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Como um artigo de jornal levou ao assassinato do presidente da Câmara de Jaraguá do Sul em 1937
Resumo da matéria
Vítima: Ricardo Gruenewald, presidente da Câmara Municipal de Jaraguá (atual Jaraguá do Sul) e diretor do jornal Jaraguá, foi assassinado em 13 de agosto de 1937 Autor do crime: Eucário de Almeida, 3º sargento da Força Pública e delegado de polícia de Jaraguá, disparou quatro tiros contra Gruenewald na residência da vítima Estopim: o crime ocorreu horas após Gruenewald publicar, na edição nº 172 do jornal Jaraguá, artigo que reproduzia queixas de moradores contra a conduta do delegado Morte: Gruenewald foi atingido por um dos quatro tiros, sofreu hemorragia interna e morreu às 14h30 daquele dia, no Hospital de Caridade, atendido pelos médicos Godofredo Luce e George Richter Entrega voluntária: após o crime, Eucário de Almeida procurou se apresentar ao juiz de direito de Jaraguá, mas o magistrado estava em Joinville, e o delegado seguiu de automóvel até Blumenau para se entregar ao Delegado Especial Reação política: em 14 de agosto de 1937, oito prefeitos do Vale do Itajaí e do Nordeste catarinense, dos quais sete eram integralistas, enviaram carta de protesto ao presidente Getúlio Vargas classificando o caso como bárbaro assassinato Cobertura da imprensa: o crime foi noticiado pelo Correio do Povo de Jaraguá ("Lamentável Conflito") e pelo jornal A Notícia de Joinville ("Tragedia Brutal"), que tiveram leituras editoriais opostas sobre o caso Julgamento: Eucário de Almeida foi condenado em 25 de agosto de 1938, na 3ª sessão ordinária do Tribunal do Júri de Jaraguá, presidida pelo juiz Arno Pedro Höschl, à pena de 21 anos de prisão na penitenciária de Pedra Grande, em Florianópolis Contexto histórico: o crime aconteceu três meses antes da decretação do Estado Novo por Getúlio Vargas, em 10 de novembro de 1937, e da posterior ilegalização da Ação Integralista Brasileira, à qual pertenciam Gruenewald e sete dos oito prefeitos signatários da carta a Vargas
A história está guardada em recortes amarelados de jornais que circularam por Jaraguá do Sul e Norte catarinense em agosto de 1937. Um deles, do diário A Notícia, de Joinville, estampou em letras grandes a manchete “Tragedia brutal” e o subtítulo “Abatido a bala em Jaraguá um chefe integralista”. Outro, do Correio do Povo, registrou o caso com sobriedade, sob o título “Lamentável conflito”.
Os dois cobriam o mesmo fato. O assassinato de Ricardo Gruenewald, presidente da Câmara Municipal de Jaraguá, morto pelo delegado de polícia da cidade, sargento Eucário de Almeida, no dia 13 de agosto daquele ano. A cidade, na época, ainda não se chamava Jaraguá do Sul, o nome atual só viria em 1943.
A história tem quase 90 anos, mas a documentação preservada permite reconstituir os acontecimentos. E o que ela revela é mais complexo do que a versão que normalmente se conta sobre o caso.
- Data do crime: 13 de agosto de 1937
- Vítima: Ricardo Gruenewald, presidente da Câmara Municipal de Jaraguá e diretor do jornal Jaraguá
- Autor: Eucário de Almeida, 3º sargento da Força Pública, então delegado de polícia da cidade
- Estopim: artigo publicado na edição nº 172 do jornal Jaraguá, que reproduzia queixas de moradores contra a conduta do delegado
- Desfecho judicial: Eucário foi condenado a 21 anos de prisão em 25 de agosto de 1938
- Contexto: o Estado Novo seria decretado por Getúlio Vargas três meses depois, em 10 de novembro de 1937

A denúncia que estava prestes a ser publicada
Antes de chegar às bancas, o artigo que motivou o crime já era assunto entre as redações e a Delegacia de Polícia da cidade. Segundo a reconstituição feita pelo A Notícia em sua edição posterior ao assassinato, na tarde anterior à publicação, um auxiliar de redação do jornal Jaraguá foi até a delegacia e mostrou o texto ao próprio Eucário de Almeida. Avisou que a matéria sairia, e informou que Gruenewald, diretor do jornal, suspenderia a publicação caso o delegado fizesse o pedido formal.
O delegado, conforme relata o jornal de Joinville, recusou. Mandou dizer que, se publicassem algo a seu respeito, no dia seguinte teria contas a ajustar com o diretor da publicação.
Houve ainda uma segunda tentativa de demover Gruenewald da publicação, esta vinda do próprio movimento ao qual ele pertencia. Diversos líderes integralistas locais, segundo registra A Notícia, procuraram o jornalista pedindo que o artigo não fosse publicado, alegando que envolvia a dignidade de uma figura próxima ao grupo. Gruenewald, no entanto, não recuou. O artigo foi publicado.

