativa privada, como o centro de inteligência da FIESC, a estrutura permitiu uma governança baseada em indicadores.

“Passamos a ter dados em tempo real de tudo, até mesmo de cada real investido”, afirmou Lunelli.
A ferramenta agilizou decisões, aumentou a transparência e tornou a gestão mais proativa. O modelo foi replicado por diversas prefeituras catarinenses e segue sendo referência em inovação na administração pública municipal.
Combate à cultura de atestados e redução de ausências
Outro ponto sensível enfrentado pela gestão foi o elevado número de afastamentos médicos. Jaraguá do Sul convivia com índices considerados anormais, o que impactava diretamente a qualidade dos serviços públicos.
Para combater abusos, a Prefeitura alterou regras de benefícios, vinculando parte do auxílio-alimentação à presença efetiva no trabalho. A medida foi polêmica, mas reduziu incentivos ao uso indevido de atestados.
Com o apoio da Sala de Inteligência, os índices de ausências passaram a ser monitorados em tempo real, permitindo ações rápidas e pontuais. O resultado foi a redução significativa de afastamentos injustificados e a valorização dos servidores assíduos.
Redução histórica do gasto com pessoal
Os efeitos do ajuste fiscal apareceram de forma objetiva. Quando Lunelli assumiu, mais de 50% do orçamento municipal era consumido pela folha de pagamento. Ao final da gestão, o índice havia caído para cerca de 35%.
A redução liberou recursos para investimentos, subindo sua capacidade para 22%, muito acima do número registrado quando iniciou seu mandato.
Dessa forma, com as contas equilibradas, Jaraguá do Sul passou a investir de forma consistente em:
- Infraestrutura urbana;
- Mobilidade;
- Planejamento territorial;
- Equipamentos públicos modernos.
A lógica era simples: controlar despesas recorrentes para garantir entregas permanentes à população: uma prática comum no setor privado, mas ainda complexa no poder público.
Foi durante a gestão de Lunelli, por exemplo, que Jaraguá do Sul inaugurou a Via Verde, o Parque da Arena e o Parque da Inovação, áreas de convívio, lazer e saúde, que rapidamente caíram no gosto da população e mudaram a cara da cidade.
Combate às enchentes
A construção da Via Verde, aliás, foi um marco no enfrentamento às enchentes, que historicamente afetam Jaraguá do Sul. Integrando mobilidade, lazer e segurança, a avenida margeia o Rio Itapocu e funciona como uma grande área de contenção para momentos de cheia.
Com a execução do projeto, Jaraguá do Sul passou a evitar que ruas e casas fossem atingidas pelas enchentes, já que, desde então, a área serve como uma espécie de “depósito” para a água da enchente, evitando que ela se espalhe por outros locais. Mas, além do impacto positivo na prevenção de desastres, a Via Verde também se tornou símbolo de qualidade de vida, com pistas para caminhada, ciclovias e espaços públicos arborizados.

A experiência bem-sucedida da Via Verde foi levada por Lunelli à esfera estadual por meio do Parque Barriga Verde, que ele apresentou como deputado estadual e foi aprovado pelo governo. Inspirado em Jaraguá do Sul, o projeto prevê a implantação de parques multifuncionais em áreas urbanas vulneráveis de Santa Catarina, priorizando soluções baseadas inteligentes para controle de enchentes.
Saneamento básico como política de Estado
O saneamento foi tratado por Lunelli como prioridade estratégica. Em vez de gasto, passou a ser encarado como investimento em saúde, dignidade e qualidade de vida. Prova disso foram os expressivos investimentos realizados pelo Samae (Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto), com recursos próprios e gestão técnica eficiente.
Com investimentos superiores a R$ 57 milhões, o município atingiu, em 2021, 90% de cobertura de esgotamento sanitário na área urbana, muito acima da média catarinense. A zona rural também foi contemplada: mais de 700 propriedades receberam sistemas individuais de tratamento de esgoto, com foco em saúde e preservação ambiental.
Além disso, foram construídas e ampliadas estações de tratamento, rede coletora e instalados 11 novos reservatórios de água tratada, aumentando em 40% a capacidade de armazenamento.
Em paralelo, a gestão adotou medidas de inovação, como a instalação de painéis solares na ETA Central, tornando-a a primeira obra pública municipal com geração própria de energia. O modelo adotado por Jaraguá do Sul tornou-se referência e antecipou, com responsabilidade, os princípios da universalização previstos pelo novo marco legal do saneamento no Brasil.
Educação com respeito às famílias
Na educação, a gestão descartou completamente o improviso. Um exemplo simbólico foi a mudança nos uniformes escolares, que passaram a ter tecidos mais duráveis e confortáveis.
A decisão partiu de um princípio simples: economizar comprando produtos de baixa qualidade gera desperdício no médio prazo. A política priorizou qualidade, respeito às famílias e uso inteligente do dinheiro público.
Mas outros diversos investimentos foram feitos, como o início da construção e a inauguração de novas creches, bem como intervenções importantes, a exemplo do investimento de R$ 7,3 milhões para reforma e ampliação da escola Albano Kanzler, no bairro Nova Brasília.

Durante a gestão Lunelli, a Prefeitura também investiu de forma robusta em tecnologia para as escolas de Jaraguá do Sul, além de ter levado educação financeira a milhares de alunos.
Saúde fortalecida e reconhecida nacionalmente
A saúde foi uma das áreas mais beneficiadas pelo novo modelo de gestão e, nesse período, Jaraguá do Sul fez investimentos importantes, dentre os quais é possível destacar:
- Investimento de R$ 10 milhões no novo centro cirúrgico do Hospital São José;
- Fortalecimento da atenção básica;
- Transparência nas filas de espera.
Durante a pandemia de Covid-19, o município se destacou pela agilidade e organização. Projetos como o Protocolo de Enfermagem, iniciativa vencedora do “Prêmio APS Forte para o SUS: Acesso Universal”, consolidou Jaraguá como referência em inovação na saúde pública. Na ocasião, o programa concorreu com outros 1.294 projetos de todo o Brasil.
Adotado em novembro de 2018, o protocolo diminuiu filas e ampliou o acesso à saúde, estabelecendo que o enfermeiro ou equipe de enfermagem prestam o primeiro atendimento. Dessa forma, podem solicitar exames, indicar alguns medicamentos e também solicitar consultas com especialistas. Se necessário, encaminham o paciente a um médico.
Um legado que atravessa governos
Mais do que obras ou números, o principal legado da gestão Antídio Lunelli está no modelo deixado para a cidade, de uma gestão baseada em números e dados, o que, aliás, permitiu a continuidade das práticas implantadas. Afinal, gestão eficiente não tem ideologia. É preciso apenas pessoas capacitadas e vontade de fazer as mudanças necessárias.