Enchentes e estiagens: quando o Rio Itapocu vira motivo de preocupação
Vista aérea da enchente em 2014 | Foto: Águia
O Rio Itapocu, um tesouro do Norte catarinense, é ao mesmo tempo fonte de vida e de preocupação. Por um lado, é essencial para o abastecimento da população e para a economia de cidades como Jaraguá do Sul e Guaramirim, mas, em situações extremas, também pode ser uma ameaça devido às enchentes e estiagens.
Por isso, ao longo dos últimos anos, muitas medidas vêm sendo tomadas para amenizar situações de risco. O Rio Itapocu, afinal, é de extrema importância para a sociedade que se formou ao redor, e que hoje é composta por centenas de milhares de pessoas. Conviver em harmonia com ele, portanto, é uma obrigação e uma necessidade que se impõe.
Esta matéria integra a série sobre o Rio Itapocu, feita em parceria com a Associação dos Municípios do Vale do Itapocu (Amvali), e vai abordar situações extremas do rio e, também, os avanços que têm sido feitos em prevenção.
Um histórico marcado por enchentes
As preocupações com os perigos dos rios não vêm de hoje. Os eventos hidrológicos fazem parte da história do Vale do Itapocu. Nos últimos 50 anos, houve predominância de fenômenos ligados às enchentes, agravados pelo crescimento urbano sobre áreas naturais de armazenamento.
Mas o histórico vai muito além.
Tragédias que marcaram gerações
A enchente de 1906 é considerada uma das mais devastadoras. Na época, 18 pessoas morreram após o transbordamento do rio Jaraguá, deixando a cidade isolada e com graves problemas sanitários.
Conteúdos em alta
Já em 1944, o Rio Itapocu atingiu sete metros acima do nível normal, arrastando pontes, plantações e interrompendo o transporte ferroviário e rodoviário. Quase uma década depois, em 1953, seis horas de chuva intensa foram suficientes para destruir estruturas inteiras e comprometer o acesso entre cidades por semanas.

Outros episódios importantes ocorreram em 1960, 1969 e 1983, este último abrangendo o estado e afetando cerca de 30% da população catarinense.
2008: o divisor de águas
Ma se há um ano que mudou a forma como a região encara os desastres naturais, foi 2008.
Com volumes extremos de chuva, mais de 400 milímetros acima do esperado, Jaraguá do Sul enfrentou sua maior tragédia climática. Foram:
- 7 mil casas atingidas
- 1,5 mil pessoas desalojadas
- 13 mortes
- centenas de deslizamentos
A cidade não estava preparada para o que aconteceu. A partir dali, no entanto, uma série de medidas começou a ser implementada, marcando a transição de uma cultura reativa para uma abordagem mais preventiva.
Conquistas e desafios
Nos últimos anos, os municípios da Amvali realizaram uma série de melhorias estruturais e institucionais. Segundo a Defesa Civil, em períodos recentes, ocorreram mais de 120 obras de prevenção, incluindo desassoreamento de rios, contenção de encostas, ampliação de vazão, substituição de pontes e tubulações, assim como limpeza de margens.
Além disso, houve investimento em tecnologia e monitoramento, com ampliação de estações hidrometeorológicas em cidades estratégicas.
A presidente do Comitê da Bacia do Itapocu, Karina Holler, explica que esse esforço se justifica pelas próprias características naturais da região.
“Considerando as características da Bacia Hidrográfica do rio Itapocu, como relevo, solo, geologia, geomorfologia, clima, hidrologia, ocupação e uso do solo e desenvolvimento urbano, a nossa região é muito propícia a eventos hidrológicos críticos, principalmente as enxurradas, que são as inundações bruscas, e os alagamentos, que são problemas com a drenagem nas cidades”, disse.
Ela também ressalta que estudos já apontam que os efeitos das mudanças climáticas, como o aumento das temperaturas, assim como chuvas intensas combinadas com o consumo elevado de água, têm acelerado o ciclo hidrológico nas bacias hidrográficas brasileiras.
Dessa forma, as consequências no Sul do país são o aumento da frequência de vazões de cheias, ocasionando inundações, enchentes e alagamentos.
Via Verde: quando a cidade se adapta ao rio
Um dos principais exemplos de medidas para conter enchentes é o Parque Linear Via Verde, em Jaraguá do Sul.
Construído em três etapas, entre 2019 e 2023, ele foi projetado para alagar propositalmente em períodos de cheia. Dessa forma, o espaço funciona como uma área de escape da água, reduzindo o impacto em ruas e residências.
Inspirado em modelos internacionais, o parque absorve o excesso de água do Rio Itapocu, protege áreas urbanas e mantém estrutura resistente para rápida reutilização.
A iniciativa mostra como o planejamento urbano pode conviver com eventos naturais, em vez de apenas combatê-los.
Obras, tecnologia e educação
Além das intervenções físicas, a região também tem evoluído na estruturação da resposta e da prevenção.
Em Corupá, por exemplo, o município realiza desassoreamento e limpeza dos rios ao menos duas vezes por ano, além de contar com Núcleos de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs) nas comunidades, voltados à preparação dos moradores.

