Como era fazer uma ligação em Jaraguá do Sul na década de 1930? A curiosa história das telefonistas
Antes de o telefone fazer ligações diretas, falar com alguém em Jaraguá do Sul dependia de uma telefonista, uma manivela e, às vezes, dias de espera na fila.
Profissionais da Companhia Telefônica Catarinense na antiga central de Jaraguá do Sul; em destaque, o painel de cabos operado à mão. Foto: Arquivo Pessoal (edição JDV)
Resumo completo
Telefones em 1948: a cidade tinha 66 aparelhos catalogados em lista
Tarifa em 1934: ligação de 3 minutos para Joinville subiu de 900 para 2.100 réis
Ligação direta: não existia, nem para o próprio vizinho
Ligação para Curitiba: podia levar uma semana
Telefonista lembrada: Nair Enke, na central a partir de 1942, falecida em 2011
Fim da manivela: por volta de 1957, com a chegada do DDO
“Alô, telefonista, me liga com o número 1.” Seria mais ou menos assim o começo da conversa se, em 1930, você quisesse ligar para o Hotel Central, em Jaraguá do Sul. Na época, o telefone de cada estabelecimento era identificado por um único dígito, e alguém precisava fazer o intermédio para completar a ligação.
Aí era só aguardar na linha alguns minutos enquanto uma profissional fazia, à mão, a conexão entre o seu aparelho e o do destino. A partir daquela central cheia de plugues e luzes vermelhas, que alguém faria aquela conversa acontecer.
Hoje, a cena parece quase impossível de imaginar. Bastam alguns toques na tela do celular para ligar, enviar uma mensagem ou gravar um áudio para alguém do outro lado do mundo. Há menos de um século, porém, falar com outra pessoa dependia da habilidade de mulheres que conectavam cada chamada.
Foi assim que começou a história do telefone em Jaraguá do Sul.
Quando o telefone chegou por aqui
Não há data exata para a chegada do telefone a Jaraguá do Sul. Os aparelhos desembarcaram em Florianópolis em 1878 e já existiam em Joinville em 1907. Em algum momento nos anos seguintes, a rede de fios que carregava a voz de um lado para o outro passou a operar na cidade.
Os primeiros registros conhecidos são de 1930, quando o telefone de cada estabelecimento era apenas um número de um dígito. O Hotel Central, por exemplo, atendia pelo número 1. Já em 1934, circulavam reclamações à Companhia Telephonica Catarinense, a CTC, sobre as tarifas: uma ligação de três minutos para Joinville teria subido de 900 réis para 2.100.
Conteúdos em alta

No Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul, o documento mais antigo catalogado é de março de 1939. Trata-se de um edital da Prefeitura abrindo concurso para empresas interessadas em explorar o serviço na cidade. O edital pedia, entre outras coisas, quatro telefones para o prédio público, um para o hospital e um para o Fórum da Comarca.
A mulher do outro lado da linha
Uma das figuras centrais dessa história é Nair Enke. Ela entrou na Companhia Telefônica Catarinense em 1942, aos 16 anos, e atravessou quatro décadas de transformação do serviço, aposentando-se como gerente da Telesc por volta dos 60 anos. Falecida em 2011, é lembrada até hoje por muita gente na cidade.

Caderneta de Nair Vosgerau Enke, registrada como telefonista da Companhia Telefônica Catarinense no departamento de Jaraguá do Sul. Foto: Arquivo Pessoal
A jornalista Natália Trentini lembra de uma entrevista que realizou em 2020 com Florilda Donini, filha de Nair. Ela contou que a mãe tinha muito entusiasmo pelo trabalho e que, na época, o aparelho de telefone era praticamente um membro da família.
As telefonistas como Nair eram o ponto de conexão de quem queria se comunicar. No começo, a tecnologia era básica e os números, pouquíssimos. Uma lista de 1948 mostra os 66 telefones que a cidade tinha naquele ano, e nenhum usuário conseguia ligar diretamente para outro, nem mesmo para o vizinho.
“Elas sabiam do que estava acontecendo na vida das pessoas, mas nada poderia sair dali. Toda comunicação era via telefone”, comentou Florilda. A CTC funcionava ao lado da Prefeitura Municipal, onde hoje fica o Museu Emílio da Silva, e era um prédio concorrido.

