COLUNISTAS: Sexta-Feira Santa em Jaraguá do Sul revela história curiosa de trauma e família
Todo mundo tem um parente – geralmente primo ou tio – ergofóbico, que é a pessoa com fobia pelo trabalho. Eu tenho algo parecido, só que ao contrário. Não! Não estou dizendo que sou um workaholic, mas tenho fobia de feriado. Não são todos eles. O meu problema é mais precisamente com o feriado da Sexta-Feira Santa.
Meu amigo, saudoso Dr. Flávio Veloso, resumiu como ninguém: “Lamas não come nada que nada”. E completava: “Lamas só come animais terrestres”.
Há algumas versões sobre a minha abstinência de frutos do mar. Como todas as mães protetoras, a minha, a Sra. Oli, diz que a culpa é dela. Numa época de vacas magras – nem tínhamos as vacas, no caso – quando a família fez um grande esforço para sair do aluguel, minha mãe conta que o nosso cardápio era bem diversificado: arroz com peixe, peixe com macarrão, peixe com arroz, macarrão com peixe, pois meu tio, João, era um excelente pescador e deixava uma caixa de peixes lá em casa, todo final de semana.
Em outra versão, por causa da minha bronquite, foi indicado fazer uma simpatia que envolvia entrar em um barco, na Lagoa dos Patos, e pegar uns peixes vivos, recém pescados, com as mãos. Fiquei traumatizado.
Tanto o meu urologista, quanto o cardiologista, já me indicaram seguir a Dieta do Mediterrâneo. Não a segui, mas a conversa foi bem útil. Quando estive na “La Setmana del Llibre en Català”, que é a semana do livro catalão, de Barcelona, meu primo, Juliano, estava morando lá e arrumei um tempo na programação da viagem para jantar com a família dele. Lembrei do salmão que os doutores haviam sugerido e me antecipei: “Primo, só para lembrar, não como peixes. As 20h, estarei com vocês”. Quando estávamos nas despedidas, ele me disse que foi bom eu ter avisado, pois fazem crustáceos para qualquer um que aparece.
Voltando a minha fobia pelo feriado anterior a Páscoa, a grande questão é que sempre aproveitávamos a data para dar um passeio e em qualquer restaurante que entrássemos, havia cheiro de “frutos do MAL”. Foi então que criei uma estratégia. Desde que o meu sobrinho nasceu, o Arthur, há seis anos, inventei uma tradição familiar de recebê-lo, na nossa casa, no feriado da Sexta-Feira Santa. É o único ambiente em que não sou alvejado por olhares curiosos.
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Quando era solteiro, comprovei na prática o pensamento definitivo de Millôr Fernandes (1923-2012): “O melhor anticoncepcional é o mau hálito”. Remarquei todos os encontros em que a palavra “sushi” aparecia nas conversas.
Marcelo Lamas é cronista. Autor de Papo no cafezinho, Indesmentíveis, Arrumadinhas e Mulheres casadas têm cheiro de pólvora.
marcelolamasbr@gmail.com
Marcelo Lamas
Cronista, autor de 4 livros. Sou gaúcho radicado em Jaraguá, há 3 décadas, porém, estou mais para jaraguaense, nascido no RS. Frio, doces, cafés, gatos, livros, futebol e Coca-Cola são as minhas preferências.