Veja o que resistiu dentro da cápsula do tempo enterrada há 50 anos em Jaraguá do Sul
Arca foi selada em 1976 para chegar intacta a 2026; ao ser aberta, a água tinha entrado e levado parte do que estava guardado dentro
Equipe técnica realiza a abertura da Arca do Centenário durante cerimônia dos 150 anos de Jaraguá do Sul. | Foto: Prefeitura de Jaraguá do Sul/Divulgação
Em 1976, um grupo de pessoas selou registros de Jaraguá do Sul dentro de uma caixa de metal, enterrou na Praça Ângelo Piazera e combinou que aquilo só seria aberto meio século depois, quando o município chegasse aos 150 anos. A intenção era mandar um recado para quem ainda nem tinha nascido.
Na manhã desta sexta-feira (12), a caixa foi aberta. Porém nem tudo que estava lá dentro resistiu.
Ao destampar a arca, a equipe técnica encontrou água acumulada no interior. A umidade danificou parte dos papéis guardados na época, justamente os itens que mais carregavam texto escrito para ser lido em 2026. Os objetos sobreviveram melhor do que as palavras.

O que sobreviveu e o que se perdeu
Mesmo com a água, muita coisa resistiu. Os técnicos retiraram da arca moedas, partes de tecido, um chaveiro, o brasão do município, peças publicitárias produzidas para o centenário, jornais da época, um disco de vinil, uma régua e um mini-chapéu, entre outros materiais.
O dano se concentrou no papel. Os documentos, que dependiam da tinta e da fibra para durar, foram os mais afetados pela umidade. O que mais carregava mensagem direta para o futuro foi também o que o tempo corroeu primeiro.
Gente que lembra do que colocou lá
A arca não é abstração para todo mundo em Jaraguá do Sul. Curt Ness, criador de conteúdo e figura conhecida na cidade, estava na Estação Cultural e lembrava do que tinha deixado dentro dela cinco décadas atrás.
Conteúdos em alta
“Deixei um cartão da minha empresa e um chaveiro”, conta
Havia na sala outras pessoas que viveram as celebrações do centenário e voltaram para ver a caixa ser aberta. Algumas reconheciam objetos específicos conforme eles eram retirados.

Uma abertura sob protocolo
A retirada dos itens seguiu um cuidado que o conteúdo da arca justificava. A abertura aconteceu em uma sala preparada para isso, sob protocolo de biossegurança, e só a equipe técnica paramentada e pessoas autorizadas entraram. Os demais convidados acompanharam tudo por uma porta de vidro.
Para o poder público, o gesto de 1976 carrega um significado que vai além dos objetos. “Encontramos história, sentimentos, sonhos e o olhar daqueles que, no passado, pensaram no futuro da nossa cidade”, disse o prefeito Jair Franzner.
A secretária de Cultura, Esporte e Lazer, Ivana Atanásio Dias, puxou a leitura do gesto para o terreno da memória.
“Estarmos aqui hoje é história, significa o valor dado às nossas raízes. Jaraguá do Sul de hoje é a soma de vivências, de influências culturais, de todas as matizes. A história é exatamente isso, nos guia através dos fatos, para que entendamos como chegamos aqui.”

O que acontece com os itens agora
Quem esperava ver os objetos expostos vai precisar de paciência. Por enquanto, nada do que saiu da arca fica em exibição. A equipe técnica tem pela frente um trabalho lento de recuperação, item por item.
Cada peça será separada e colocada para secar em uma secadora de documentos do Arquivo Histórico. Depois vem a estabilização dos materiais.
“Posteriormente, vamos fazer um tratamento com banho e desacidificação nesses documentos, com auxílio de outros técnicos. Na sequência, vamos fazer toda a identificação técnica, fotografar e expor o que for possível”, explicou Silvia Kitta, integrante da equipe técnica da Comissão de Memória e Repertório dos 150 anos.
Como isso impacta sua vida?
A arca foi aberta agora, mas o que estava dentro dela ainda vai voltar a público depois do tratamento, e parte desse acervo vira memória física consultável da cidade. Para quem mora em Jaraguá do Sul, é a chance de ver de perto o que a geração de 1976 julgou digno de atravessar o tempo, e de entender o que a água deixou chegar até aqui.
Gabriela Bubniak
Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.