Cotidiano | 31/05/2026 | Atualizado em: 31/05/26 ás 22:03

De bicicleta e carroça a uma Brasília azul: a história do jovem ‘colono’ de Corupá que virou empresário de sucesso

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De bicicleta e carroça a uma Brasília azul: a história do jovem ‘colono’ de Corupá que virou empresário de sucesso

Foto: JDV

Antes de comandar uma das maiores empresas do setor têxtil brasileiro e ocupar cargos públicos de destaque, Antídio Lunelli era apenas um jovem do interior que dividia os dias entre a lavoura, os animais da propriedade e os sonhos para o futuro.

Nascido e criado em uma família de agricultores, ele cresceu em uma época em que a vida seguia o ritmo da roça. O trabalho começava cedo e terminava tarde. Bicicleta, carroça, arrozais e estradas de chão faziam parte da rotina. A cidade parecia distante, quase um outro mundo.

Décadas depois, ao olhar para trás, uma das lembranças que mais o emociona não envolve negócios milionários ou grandes conquistas empresariais. É a recordação da primeira vez em que dirigiu um carro zero-quilômetro.

Uma Brasília azul.

As raízes no interior

Filho de Abílio e Evanilda Lunelli, Antídio cresceu ajudando os pais na agricultura. O trabalho no campo moldou seu caráter e sua visão de mundo.

Desde cedo aprendeu o valor do esforço, da disciplina e da responsabilidade. A família vivia da produção agrícola, e cada membro tinha sua função dentro da propriedade.

Os primeiros anos da vida de Antídio Lunelli foram trabalhando na roça ao lado dos pais | Foto: Arquivo Pessoal (melhorada com uso de IA)

Mesmo quando começou a trabalhar fora, a ligação com o interior nunca desapareceu. O jovem agricultor carregava consigo os ensinamentos aprendidos em casa, especialmente os transmitidos pelo pai e pelo avô, figuras que mais tarde definiria como exemplos de honestidade e compromisso com a palavra dada.

Mas, como acontece com muitos jovens do interior, a curiosidade pelo mundo além da comunidade rural crescia a cada dia.

O encanto pela cidade

Depois da experiência no Hospital São José, onde realizou estágio ainda adolescente, Antídio conseguiu uma oportunidade na Menegotti Veículos, concessionária localizada próxima ao hospital.

Foi ali que começou a descobrir uma realidade completamente diferente daquela em que havia crescido.

Sempre que tinha uma folga, gostava de observar os carros expostos na loja. Fascinado pelo universo automotivo, passava algum tempo admirando os veículos e imaginando como seria fazer parte daquele ambiente.

Quando surgiu a oportunidade de emprego, não pensou duas vezes.

Passou a atuar como auxiliar de crédito, mas frequentemente ajudava também nas vendas. Para um jovem acostumado à vida rural, tudo parecia novo.

Ele próprio recorda o encantamento ao conviver diariamente com automóveis modernos, com o brilho da pintura recém-polida e com o cheiro característico da cera utilizada na preparação dos veículos.

Era um mundo distante da realidade do menino que havia crescido andando de bicicleta e de carroça.

A vida na roça faz parte da história de muitos catarnenses | Foto: Magnific

O dia em que se sentiu rei

Foi nesse período que viveu uma das experiências mais marcantes da juventude.

Um cliente de Nereu Ramos havia adquirido uma Brasília nova, azul, mas não dirigia. Precisava que alguém levasse o carro até sua residência.

A tarefa foi confiada ao jovem Antídio, e a cena ficou gravada em sua memória.

Aos 16 anos, saiu dirigindo o veículo zero quilômetro pelas ruas de Jaraguá do Sul em direção ao Braço do Ribeirão Cavalo. O sentimento era de pura realização.

Brasília azul, o símbolo de um novo mundo para Lunelli | Foto: JDV

Para quem havia crescido em meio às lavouras, conduzindo apenas bicicleta ou acompanhando carroças, estar ao volante de um carro novo representava muito mais do que um simples deslocamento.

Era a sensação de estar descobrindo um novo mundo.

Anos mais tarde, ele lembraria daquele momento dizendo que se sentia “orgulhoso como um rei” ao conduzir a Brasília azul.

Um mundo maior do que imaginava

A descoberta da cidade continuaria nos anos seguintes.

Quando passou a trabalhar no Breithaupt e iniciou os estudos em Economia, em Joinville, novas experiências ampliaram ainda mais seus horizontes.

Ele costumava definir o antigo complexo comercial como um verdadeiro universo para alguém que vinha do interior. Ali encontrou coisas que praticamente não faziam parte de sua realidade até então.

Conheceu lanchonetes, experimentou sanduíches como o tradicional X-salada, viu uma variedade enorme de produtos e passou a conviver com pessoas de diferentes origens e profissões.

O contraste era enorme.

Até pouco tempo antes, sua rotina se resumia ao trabalho na propriedade da família, à escola e às atividades da comunidade. Agora, estava inserido em um ambiente dinâmico, cheio de oportunidades e possibilidades.

O agricultor que nunca deixou de ser agricultor

Apesar das transformações que vieram depois, a criação da Lunender, a expansão dos negócios e o reconhecimento empresarial, as origens rurais permaneceram presentes.

Quando enfrentou dificuldades financeiras no início da vida adulta, voltou a utilizar os conhecimentos aprendidos com os pais.

Ao lado da família, produzia queijos, embutidos, carnes e outros produtos coloniais para vender na cidade.

Percorria ruas e comércios em uma Rural Willys, tornando-se conhecido por muitos como “o italiano do queijo e do salame”.

A experiência adquirida na agricultura continuava sendo uma ferramenta importante para superar desafios. Anos depois, colaboradores próximos também destacariam essa característica.

Mesmo comandando uma grande empresa, Antídio jamais escondeu suas origens e sempre demonstrou orgulho da formação recebida no campo.

O jovem empresário Antídio Lunelli | Foto: Arquivo Pessoal

Uma história que se repete em muitas famílias

A trajetória de Antídio Lunelli guarda semelhanças com a de milhares de famílias do Vale do Itapocu.

É a história de quem nasceu na roça, ajudou os pais na agricultura, estudou, buscou oportunidades e precisou se adaptar a um mundo cada vez mais urbano sem abandonar as próprias raízes.

Por isso, entre tantas lembranças acumuladas ao longo da vida, uma simples Brasília azul continua ocupando um lugar especial em sua memória.

Não pelo carro em si.

Mas porque ela simboliza a travessia entre dois mundos: o do menino que cresceu entre arrozais, bicicletas e carroças, e o do jovem que começava a descobrir que seus sonhos podiam ir muito mais longe.

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Thomas Madrigano

Meu foco é encontrar e contar boas histórias, onde quer que elas estejam. Com experiência em jornalismo multimídia, busco levá-las ao público em diferentes formatos e linguagens, aliando forma e conteúdo para uma experiência enriquecedora.

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