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Eles começaram uma empresa com R$ 588 em Jaraguá do Sul; hoje projetam faturar R$ 130 milhões
Uma história de empreendedorismo, persistência e recomeços. Conheça o casal que transformou um pequeno negócio familiar em uma das principais marcas brasileiras de alimentos sem glúten.
Foto: Divulgação/Vitalin
Resumo completo
Início: R$ 588 investidos no cultivo de cogumelos numa propriedade rural da família
Fundação: setembro de 2000, com o nome Sun Products do Brasil
Virada: praga na produção e queda de preço em 2004-2005 quase encerraram o negócio
Recomeço: importação de linhaça dourada do Canadá, em 2005, com equipamentos caseiros
Hoje: quase 100 colaboradores, 69 produtos e presença nos 26 estados brasileiros
Toda cidade industrial guarda histórias de empresas que começaram pequenas, cresceram e se reinventaram para se tornarem grandes potências. Em Jaraguá do Sul, uma das histórias que leva o nome da cidade a todo o Brasil é a Vitalin Alimentos, referência na fabricação de produtos sem glúten e sem lactose.
Mas, muito além do portfólio e da presença nacional, é a história da empresa que chama a atenção. Hoje, com projeção de faturar mais de R$ 130 milhões até 2030, pode ser difícil imaginar que tudo começou com um investimento de apenas R$ 588 em uma propriedade rural.
Quem conta os detalhes dessa empreitada, repleta de altos e baixos, é o casal que a viveu: Rogério Manske e Jerusa de Marchi, fundadores da empresa. A trajetória dos dois se confunde com a da marca, e foi marcada por decisões difíceis e recomeços que mudaram completamente os rumos do negócio.

Do campo ao empreendedorismo
Quando fundou a Vitalin, em setembro de 2000, Rogério Manske tinha muita disposição para empreender e pouco mais de R$ 500 economizados para investir no primeiro negócio. Filho de agricultores e criado no interior de Jaraguá do Sul, ele cresceu acompanhando o trabalho da família na propriedade rural e aprendeu desde cedo o valor do esforço e da persistência.
O hábito de guardar dinheiro começou ainda na infância. Rogério ganhou do avô uma caderneta de poupança e, anos mais tarde, foram justamente essas economias que permitiram dar início ao primeiro negócio.

A oportunidade surgiu com o cultivo do Agaricus blazei, cogumelo medicinal que, na época, despertava interesse principalmente no mercado internacional.
Conteúdos em alta
Com o investimento inicial, Rogério iniciou a produção em uma área de aproximadamente 120 metros quadrados na propriedade da família. O objetivo era atender à demanda de exportação para países como Japão e Estados Unidos, onde o alimento era valorizado por suas propriedades nutricionais.
O negócio cresceu rapidamente. A empresa passou a fornecer sementes, assistência técnica e orientação para produtores da região, formando uma rede de cultivo que ampliou a capacidade de produção.

Foi também nessa fase que Rogério conheceu Jerusa de Marchi, que já atuava na área de Comércio Exterior. Formada em Administração, ela assumiu as exportações da empresa. Desde então, passaram a dividir tanto a vida quanto os desafios de empreender.
Mudanças, um cenário incerto e a necessidade de recomeçar
Os primeiros anos foram promissores. A produção de cogumelos medicinais crescia, as exportações para Japão e Estados Unidos avançavam e o negócio começava a se consolidar. Mas, em 2004, uma sequência de acontecimentos mudou completamente os rumos da empresa.