Como funcionava pedir uma ligação
As telefonistas trabalhavam em turnos, da manhã à noite, operando a central. Havia canais com pequenos plugues redondos e uma luz que acendia em vermelho quando chegava uma chamada. A profissional se conectava ao canal para receber o pedido.
“A primeira ligação do dia, todos os dias, de segunda a sábado, era da Max Wilhelm aqui com a filial deles em Rio do Sul. Aqui era 222 e lá era 468”, relembrou Áurea Maffezzolli, sobre uma das épocas em que atuou como telefonista.
O usuário informava para onde queria ligar e começava a saga. Dentro da própria cidade era mais rápido, bastava conectar o painel ao telefone do destino. Mas, para outras cidades, a telefonista precisava chamar a central da cidade pretendida. Se o destino era distante, a ligação ia de ponto a ponto, conectando uma central à mais próxima na direção do destino.
O processo podia levar horas, ou dias, conforme o tráfego. Enquanto pedia a ligação, a telefonista girava a manivela que gerava a corrente para acionar um alarme na outra central. “Uma ligação para Curitiba demorava uma semana. A não ser que fosse um caso de morte”, contou Áurea.
Para entender, vale lembrar que não existia o cabeamento potente de hoje. Eram cabos ligando uma central à outra, que nos primeiros anos permitiam uma ligação por vez. “Muitas vezes as telefonistas ficavam à noite para tentar diminuir as ligações e achar uma brecha”, comentou Florilda, repassando os relatos da mãe.

“Tem ligação pra você”
Como a maioria das pessoas não tinha aparelho em casa, ir à central era parte da rotina de quem precisava falar com alguém de longe. E, em torno da telefonia, surgiram outras profissões.
Hilário Kruguer, começou ainda jovem, em agosto de 1958, na CTC como cobrador, estafeta e mensageiro.
“Cobrador era fazer as cobranças da empresa, estafeta era entregar fonograma, tipo um telegrama, e mensageiro era, se queriam falar com o João da Silva, por exemplo, tinha que ir de bicicleta avisar: ‘Vai tal hora na telefônica que tem uma ligação de tal lugar para o senhor'”, relembrou o aposentado à jornalista Natália.
Quem chegava à central pedia a ligação e entrava na fila. Alguns iam para casa sem conseguir falar e voltavam outro dia. Quando a vez chegava, vinha o anúncio. “Fulano de tal, pode ir para a cabine”, relembra Marlene Schlüzen, 80 anos. Havia uma estrutura de madeira isolada, onde as pessoas tinham privacidade para a conversa.
O telefone era tão novo que muita gente não sabia usá-lo. Geli Maria Vegini, conta que, no começo, ninguém sabia. Ela lembra de uma vez em que transferiu a ligação e orientou a pessoa a ir até a cabine. “Dentro da cabine era fechado e tinha um espelhinho de vidro. De repente eu olhei para ele, vi só as mãos. Quando ele saiu, eu perguntei se ele tinha falado. Ele disse que sim, mas não pegou o telefone. Ele achava que era entrar na cabine e falar”, conta.

Mudas, surdas e cegas
Todas as conversas da cidade passavam por essas mulheres. Elas faziam os pedidos e, muitas vezes, acompanhavam a chamada para saber a hora de desligar a linha e anotar com precisão o tempo de uso, base da cobrança. O sigilo era parte do trabalho.
“Nós naquela época éramos mudas, surdas e cegas. Não podia abrir a boca”, relembra Marlene. Esse sigilo e essa discrição eram reconhecidos pelos clientes, junto da prestatividade e do jeito comunicativo das telefonistas. “Nós éramos muito bem tratadas”, lembra Áurea, sobre os Natais em que recebiam presentes, bolos, vinhos e chocolates das empresas e dos clientes.
Maria Ropelato, que atuou como telefonista e depois coordenou a equipe, lembra que o trabalho exigia minúcia. Além de insistir nas ligações, que chegavam em número cada vez maior, era preciso controlar o tempo de cada chamada. “Nós tínhamos o livro amarelo e o rosa, recebidas no rosa e transmitidas no amarelo. Tudo tinha que colocar ali, quantos minutos, tudo”, comenta Maria, carinhosamente chamada de Mariquinha.

