Siga o JDV - Notícias de Jaraguá do Sul e região no Google
E veja as notícias de Jaraguá do Sul e região com destaque nas suas buscas.
O segredo italiano por trás do manto: como um padre trouxe da Europa a “alma” do Juventus Jaraguá
Jogadores do Juventus de Jaraguá do Sul antes da partida contra o Avaí em 1976 - Foto: Acervo histórico
Jaraguá do Sul completava cem anos em 1976, e naquele 21 de abril o presente mais inusitado não estava nos desfiles cívicos. Estava guardado em caixas de papelão no vestiário de madeira do Estádio João Marcatto.
Quando os jogadores do Grêmio Esportivo Juventus começaram a vestir as novas camisas grenás, pretas e brancas, não sabiam que carregavam nos ombros uma obsessão que cruzou o Atlântico.
Naquele ano, o novo uniforme da equipe, cuja “alma” era literalmente europeia: o fio utilizado na tecelagem das camisashavia sido importado da Itália por um pedido especial do Padre Elemar Scheid, o fundador do clube.
A encomenda que ninguém esperava
O Padre Elemar Scheid fundou o clube, a faculdade local e boa parte da estrutura comunitária de Jaraguá. Era um homem que não fazia nada pela metade. E, em 1976, para a estreia do time contra o Avaí, campeão catarinense, ele não aceitou que a equipe entrasse em campo com qualquer tecido.
Ele foi além: o fio para tecer o manto veio diretamente da Itália – e com a nova cor bordô em homenagem ao clube homônimo de São Paulo. Sob encomenda pessoal do sacerdote, os fios foram transformados em uniforme pelas mãos da Confecção Eduardo.
O simbolismo era forte: em meio às comemorações do centenário, o “Time do Padre” vestia-se com o que havia de melhor para enfrentar o então campeão estadual.
Conteúdos em alta

E não parou por aí. Naquela mesma noite o elenco também estreou os novos agasalhos, doados pela Marquardt S/A, no mesmo modelo que a empresa havia fornecido ao Figueirense um ano antes.
Da cabeça aos pés, o Juventus entrou em campo vestido como nunca tinha entrado.

Nobreza por fora, suor por dentro
O contraste era absurdo. E bonito ao mesmo tempo. Wilfrit, o goleiro cabeludo que fechava a meta, saía direto do turno na fábrica de Loreno Marcatto para o campo.
Bebeco, o capitão, era taxista em Joinville e buscava os colegas no próprio carro para os treinos, com a gasolina paga pelo clube. A folha de pagamento de todo o elenco não passava de 2 mil dólares por mês.

Para o Padre Elemar não era capricho ou luxo; era uma declaração de amor pelo futebol e por quem fazia ele acontecer por aqui. E, claro, muito merecido, afinal, o Juventus era o time dos trabalhadores, dos católicos, do povo e que surgiu para enfrentar o Baependi, clube da elite luterana da cidade.
Vestir aqueles jogadores com fio italiano era uma forma de dizer que esse povo também merecia o melhor.
O batismo de lama e fúria
Na arquibancada, famílias inteiras se espremiam na “arquimorro”, o barranco onde pedaços de madeira serviam de assento. Criança no colo, uma “bundinha para frente e outra para trás”, todo mundo cabia. Era o Juventus do povo assistindo ao Juventus do padre.

Em campo, Hélio Rosa montou um ferrolho para segurar o Avaí. Funcionou durante quase noventa minutos. Então veio o lance que parou o estádio: Pastoril invadiu a área, foi derrubado por Ari Prudente, e o árbitro Celso Bozzano mandou seguir.

O que aconteceu depois virou lenda. A torcida desceu. Bozzano atravessou o caminho até o vestiário caminhando de cócoras, escoltado pela polícia, enquanto a cidade centenária explodia ao redor dele. O jogo terminou 0x0. O manto saiu de campo sujo de barro e suor, e com a honra intacta.

O homem que estava em tudo
O Padre Elemar não aparece em nenhuma foto comemorando gol. Não está nos registros das viagens épicas ao Oeste do estado. Mas estava em cada detalhe que fez aquele time existir.

Era o advogado que usava a carteira da OAB para defender jogadores suspensos no tribunal. Era o diplomata que escrevia cartas para párocos de outras cidades e conseguia descontos que pareciam milagre: o passe do zagueiro Chicão caiu de Cr$ 85 mil para Cr$ 5 mil depois de uma dessas cartas. Era o padre que abriu a Casa Paroquial para hospedar os atletas que vinham de fora.
E era o homem que, na hora de fazer a camisa do time, foi buscar o fio lá na Itália.
O legado de 1976, para além das quatro linhas, foi a profissionalização da identidade de Jaraguá do Sul, que através do “Moleque Travesso” mostrou ao estado que uma comunidade unida poderia peitar os gigantes da capital com organização, fé e, claro, o melhor tecido da Europa
Cinquenta anos depois, o Juventus continua em campo. E agora você sabe, que naquele manto que você veste hoje tem essa história cheia de significado.
Fonte: livro “A Primeira Vez do Moleque”, de Henrique Sudatti Porto.
Max Pires
Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.