O texto que motivou os quatro tiros
A reportagem saiu na edição nº 172 do jornal Jaraguá, em 13 de agosto de 1937. A íntegra do trecho central foi reproduzida posteriormente por A Notícia, e o texto começa com uma atribuição clara das queixas a fontes externas à redação:
“Fomos procurados em nossa redação por várias pessoas que nos apresentaram queixa contra a pessoa do delegado de polícia, sargento Eucário de Almeida, o qual, segundo essas informações, por várias vezes, altas horas da noite, tentou violentar casas familiares, com o fito de satisfazer desejos inconfessáveis. Aqui fica a reclamação para que sejam tomadas sérias medidas de repressão por quem de direito.”
Ainda no dia da publicação, Eucário de Almeida foi até a residência de Gruenewald e disparou quatro tiros contra ele. Apenas um atingiu a vítima, causando hemorragia interna. Os médicos Godofredo Luce e George Richter, que prestaram socorro no Hospital de Caridade da cidade, não conseguiram conter o sangramento. Ricardo Gruenewald morreu às 14h30 daquele dia, deixando viúva e a mãe.

A entrega voluntária e o inquérito atrasado
O comportamento do delegado após o crime contraria a imagem usual de um agressor em fuga. Eucário de Almeida procurou o juiz de direito da comarca para se apresentar imediatamente. Não conseguiu. O magistrado havia viajado para Joinville e ainda não havia retornado.
Diante da ausência da autoridade local, o delegado tomou um automóvel e seguiu para Blumenau, onde se apresentou ao Delegado Especial. A entrega voluntária foi registrada pelos jornais que cobriram o caso na ocasião. O inquérito formal sobre o assassinato, por sua vez, só foi aberto em 10 de setembro de 1937, quase um mês após o crime, em parte por causa da ausência inicial do juiz de direito da comarca.
A reação política dos prefeitos integralistas
A reação mais imediata ao assassinato veio da política, não da imprensa. Em 14 de agosto, um dia após o crime, oito prefeitos do Vale do Itajaí e do Nordeste catarinense enviaram uma carta de protesto ao presidente Getúlio Vargas. O documento foi assinado por Leopoldo A. Gerent (Jaraguá), Aristides Largura (Joinville), Alberto Stein (Blumenau), Carlos Brandes (Timbó), Antonio Venera dos Santos (São Bento), Frederico Schmidt (Hamônia, atual Ibirama), Matheus Conceição (Rio do Sul) e Adolfo Walendosck (Brusque). Sete dos oito eram integralistas, eleitos em 1º de março de 1936, quando derrotaram nas urnas os candidatos do Partido Liberal Catarinense e do Partido Republicano Catarinense.
A carta classificava o caso como “bárbaro assassinato” e denunciava um clima de impunidade que, segundo os signatários, vinha sendo alimentado por crimes anteriores não punidos. O texto afirmava que o assassinato de Gruenewald era a consequência desse cenário e exprimia “o mais veemente protesto” ao presidente da República. A mobilização rápida de oito prefeitos da região em torno do caso, todos com perfil político alinhado ao da vítima, é em si um registro do peso que o assassinato teve na política regional da época.

