Quem é o homem de bigode que ganhou um busto há mais de 80 anos no Centro de Jaraguá do Sul?
A herma de bronze na Praça Ângelo Piazera foi paga pela população própria em 1941, depois de quase dois anos de campanha de doações.
Herma de Emílio Carlos Jourdan na Praça Ângelo Piazera, em Jaraguá do Sul - Ilustração gerada por inteligência artificial / JDV
Resumo completo
Onde: Praça Ângelo Piazera, no centro de Jaraguá do Sul
Inauguração: 4 de outubro de 1941
Valor arrecadado: 2:587$000 (dois contos, quinhentos e oitenta e sete mil-réis)
Origem dos recursos: doações da população, não dinheiro público
Escultor: Fritz Alt, alemão radicado em Joinville
Público na inauguração: mais de 1.300 pessoas
Você já reparou no busto de bronze, do homem de bigode espesso, que fica no meio da Praça Ângelo Piazera? Ele está ali “observando a cidade” há mais de 80 anos, em cima de um pilar de granito. Recebeu esta homenagem por ter sido uma figura importantíssima para a história de Jaraguá do Sul.
O nome é Emílio Carlos Jourdan, nada mais, nada menos do que o fundador da cidade. Foi ele que, em 25 de julho de 1876, chegou de barco pelo rio Itapocu às terras que batizou de Colônia Jaraguá.
Mas talvez o mais curioso de tudo não seja nem quem ele foi, porém como aquele busto foi parar ali.
“Jaraguá tem uma grande dívida a pagar”
Foi assim que começou um texto publicado na última edição de 1939 do jornal local da época, O Correio do Povo. A dívida não era financeira. Era de memória.

Naquele momento, 63 anos depois da chegada de Jourdan ao rio Itapocu, a única referência ao fundador na cidade era o nome de uma rua, que liga a Epitácio Pessoa à Getúlio Vargas. Nenhum monumento, nenhuma praça, nenhuma placa. O jornal lembrava que Domingos da Nova, outro nome ligado à colonização, já tinha sido homenageado em Jaraguá-Novo, e argumentava que faltava fazer o mesmo pelo fundador.
A proposta veio acompanhada de um lugar. Em dezembro daquele mesmo ano, tinha sido lançada a pedra fundamental do primeiro Paço Municipal da cidade, o prédio que hoje abriga o Museu Emílio da Silva. O jornal perguntava, em texto da época: “Construído o Paço Municipal e ajardinada que seja a praça da Bandeira, que melhor lugar para receber a herma de Emílio Carlos Jourdan?”
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A campanha que durou quase dois anos
Da pergunta saiu o que se chamou de Campanha de Gratidão. A ideia central era simples e ambiciosa ao mesmo tempo: a herma não viria do dinheiro público, viria das doações da própria cidade. Seria gesto de quem vivia em Jaraguá em 1940 para quem tinha aberto Jaraguá em 1876.

A arrecadação se estendeu entre 1939 e 1941. Encabeçaram a lista de doadores o prefeito municipal Leonidas Cabral Herbster e Honorato Tomelin, diretor do jornal local da época. Conforme registro do historiador Emílio da Silva, em seu livro sobre a história do município, os dois “distribuíram listas para angariar fundos pró-herma do Cel. Emílio Carlos Jourdan”, e o valor reunido, 2:587$000, foi depositado no Banco Comercial e Agrícola da praça.
A peça foi encomendada ao escultor Fritz Alt, nascido na Alemanha e radicado no Brasil, que passou a maior parte da vida em Joinville. Em 2 de agosto de 1941, Alt entregou o busto fundido em bronze na residência de Honorato Tomelin. O pedestal de granito, na praça em frente ao novo Paço Municipal, ainda não estava pronto. O busto esperou quase dois meses pelo seu lugar.
A inauguração com mais de mil pessoas
No sábado, 4 de outubro de 1941, a praça estava cheia. Mais de 1.300 pessoas foram para a inauguração da herma, numa cidade que naquele ano tinha pouco mais de 30 mil habitantes em todo o município. As festividades se estenderam por dois dias, marcando também a abertura do novo Paço Municipal.

Naquela manhã, o Correio do Povo circulou com a manchete: “A dívida de Jaraguá será hoje paga”. Logo abaixo, a edição trazia uma reprodução do próprio busto, ainda antes da inauguração oficial, e a chamada: “Com a inauguração da herma do Coronel Emílio Carlos Jourdan, desbravador e colonizador desta terra“.
A comitiva oficial reuniu o interventor federal de Santa Catarina, Nereu Ramos, autoridades civis e eclesiásticas. Um arco comemorativo erguido na entrada da cerimônia trazia a inscrição “O povo de Jaraguá bemdiz o governo de V. Excia., de 1935 a 1941”, dirigida ao próprio interventor.
A família do fundador esteve representada por Rodolfo Augusto Jourdan, filho do colonizador, que veio de Curitiba, onde comandava o 5º Regimento Militar. Acompanharam o ato a irmã viúva Helena Jourdan Ruys e a sobrinha Elisabeth Ruys.
Foi uma cidade, na época pequena, recebendo uma cerimônia que ela mesma tinha pago, para honrar um homem que a maioria dos presentes nunca tinha conhecido em vida. Jourdan tinha morrido em 1905, 36 anos antes daquele sábado.

A praça mudou de nome, o busto ficou
Naquela época, o lugar onde a herma foi instalada nem se chamava Praça Ângelo Piazera. Era a Praça da Bandeira. O nome atual veio depois, em 1959.
De lá para cá, mudou a paisagem ao redor do busto. O Paço Municipal virou museu. A cidade triplicou de tamanho, depois quadruplicou. Construíram-se prédios, abriram-se avenidas, fecharam-se ruas. Mas o busto continua ali, no mesmo pilar de granito onde foi instalado em 1941, fundido pelas mãos de um escultor alemão que morava em Joinville, pago com o dinheiro de gente que já morreu há décadas.
Como isso impacta sua vida?
Da próxima vez que você passar pelo centro, dá uma olhada no homem de bigode no meio da praça. Aquele busto não foi a prefeitura que pagou. Foi a cidade inteira, num gesto que levou quase dois anos para sair do papel e que hoje quase ninguém mais lembra.
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Max Pires
Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.