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Coluna: Entre mentiras e golpes na república tupiniquim

Se um golpe de Estado é definido como subversão da ordem institucional, então, podemos dizer que, no período de 1822 até os dias atuais, tivemos pelo menos nove golpes no Brasil. Nada em nossa história é coincidência, apenas reedição da mesmice dos golpes de outrora.

20/07/2022

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Professor Pesquisador, Mestre em Educação, Especialista em Planejamento Educacional e Docência do Ensino Superior, Historiador e Pedagogo. Entusiasta da Educação

Coluna: Entre mentiras e golpes na república tupiniquim

De tempos em tempos nossa frágil democracia republicana passa por ataques que visam perpetuar ou dar continuidade aos interesses pessoais de poder, de quem está afrente do poder, ou seja, poder pelo poder. Hoje relato o golpe dado por Getúlio Vargas em 1937, através da farsa montada e contada aos quatro cantos, na época.

Plano Cohen

O Plano Cohen foi uma suposta tentativa de tomada do poder por parte dos comunistas, em 1937. Ele foi denunciado por Vargas pela rádio sendo utilizado como justificativa para o golpe de Estado que instalou a ditadura do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937. Anos depois, comprovou-se a falsidade do plano e que sua real intenção era servir de justificativa para Getúlio Vargas instalar uma ditadura no Brasil.

O Plano Cohen foi um documento obtido pelo governo de Getúlio Vargas, em setembro de 1937, no qual os comunistas organizavam tomar o poder no Brasil. Esse suposto plano previa a mobilização de trabalhadores para que aderissem a uma greve geral, incêndio de prédios públicos e até a eliminação física de autoridades que tentassem impedir a suposta revolta comunista. Segundo o governo, o plano teria sido elaborado pela Internacional Comunista.

A alta cúpula militar da época apresentou o Plano Cohen e, logo em seguida, o documento foi divulgado pela imprensa, gerando comoção em toda a sociedade. Vargas se utilizou disso para articular o cancelamento das eleições presidenciais em janeiro de 1938 e, dessa forma, continuar no governo.

Fake News Oficial

O Plano Cohen foi notícia nos jornais após a sua divulgação pelo governo, que alarmou sobre o perigo de uma possível tomada de poder pelos comunistas. A década de 1930 foi marcada pelo acirramento ideológico entre nazifascistas e comunistas. Do debate de ideias, passou-se para o confronto físico e armado, iniciando-se na Europa e se espalhando para outros países, como o Brasil. Grupos se formaram inspirados nessas duas ideologias. Esse é o caso, no Brasil, da Aliança Nacional Libertadora (ANL), pelo lado comunista, e da Ação Integralista Brasileira (AIB), de inspiração fascista.

Um governo que não governava

Desde a promulgação da Constituição de 1934, Getúlio Vargas externava a sua preocupação com a fragilidade na legislação para coibir os confrontos ideológicos e manter a ordem social. No ano seguinte, aconteceu a Intentona Comunista, no Rio de Janeiro e em Natal (RN), um levante armado organizado pela ANL para derrubar Vargas do poder e instalar um governo comunista no Brasil. Porém, as tropas governistas derrotaram os revoltosos. Vale dizer que os trabalhadores não aderiram à causa comunista, em razão dos direitos trabalhistas concedidos pelo governo.

Golpe de 1937

Em 1937, o mandato presidencial de Vargas terminava, e se preparavam as eleições presidenciais. Os pretendentes ao cargo já se organizavam para fazer campanha eleitoral. Porém, Vargas, que chegou ao poder logo após a vitória da Revolução de 1930, demonstrava seu interesse em se manter na presidência, mas não tinha ainda justificativas para convencer a população da necessidade disso. Seu plano continuísta esbarrava na resistência de alguns governadores, como Flores da Cunha, do Rio Grande do Sul.

O golpe de Estado liderado por Getúlio Vargas, em 10 de março de 1937, deu início à ditadura do Estado Novo. No mesmo dia do golpe, o Congresso foi fechado; os partidos políticos, extintos; e as liberdades individuais, suspensas. Além disso, a Constituição de 1934 foi anulada e outra Carta foi outorgada. A Constituição de 1937, escrita pelo jurista Francisco Campos, concedia a Vargas amplos poderes para governar o Brasil. Sem o Legislativo, o próprio presidente fazia as leis.

Revelação da farsa

Em 1945, a ditadura do Estado Novo perdia força e a censura não estava tão atuante. O general Góis Monteiro, aproveitando a crise da ditadura varguista e com oito anos de atraso, revelou que o Plano Cohen era uma farsa.

Segundo ele, quem entregou o documento para o Estado Maior do Exército foi o capitão Olímpio Mourão, que era chefe do Serviço Secreto da Ação Integralista Brasileira. Mourão reconheceu a falsidade do plano e afirmou ser de uso restrito à AIB. O capitão acusou Góis Monteiro de usar o plano indevidamente e que não acusou a farsa antes devido à disciplina militar, isto é, ele não poderia questionar as ações dos seus superiores hierárquicos.

Com a revelação da farsa e o envolvimento da AIB, Plínio Salgado, seu maior chefe, pronunciou-se sobre o Plano Cohen, afirmando que não denunciou a falsidade do documento para que as Forças Armadas não fossem desmoralizadas. Em novembro de 1937, quando o plano foi utilizado para justificar o golpe de Getúlio Vargas, Plínio Salgado era candidato presidencial e abriu mão de sua candidatura para apoiar a ditadura do Estado Novo.

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