Há quase 500 anos, uma das primeiras expedições do Brasil passou por Jaraguá do Sul; entenda!
Antes mesmo da colonização europeia no Sul do Brasil, trilhas indígenas já conectavam povos, culturas e oceanos passando pelo Vale do Itapocu.
Registro do Rio Itapocu em 1939 | Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul
Para quem vive em Jaraguá do Sul e região, o Rio Itapocu pode parecer apenas um elemento natural que corta as cidades, abastece as casas e segue seu caminho até o mar.
Mas você sabia que uma das primeiras expedições registradas no território brasileiro começou pelo nosso rio? Isso aconteceu por causa de um antigo caminho indígena conhecido como Caminho do Peabiru, que ligava o litoral ao interior da América do Sul.
Quem nos ajudou a entender melhor essa história foi a Amvali (Associação dos Municípios do Vale do Itapocu), que atua no planejamento regional e desenvolve estudos sobre o território do Vale do Itapocu – e a importância da água na formação da região.
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Conheça o Peabiru: um caminho que ligava oceanos e povos
Séculos antes da formação das cidades do Vale do Itapocu, povos indígenas já percorriam caminhos que conectavam diferentes regiões do continente – uma rede de trilhas que ficou conhecida como Caminhos do Peabiru.
Com milhares de anos de uso – algumas estimativas apontam mais de 3 mil anos de uso -, essas rotas funcionavam como uma espécie de “estrada” que ligava o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico, atravessando áreas que hoje pertencem a países como Brasil, Paraguai, Bolívia e Peru.
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Ao longo de cerca de 4 mil quilômetros, o caminho conectava o litoral sul e sudeste brasileiro a regiões andinas, como Cusco, no antigo Império Inca, permitindo o deslocamento por territórios diversos, que iam de áreas litorâneas a serras e planaltos.

No território brasileiro, o Peabiru percorria o litoral de Santa Catarina e São Paulo e avançava pelo interior, especialmente pelo Paraná, cruzando o estado de leste a oeste.
Além dos guaranis, outros povos originários também utilizavam essas rotas, como os proto-jês meridionais, ancestrais dos atuais povos Xokleng-Laklãnõ e Kaingang.
Ao longo do tempo, o Peabiru também funcionou como uma importante rota de circulação de informações e conexão entre diferentes povos, permitindo o intercâmbio de produtos como metais, alimentos e artefatos entre regiões distantes do continente.
Para os povos guaranis, porém, o caminho ia além de uma função prática. Ele carregava um significado espiritual profundo, sendo visto como a rota que conduzia à “Terra Sem Mal”, um lugar sagrado ligado ao percurso do Sol. Nessa jornada, segundo as tradições, os caminhos também eram guiados por referências celestes, como a Via Láctea.
O Vale do Itapocu como rota de passagem
Uma das ramificações desse grande caminho passava exatamente pela região onde hoje está o Vale do Itapocu.
A entrada, em Santa Catarina, acontecia pela foz do Rio Itapocu, na região de Barra Velha. A partir dali, o trajeto seguia pelo vale, acompanhando o curso do rio e atravessando áreas que hoje correspondem a municípios como São João do Itaperiú, Guaramirim, Jaraguá do Sul, Corupá e São Bento do Sul.
“O Rio Itapocu fazia parte desse sistema de deslocamento, funcionando como um guia natural dentro dessa rede de caminhos”, explica o pesquisador Fábio Krawulski Nunes.

O percurso não era feito apenas por água, mas por terra também. Os registros indicam que os deslocamentos aconteciam tanto pelas margens quanto pelo próprio rio, alternando entre caminhada e navegação. Ou seja, o Itapocu funcionava como um verdadeiro guia natural, orientando o caminho em meio à Mata Atlântica.
>> Mas qual o Significado desse nome? De origem tupi-guarani, o termo pode ser interpretado como “caminho gramado amassado”, uma referência ao uso constante dessas trilhas ao longo do tempo.
A expedição que entrou pelo Itapocu e ficou para a história!
Foi por essa rota que, em 2 de novembro de 1541, o espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca iniciou uma das primeiras expedições registradas no Brasil.
Explorador e representante da Coroa espanhola, ele havia sido nomeado governador da região do Rio da Prata e percorreu parte do território sul-americano, deixando registros importantes sobre as rotas, os povos e a geografia da época.