Primeiro, a entrada da China na produção em larga escala derrubou os preços do mercado internacional e reduziu drasticamente a competitividade dos produtores brasileiros. Pouco tempo depois, uma praga atingiu a produção da Vitalin e comprometeu praticamente todo o cultivo. Em poucos meses, o casal viu desaparecer o negócio que havia levado anos para construir.
“Foi um período muito difícil. Perdemos quase quatro anos de trabalho. Parecia que tudo aquilo que tínhamos construído tinha acabado”, relembra Rogério.
A crise veio justamente quando Jerusa estava grávida do primeiro filho do casal. Enquanto se preparavam para a chegada do bebê, os dois também precisavam encontrar uma maneira de manter a empresa viva. O modelo de negócio que sustentava a família já não era mais viável e a única alternativa era começar novamente.
Foi então que o casal voltou a olhar para o mercado em busca de uma nova oportunidade. A aposta passou a ser a importação de linhaça dourada do Canadá, um alimento ainda pouco conhecido no Brasil, mas que começava a despertar o interesse de consumidores em busca de uma alimentação mais saudável.
Pouco mais de um mês após o nascimento do filho, Jerusa já havia voltado ao trabalho. Enquanto cuidava do bebê, também atendia clientes, emitia notas fiscais, organizava pedidos e ajudava a embalar os produtos. A rotina exigia criatividade para equilibrar maternidade e empreendedorismo em um momento em que cada venda fazia diferença.
“Eu ia ao supermercado com uma calculadora na mão. Somava tudo o que colocava no carrinho para ter certeza de que o dinheiro seria suficiente. Cada centavo fazia diferença naquele momento”, contou Jerusa.
O recomeço da empresa, em 2004, também marcou uma nova identidade. Fundada como Sun Products do Brasil, ela passou a se chamar Vitalin e deixou para trás a atuação focada nos cogumelos para apostar em alimentos funcionais, segmento que definiria os rumos do negócio nos anos seguintes.
O pioneirismo com a chia e a nova identidade: sem glúten
Em 2006, uma viagem à Bolívia em busca de fornecedores de quinoa e amaranto abriu outra porta. Foi lá que Rogério conheceu a chia e enxergou uma oportunidade. A Vitalin foi pioneira em trazer ao Brasil um amplo portfólio de quinoa e amaranto, e a primeira a protocolar o pedido de importação de chia no país, lançada em 2011.
A definição do rumo veio em 2010. A empresa percebeu que 90% do seu portfólio, então com 24 itens, já era naturalmente sem glúten. A partir dessa constatação, nascia a Vitalin Sem Glúten, posicionamento que a marca carrega até hoje, tornando-se pioneira na comercialização de aveia sem glúten no Brasil.
A segurança e entrega de produtos sem glúten
Desde o início da história da Vitalin, a qualidade e segurança nos alimentos são compromissos que fazem parte de cada etapa do processo produtivo.
Enquanto os principais órgãos internacionais consideram segura a tolerância de até 20 ppm (partes por milhão) de glúten em alimentos declarados “sem glúten”, a Vitalin adota um padrão interno ainda mais rigoroso, limitando seus produtos a 5 ppm.
Esse controle é resultado de um sistema que envolve a seleção criteriosa de fornecedores, rastreabilidade das matérias-primas, processos dedicados para prevenção da contaminação cruzada e análises constantes em laboratório, oferecendo mais confiança e tranquilidade aos consumidores.
De Jaraguá do Sul para todos os cantos do Brasil
Ainda no início da década de 2010, a Vitalin começou a ganhar espaço no mercado nacional. O período também marcou uma nova fase na vida da família, com o nascimento do segundo filho do casal.
A marca também viveu momentos de forte procura por produtos funcionais. Em 2013, durante o Ano Internacional da Quinoa, uma reportagem do Globo Repórter sobre o alimento impulsionou a demanda, e fez a Vitalin comercializar em uma semana o equivalente a seis meses de estoque de quinoa.
Com o passar dos anos, a empresa ampliou o portfólio e a estrutura de produção. A linha, que começou focada em grãos e cereais, passou a incluir produtos como cookies, brownies, granolas, cereais, linha Kids e linha Whey, acompanhando diferentes perfis de consumidores.

Crescimento sem perder as raízes
Vinte e cinco anos depois daquele investimento inicial de R$ 588, a realidade da empresa é outra. A Vitalin ocupa hoje mais de 5 mil metros quadrados de área fabril, conta com 120 colaboradores, tem mais de 60 produtos no catálogo, entre grãos e cereais, misturas e produtos prontos, além de 17 representantes e 38 distribuidores espalhados por todo o Brasil.


A empresa está presente em todos os estados brasileiros e atende grandes redes de varejo, farmácias e até companhias de aviação.
No último ano, a marca investiu mais de R$ 5 milhões na ampliação da fábrica, com equipamentos importados da Alemanha e da China. O aporte permitiu o lançamento da linha de pães (sem glúten e sem lactose), com capacidade para produzir mais de 100 mil unidades por mês. Com a nova estrutura, a empresa projeta crescer e chegar aos R$ 130 milhões de faturamento até 2030.
“Se você quiser conquistar algo na vida, você precisa trabalhar e economizar para aproveitar as oportunidades”, finaliza Rogério Manske, fundador da Vitalin.

Como isso impacta sua vida?
Para quem mora em Jaraguá do Sul, a Vitalin é mais um nome que nasceu pequeno na cidade e ganhou o Brasil, na mesma tradição empreendedora que marca a história do município. Para quem tem restrição alimentar ou busca opções mais saudáveis, é uma empresa local que ajudou a criar, no país inteiro, alimentos sem glúten, sem lactose e com opções que antes eram difíceis de encontrar.
Gabriela Bubniak
Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.