Economia | 02/03/2026 | Atualizado em: 02/03/26 ás 14:12

Como um pequeno comércio de toalhas de Jaraguá do Sul criou marcas de roupas nacionais e virou uma gigante da moda

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Como um pequeno comércio de toalhas de Jaraguá do Sul criou marcas de roupas nacionais e virou uma gigante da moda

Fotos: Divulgação

A história do Grupo Lunelli começou em uma garagem em Jaraguá do Sul, no início dos anos 1980, com um pequeno comércio de fraldas e toalhas. Quatro décadas depois, a empresa fatura R$ 1,6 bilhão, produz 26,5 milhões de peças por ano e emprega cerca de 5 mil colaboradores, consolidando-se como um dos maiores grupos têxteis do Brasil.

Mas como tudo isso aconteceu? O crescimento financeiro é a parte visível, mas a trajetória revela disciplina, visão estratégica e um modelo industrial verticalizado que posicionou a companhia como um das gigantes da moda nacional.

O início: disciplina como base do crescimento

Em 1981, Antídio Lunelli e Beatriz Ender iniciaram a venda de fraldas e toalhas em um espaço improvisado na garagem da família. O ambiente econômico era instável e o capital de giro limitado, exigindo controle rigoroso.

Desde o primeiro momento, Antídio estabeleceu um princípio inegociável: preservar o nome e o crédito da empresa. Dessa forma, pagar fornecedores em dia, mesmo sob pressão de caixa, tornou-se prioridade absoluta. Essa postura pessoal do fundador consolidou reputação, fortaleceu relações comerciais e abriu portas para novos fornecedores.

O crescimento aconteceu de forma gradual, impulsionado pelo boca a boca e pela confiança construída no mercado. A garagem deixou de comportar a demanda. O negócio ganhou ponto físico, contratou os primeiros colaboradores e passou a operar com maior organização.

A decisão que redefiniu o negócio

Em 1987, Antídio Lunelli tomou a decisão que mudaria o rumo da empresa: sair do comércio e entrar na indústria. A compra do primeiro tear usado foi o primeiro passo rumo à autonomia produtiva.

A experiência, no entanto, foi difícil. A máquina apresentava falhas constantes, a qualidade era limitada e as jornadas se estendiam pela madrugada para manter a produção ativa. A industrialização poderia ter sido interrompida naquele momento.

Foi então que Antídio assumiu um risco maior. Decidiu adquirir uma máquina nova, em condições pouco convencionais para uma empresa ainda em consolidação. A aposta representava comprometimento financeiro relevante, mas refletia sua convicção de que tecnologia e eficiência eram fundamentais para crescer.

O resultado foi imediato: produtividade ampliada, qualidade superior e pagamento rápido do investimento. A partir dali, portanto, consolidou-se uma diretriz clara sob sua liderança: investir em estrutura e processo não era despesa, era estratégia de longo prazo.

Lunender, o começo de tudo | Foto: Arquivo Pessoal

Lunender e a construção da verticalização

Em 1988, a empresa passou a se chamar Lunender Indústria Têxtil Ltda., formalizando a transição para a indústria. A mudança refletia uma visão construída por Antídio: controlar as etapas do processo produtivo para reduzir dependências externas e elevar padrões de qualidade.

A integração entre malharia e confecção marcou o início da verticalização. Sob sua condução, a empresa passou a organizar processos, reforçar controles e reinvestir sistematicamente os resultados obtidos.

As vendas exigiam viagens longas, negociações complexas e exposição ao risco de inadimplência. Circular com dinheiro em espécie fazia parte da rotina. Mesmo nesse contexto, Antídio manteve a disciplina financeira como prioridade.

Na década seguinte, o movimento de verticalização se intensificou. A estrutura própria de beneficiamento foi ampliada, a capacidade produtiva expandida e a presença nacional consolidada.

Portfólio estruturado e consolidação nacional

Com o passar dos anos, o Grupo Lunelli passou a reunir marcas consolidadas no mercado brasileiro:

  • Lunender
  • Lez a Lez
  • Alakazoo
  • Hangar 33
  • Fico
  • Vila Flor
  • Lunelli Malhas e Tecidos

A estratégia multimarcas ampliou o alcance da empresa em diferentes segmentos, do infantil ao feminino e masculino adulto, fortalecendo a presença nacional.

E os resultados refletem essa construção de longo prazo liderada por Antídio e consolidada pela governança atual. No último balanço anual divulgado, a empresa apresentava R$ 1,6 bilhão em faturamento, 26,5 milhões de peças produzidas, 15,4 mil toneladas de malhas e 7,9 milhões de metros de tecidos estampados digitalmente.

A estamparia digital da Lunelli, aliás, é considerada a maior do Brasil e contribui para reduzir consumo de água e energia, reforçando o posicionamento competitivo da companhia.

Foto: Lunelli/Divulgação

Gestão de pessoas e marca do fundador

Em 2025, a Lunelli conquistou a Certificação Sistema B, concedida pela B Lab e pelo Sistema B Brasil.

No mundo, apenas 18 empresas do setor de moda e vestuário com mais de mil colaboradores possuem essa certificação. No Brasil, a Lunelli é o segundo grupo têxtil a alcançar esse reconhecimento. A avaliação considera Governança, Trabalhadores, Comunidade, Meio Ambiente e Clientes.

A cultura organizacional da Lunelli também foi moldada ao longo da trajetória. Entre os programas mantidos estão: Programa de Conquista de Resultados, Prêmio de Produção e LunelliPrev, plano de previdência complementar. Além disso, há investimentos contínuos em educação financeira, saúde, segurança no trabalho e bem-estar.

Entretanto, mesmo com estrutura robusta e governança consolidada, a essência da companhia carrega a marca de Antídio Lunelli.

O crescimento não foi baseado em aportes externos ou expansão artificial. Foi resultado de reinvestimento contínuo, controle rigoroso e decisões estratégicas tomadas sob pressão.

Diante de obstáculos como máquina defeituosa, escassez de capital e riscos comerciais, Antídio optou por organização, persistência e melhoria de processos. Quarenta e quatro anos após o início na garagem, portanto, o grupo se posiciona entre os maiores do setor têxtil brasileiro, com base construída sobre método, disciplina e visão industrial.

Como isso impacta sua vida?

A trajetória liderada por Antídio Lunelli mostra como decisões estratégicas tomadas em nível local podem transformar a economia de uma cidade. Para Jaraguá do Sul, representa geração de empregos e fortalecimento industrial. Para o setor têxtil brasileiro, evidencia que crescimento sustentável nasce de método, consistência e liderança.

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