Depois de enfrentar uma tempestade no litoral catarinense, a expedição encontrou nos povos indígenas locais a informação de que existia um caminho que levava ao interior do continente. Foi a partir desse conhecimento que o grupo entrou pela foz do Rio Itapocu e seguiu margeando o rio em direção à serra.
A expedição era composta por centenas de homens, além de cavalos, religiosos e guias indígenas, e levou cerca de 19 dias para vencer a Serra do Mar e alcançar o altiplano, onde estavam as primeiras povoações guaranis.
Meses depois, já no interior, Cabeza de Vaca registraria a descoberta das Cataratas do Iguaçu, no início de 1542.

Nova expedição liderada por uma mulher
Anos depois, em 1555, o mesmo caminho voltaria a ser percorrido por outra expedição importante: a de Juan de Sanabria.
Nomeado pela Coroa espanhola para assumir o governo da região do Rio da Prata, Sanabria organizava uma grande expedição rumo à América quando morreu ainda na Espanha, antes mesmo da viagem começar. Com isso, a liderança da jornada acabou ficando com sua esposa, Doña Mencía Calderón, que se tornou uma das primeiras mulheres a liderar uma expedição desse porte na América do Sul.
A expedição partiu da região litorânea e atravessou o território rumo ao interior do continente, passando também pelo vale do Rio Itapocu.

Registros históricos indicam que o deslocamento não ocorreu apenas por terra. Parte do grupo utilizou o próprio rio como caminho, com mulheres da expedição subindo o Itapocu em canoas, enquanto outros integrantes seguiam pelas margens, acompanhando o curso d’água.
A travessia foi marcada por dificuldades extremas, como escassez de alimentos, doenças e obstáculos naturais ao longo do percurso, com longos períodos de deslocamento em condições precárias até alcançar o interior do continente. Ainda assim, o grupo conseguiu avançar, entrando para a história das expedições do século XVI.
Um caminho mais antigo que o próprio Brasil
Essa história ajuda a entender um ponto importante sobre a própria origem de Jaraguá do Sul e da região. Embora a cidade que conhecemos hoje tenha se desenvolvido a partir da colonização europeia, os caminhos que cruzam esse território já existiam muito antes disso.
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Quando os europeus chegaram ao continente, não abriram essas rotas do zero. Eles aproveitaram caminhos já existentes, guiados pelos povos indígenas que conheciam profundamente o território.

Há registros históricos do século XVI que já mencionavam o Rio Itapocu, citado como “rio de Ytabucu”, indicando que a região já era conhecida e integrada a essas rotas muito antes da formação das cidades atuais.
Com o avanço da colonização, muitos desses caminhos foram sendo abandonados ou incorporados a novas rotas, e grande parte dos vestígios acabou sendo encoberta pela vegetação ou transformada ao longo do tempo.
Conheça o Parque Caminho do Peabiru, em Barra Velha
Na região onde o Rio Itapocu encontra o mar, em Barra Velha, parte dessa história ainda pode ser percebida na prática. É ali que está localizado o Parque Natural Municipal Caminho do Peabiru, uma área que preserva a biodiversidade da Mata Atlântica e também a memória desse antigo trajeto indígena.
Com cerca de 121 hectares – o equivalente a aproximadamente 170 campos de futebol – o parque protege um dos principais remanescentes florestais da região, em uma área estratégica próxima à foz do Rio Itapocu e à Laguna de Barra Velha.
Além da preservação ambiental, o espaço também tem como objetivo proteger o patrimônio histórico e arqueológico, além de promover educação ambiental, pesquisa e turismo ecológico.
Criado em 2007, o parque mantém viva uma parte dessa história que ajudou a moldar o território do Vale do Itapocu.
Hoje, o espaço está aberto à visitação. O Parque Natural Municipal Caminho do Peabiru funciona diariamente durante o dia, com sede aberta de segunda a sexta, das 8h às 17h. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (47) 2050-0302 ou pelo perfil oficial no Instagram @parquepeabiru.
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Como isso impacta sua vida?
Hoje, o Rio Itapocu é visto como fonte de abastecimento, parte da paisagem ou até espaço de lazer. Mas muito antes disso, ele já era um caminho que conectava povos, culturas e territórios em uma escala continental. Por isso, entender essa história ajuda a perceber que os rios da região moldaram o desenvolvimento do território e influenciaram a ocupação do Vale do Itapocu. Cuidar desses rios é, também, preservar uma parte importante da história que passa, até hoje, diante dos nossos olhos.

Gabriela Bubniak
Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.