Na visão do coordenador regional da Defesa Civil de Santa Catarina, Douglas D’Avila Bida, houve uma mudança importante na forma de atuação nos últimos anos.
“Avançamos significativamente na transição de uma cultura de resposta para uma cultura de prevenção e resiliência”, afirmou.
De acordo com ele, o foco principal tem sido o fortalecimento da infraestrutura local por meio de ações onde a proteção é levada a sério.
“Isso inclui a entrega de kits estruturais para as Defesas Civis municipais, como veículos, drones e equipamentos, além do aumento do número de estações hidrometeorológicas na região, instaladas em municípios estratégicos como Corupá, Schroeder, Jaraguá do Sul e Barra Velha”, explicou.

Bida também destaca a instalação de Kits de Transposição em toda a região da Amvali.
“Essas estruturas são fundamentais, pois substituem pontes antigas que funcionavam como gargalos, aumentando a vazão dos rios. Além disso, as obras de enrocamento são vitais para a proteção de margens e contenção de encostas”, pontuou.
Outro eixo importante destacado pelo coordenador regional da Defesa Civil é a capacitação. O treinamento constante das equipes e a criação de grupos integrados de resposta (GRACs) buscam garantir atuação coordenada em situações de emergência.
Na área educacional, ele enfatiza o programa Defesa Civil na Escola, que leva noções de prevenção a alunos do ensino fundamental e incentiva a criação de planos de contingência nas unidades escolares.
Onde é preciso avançar?
Apesar das medidas que já foram e vêm sendo tomadas, especialistas apontam que ainda há lacunas importantes. Conforme Karine Holler, a região precisa avançar principalmente no monitoramento hidrometeorológico.
“Precisamos de mais informações para a realização de estudos atualizados, como a carta enchente indicando as cotas de inundação. E ainda outros instrumentos de planejamento urbano como a carta geotécnica de aptidão à urbanização, que define e norteia as cidades para uma ocupação em áreas seguras e crescimento sustentável, bem como a atualização das áreas de risco dos municípios”, destacou.
Outro ponto crítico é a prevenção ambiental. Ela aponta que medidas para evitar erosão e assoreamento dos rios ainda precisam evoluir, já que esses processos reduzem a capacidade de escoamento das águas e agravam os impactos das cheias.
E a estiagem?
Embora menos frequente, a escassez de água também já deu sinais na região e pode gerar preocupação.
Em 2020, municípios como Corupá e São João do Itaperiú enfrentaram estiagem severa, com falta de água potável, prejuízos na agricultura e pecuária e redução no nível dos rios e poços.
Além disso, produtores rurais relataram impactos em culturas como arroz, banana e palmeiras, com atraso nos ciclos produtivos.

Por isso, além das enchentes, o risco de falta água no futuro é um dos medos que a população tem.
Segundo o Plano de Recursos Hídricos da Bacia do Itapocu, o risco existe, mas em um cenário de longo prazo e em que não haja uma gestão adequada.
O estudo aponta que, sem medidas como controle do crescimento urbano, redução de perdas no abastecimento, preservação de mananciais e uso racional da água, pode, sim, haver dificuldade em atender toda a demanda hídrica.
Hoje, no entanto, o principal desafio para captação de água são as cheias.
Conforme Tuhã Schmitt do Evangelho, diretor técnico do Samae de Jaraguá do Sul, os eventos hidrológicos mais críticos para o sistema estão associados aos períodos de cheias, especialmente no rio Itapocu, que pode apresentar elevação de até 3,5 metros em relação ao seu leito natural.
“Nessas condições, há impactos operacionais, visto que nosso sistema de captação é realizado por boias flutuantes no rio. Para mitigar esses riscos, o Samae dispõe de planos de ação de emergência e contingência, com procedimentos definidos para garantir a continuidade e a segurança da captação de água bruta”, explicou.
Como a população pode se preparar para eventos extremos?
Diante de um cenário de extremos climáticos cada vez mais frequentes, a preparação da população é essencial para reduzir riscos e prejuízos, tanto em períodos de chuvas intensas quanto de estiagem.
Em casos de chuva forte e possibilidade de alagamentos, a principal recomendação é acompanhar constantemente os alertas e orientações da Defesa Civil. Para quem vive em áreas de risco, é importante agir com antecedência: proteger documentos e objetos pessoais, manter móveis e alimentos em locais elevados, desligar a energia elétrica e fechar o hidrômetro em situações mais críticas.
Também é fundamental evitar atitudes que colocam vidas em risco, como circular ou dirigir em áreas inundadas ou praticar o chamado “turismo de desastre”. A população deve ainda contribuir com a prevenção urbana, mantendo calhas limpas e evitando o descarte de lixo em ruas, bueiros e galerias, fatores que agravam alagamentos.
Já em períodos de estiagem, o foco está no uso consciente da água. Medidas simples fazem diferença no coletivo, como reduzir o tempo de banho, evitar lavar calçadas e veículos com mangueira, reutilizar água sempre que possível e consertar vazamentos. A instalação de caixas d’água também é recomendada para garantir reserva em momentos de menor disponibilidade.
Portanto, entre cheias intensas e períodos pontuais de escassez, o Rio Itapocu escancara um desafio que vai além da natureza: a necessidade de adaptação. A história recente mostra que a região evoluiu na prevenção, mas que ainda há desafios para o futuro. Por isso, cada vez mais, o Vale do Itapocu dependerá da combinação entre planejamento urbano, preservação ambiental e uma população preparada para situações de adversidade.