O registro contido do jornal O Correio do Povo
A cobertura jornalística do crime se dividiu entre dois jornais com posicionamentos editoriais opostos.
O Correio do Povo, semanário local de Jaraguá dirigido por Honorato Tomelin, manteve registro contido em sua edição de 14 de agosto. Sob o título “Lamentável conflito”, o jornal narrou os fatos em tom formal, sem editorializar, e expressou votos de que o episódio não se repetisse. A matéria informou que Gruenewald foi atingido por um dos quatro tiros disparados pelo delegado, sofreu hemorragia interna e morreu três horas depois da intervenção dos médicos Godofredo Luce e George Richter. Registrou também que Eucário, “consciente de sua responsabilidade não fugiu”, e foi se apresentar às autoridades em Blumenau diante da ausência do juiz de direito local.
A leitura crítica de A Notícia
A Notícia, de Joinville, foi mais longe. Estampou “Tragedia brutal” como manchete e, em apuração própria, considerou que a denúncia publicada por Gruenewald não se sustentava. Segundo registrou o jornal, o representante de A Notícia procurou verificar a base factual da reportagem do Jaraguá, e concluiu que as queixas atribuídas a “várias pessoas” não puderam ser confirmadas. O jornal de Joinville passou a tratar a denúncia como calúnia. Ao mesmo tempo, descrevia o delegado Eucário com simpatia, como “moço distincto” de “elevado espírito de coherencia”.
A mesma edição de A Notícia trazia, na página 3, um artigo opinativo sob o título “A atitude de um chefe integralista”. O editorial não era resposta ao crime de Jaraguá, havia sido escrito antes. A própria nota de abertura do texto registrava que ele “deveria ter aparecido na terça-feira última”. Sua publicação fora suspensa “para não transparecer que estivessemos dominados pelo pavor das ameaças”. Ao decidir publicar, dias depois, A Notícia colocou o editorial lado a lado, na mesma edição, com a notícia do assassinato que ele havia, em parte, antecipado. O texto alertava para o risco de a polarização política levar Joinville a assistir, “para a nossa vergonha, as scenas mais dolorosas que possam determinar as más paixões”. A cena dolorosa, no momento em que o jornal saiu, já tinha acontecido em Jaraguá.
O alvo do elogio do artigo, entretanto, não era Gruenewald. Era o prefeito de Joinville, Aristides Largura, também integralista. Dias antes, Largura havia convocado seus correligionários, na sede da Associação Integralista, para pedir o fim das brigas internas e dos atritos provocados pelo grupo. A Notícia, declaradamente democrática e crítica do integralismo, fez questão de separar Largura, que classificava como exemplo de moderação, dos “integralistas turbulentos e personalisticos” responsáveis pelo clima de violência política da região.

O julgamento, um ano depois
A 3ª sessão ordinária do Tribunal do Júri da comarca foi instalada em 25 de agosto de 1938, pouco mais de um ano após o crime. A cobertura do julgamento foi feita por dois jornais regionais com edições praticamente simultâneas, o Correio do Povo em 27 de agosto e A Notícia em 28 de agosto, o que permite reconstruir o rito processual com precisão.
O tribunal foi presidido pelo juiz de direito da comarca, Dr. Arno Pedro Höschl. A acusação coube ao promotor público Dr. Heraclio Gomes Filho. Ele pediu a condenação de Eucário de Almeida na pena máxima do artigo 294, §1º da Consolidação das Leis Penais. A defesa foi feita pelo advogado Dr. Leonel Costa. Ele abriu sua peça lamentando a morte de Gruenewald, antes de argumentar sobre os fatos que, segundo a defesa, motivaram o crime. O escrivão da sessão foi Arthur Müller. O Conselho de Sentença foi composto por sete jurados da cidade: João Emmendoerter, Frederico Hasse, Frederico Neumann, Walter Hertel, Carlos Otto Krelling, Felipe Brandes e Jacob Buck.
Reunidos em sala secreta, os jurados condenaram Eucário de Almeida a 21 anos de prisão. A pena reconheceu como atenuante o “bom comportamento anterior e serviços prestados à sociedade” do réu. A condenação ficou abaixo do pedido do promotor, e a defesa apelou da decisão. A pena seria cumprida na penitenciária de Pedra Grande, em Florianópolis.

O Estado Novo no pano de fundo
Quando o julgamento aconteceu, o cenário político brasileiro era outro. Em 10 de novembro de 1937, três meses depois do assassinato de Gruenewald, Getúlio Vargas decretou o Estado Novo. A nova Constituição dissolveu partidos políticos e movimentos organizados. Por consequência, a Ação Integralista Brasileira, à qual pertenciam Gruenewald e sete dos oito prefeitos que protestaram contra o crime, foi colocada na ilegalidade poucos meses depois.
Por isso, no dia em que Eucário foi condenado, em agosto de 1938, A Notícia se referia a Gruenewald como “ex-chefe da extinta ação integralista”. A polarização política que o jornal de Joinville havia identificado como pano de fundo do crime, um ano antes, havia sido contida pela via autoritária. O Estado Novo silenciou todos os movimentos políticos organizados do país, integralistas e democratas, e seguiria no poder até 1945.

Como isso impacta sua vida?
Ricardo Gruenewald foi presidente da Câmara da cidade que viria a se chamar Jaraguá do Sul, e a história desse município carrega esse episódio mesmo que pouca gente saiba dele hoje. A documentação preservada, com cobertura cruzada de quatro registros da imprensa de época, mostra que mesmo casos aparentemente simples ganham camadas quando vistos pelas fontes que os contaram em tempo real. Saber como Jaraguá do Sul chegou aqui passa também por casos como este, registrados na imprensa de uma cidade que, naquele agosto de 1937, viveu um dos episódios mais violentos da sua história política.