Um marco para as mulheres no trabalho
Historicamente, as telefonistas marcam a entrada das mulheres no mercado de trabalho em todo o mundo, e a trajetória dessas profissionais mostra isso de perto. Marlene começou como telefonista substituta, mas precisou se afastar quando se casou. O marido era machista, afirma, e não aceitava que ela trabalhasse fora. Depois da separação, ela voltou ao trabalho.
Nair seguiu o caminho oposto da limitação imposta à época: de telefonista, passou a gerente comercial, à frente de uma grande equipe que incluía muitos homens. A personalidade dinâmica e persistente, comenta a filha Florilda, contagiava quem estava ao redor. “Ela era uma mulher à frente do seu tempo”, diz.
Pendurados no poste, de olho no João de Barro
A manutenção das linhas tinha seus próprios personagens. Pery Quirino da Cruz, trabalhou como guarda-fio e depois auxiliar técnico, cuidando das linhas físicas interurbanas e percorrendo a cidade quando havia defeito.
As fiações passavam ao lado da estrada de ferro, e a Maria-Fumaça acabava virando transporte. “Falava com o maquinista: ‘parceiro, o defeito hoje está em tal quilômetro’. O trem andava a 60, 70 até 80 por hora naquele tempo. A gente jogava a mala de ferramenta e pulava, quando tombo, ele passava para uns 30 por hora”, conta Hilário, que migrou para a função técnica depois dos anos como cobrador e mensageiro.

Quando o defeito não era perto da linha do trem, o jeito era ir de bicicleta ou a pé, em distâncias de até oito quilômetros. “Escada de seis metros nas costas, de bicicleta, pesado, mala de ferramentas no guidão até a Malwee, até a Indústrias Reunidas, até no cerealista, a bebidas Max Wilhelm, lá em cima no Waldemar Rau”, conta Hilário. Orlando de Mello, lembra dos postes de madeira, em que era preciso usar os pés de ferro para subir, e dos ruídos clássicos na linha quando o João de Barro fazia ninho sobre os fios.
Anos de mudança
Com o tempo, os sistemas evoluíram e a manivela deixou de ser necessária. Segundo relato deixado por Nair em entrevista, por volta de 1957 começou a operar na cidade o DDO, e as telefonistas passaram a cuidar apenas de interurbanos e internacionais, mais tarde modernizados com o DDD e o DDI.
A CTC virou Cotesc em 1969, por iniciativa do governo do Estado, e em 1974 passou a se chamar Telesc. “Jaraguá do Sul tinha 120 telefones, depois, quando nós fomos para o prédio em frente à Moretti Jourdan, tinham 300, e quando fomos para a frente do Bradesco, 8 mil”, comenta Áurea sobre o crescimento, sem precisar os anos.
Aos poucos, a rede ganhou linhas e passou a fazer a comutação por sistema automático, e a figura da telefonista que conectava as chamadas foi desaparecendo. Florilda lembra que a mãe fez questão de reposicionar as telefonistas dispensadas em empresas que, com telefone próprio, agora precisavam de gente para coordenar o vai e vem das ligações.
Como isso impacta sua vida?
Hoje você manda uma mensagem para o outro lado do mundo sem pensar. Em Jaraguá do Sul, há menos de um século, falar com alguém em Curitiba podia custar uma semana de espera e dependia de uma mulher girando uma manivela. As ruas, os prédios e os sobrenomes dessa história, Malwee, Max Wilhelm, o Museu Emílio da Silva, ainda estão aí, e foi por essas mesmas mãos que a cidade aprendeu a se conectar. “Desse tempo nós somos”, resume Hilário.
Essa reportagem foi baseada em uma série de entrevistas conduzida pela jornalista Natália Trentini em 2020, com profissionais que viveram aquele período em Jaraguá do Sul: Áurea Maffezzolli, Marlene Schlüzen, Geli Maria Vegini, Maria Ropelato, Hilário Kruguer, Orlando de Mello e Pery Quirino da Cruz, além de Florilda Donini, filha da telefonista Nair Enke. Documentos do Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul complementaram a pesquisa.
Max Pires
Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.