Cotidiano | 04/02/2026 | Atualizado em: 04/02/26 ás 18:07

A história da família que fugiu da guerra na Síria e encontrou um recomeço em Jaraguá do Sul

PUBLICIDADE
A história da família que fugiu da guerra na Síria e encontrou um recomeço em Jaraguá do Sul

Foto: Max Pires/JDV

Eles precisaram deixaram para trás uma vida inteira na Síria. Percorreram milhares de quilômetros, cruzaram fronteiras e diferentes idiomas, até chegar a Jaraguá do Sul, onde encontraram, depois de muito tempo, uma chance de recomeçar em paz.

No início de 2025, Sam Massoud, de 52 anos, ao lado da esposa Hemd Sleman, 40, e dos filhos Sam Junior, 11, e Maria Alejandra, 9, deixaram o país tanto amavam para buscar uma vida mais segura e digna. Isso porque eles enfrentavam, na Síria, uma triste realidade marcada por anos de guerra e instabilidade.

Hoje, alguns meses após chegarem em Jaraguá, eles já começam a se sentir em casa – tanto que decidiram trazer um pedaço da própria cultura para cá. O sustento da família vem do Inshallah Gastronomia Árabe, restaurante típico instalado na Vila Gastronômica Via Verde, no bairro Ilha da Figueira.

Casal de refugiados sírios, Sam e Hemd, em frente ao restaurante Inshallah Gastronomia Árabe, em Jaraguá do Sul (SC)
Foto: Max Pires/JDV

Quem comanda a cozinha é Hemd, que prepara cada prato a partir de receitas que aprendeu ainda na infância. O resultado é uma culinária autêntica, feita de forma artesanal, que conquista quem busca o verdadeiro sabor da comida árabe.

Mas até chegar aqui, o caminho foi longo e cheio de cicatrizes. Em entrevista ao JDV, Sam e Hemd reconstituíram a trajetória como refugiados: os momentos de medo, as perdas acumuladas, mas tambem o apoio que encontraram aqui no Brasil e que foi essencial para que pudessem seguir adiante.

Do medo à esperança

A travessia em busca de um lugar melhor para viver começou em fevereiro de 2025, quando Sam, Hemd e os filhos foram obrigados a deixar Latakia, uma das principais cidades portuárias da Síria, localizada no noroeste do país, às margens do mar Mediterrâneo. Conhecida por suas praias cristalinas e vegetação abundante – raridade no território sírio -, a cidade também foi atingida pelas consequências do colapso político e militar que se seguiu à deposição do presidente Bashar al-Assad, em 2024.

Com a chegada do novo governo islâmico fundamentalista liderado por Ahmed al-Sharaa, a Síria mergulhou em uma nova fase de instabilidade. Apesar do fim oficial da guerra civil, as disputas territoriais, especialmente nas regiões curdas, geraram ondas de violência e incerteza.

“É muito triste lembrar que fomos obrigados a deixar tudo para trás, sem contar os amigos e familiares que perdemos para a violência. Latakia é uma cidade linda, arborizada, com praias maravilhosas. Queria que todos pudessem conhecê-la”, conta Sam.

Família de Hemd com o filho do casal enquanto moravam na Síria.
Familiares de Sam e Hemd com o pequeno Sam Júnior, na Síria. | Foto: Arquivo pessoal

O primeiro destino da família após sair da Síria foi a Venezuela, país natal de Sam. Mas a relação com o país já era marcada por dor. Ele havia vivido lá por 25 anos e, em outubro de 2016, foi vítima de um assalto violento, levou dois tiros e passou cerca de quatro anos em recuperação entre hospitais e cirurgias. Quando a saúde permitiu, voltou com a família para a Síria, em novembro de 2019, mas encontrou um país mergulhado no caos.

Em 2020, Sam voltou sozinho à Venezuela com a intenção encontrar alguma estabilidade antes de trazer a esposa e os filhos, mas a pandemia do Covid-19 estourou. As fronteiras se fecharam, e ele ficou preso no país por 11 meses, sem conseguir reunir novamente a família. Ao retornar para a Síria em 2021, a situação já era insustentável: estavam sem dinheiro, sem moradia e sem perspectivas – mesmo assim, persistiram por anos lutando por condições mínimas.

Sam trabalhando em mercearia na Venezuela antes de migrar
Foto: Arquivo pessoal

A saída definitiva aconteceu em 2025. Sam conseguiu deixar a Síria com os filhos em fevereiro. A esposa Hemd, por dificuldades com documentação, só pôde embarcar dois meses depois. A família ainda tentou permanecer por mais algum tempo na Venezuela, mas logo perceberam que seria impossível recomeçar ali. Em abril de 2025, cruzaram a fronteira rumo ao Brasil.

A esperança por dias melhores no Brasil

Eles desembarcaram em São Paulo, mas a dificuldade de se estabelecer em uma cidade tão grande os levou a buscar um lugar mais tranquilo. “Conseguimos comprar um carro em São Paulo, e um colega sírio nos indicou descer para o Sul, onde haveria mais oportunidades de emprego”, lembra Sam

Chegaram em Joinville num domingo, mas encontraram a cidade fechada e sem muitas opções e pessoas para se informarem. Porém, durante a viagem, alguém sugeriu visitar Jaraguá do Sul.

“Pegamos o carro e decidimos conhecer Jaraguá. Nos encantamos assim que chegamos. E também foi aqui que encontramos acolhimento de verdade.”

Logo naquele dia conseguiram se instalar em uma pousada onde receberam orientações, abrigo e o primeiro apoio necessário para reorganizar a vida. Agora, os filhos já frequentam a escola, falam português com certa fluência e ajudam os pais a aprenderem cada vez mais a nova língua.

Um recomeço saboroso

No ano passado, enquanto fazia uma visita casual à Vila Gastronômica Via Verde, Sam se deparou com uma placa de “aluga-se” em um dos boxes de alimentação. A ideia do restaurante surgiu ali mesmo, quase como um impulso. Com o apoio dos amigos da pousada e o investimento de pequenas economias, o casal conseguiu comprar os primeiros utensílios e ingredientes.

Desde julho do ano passado, o Inshallah Gastronomia Árabe funciona no box 4 da Vila, na Rua Prefeito Victor Bauer, 1150, no bairro Ilha da Figueira. O cardápio é variado e fiel às raízes da culinária do Oriente Médio.

Entre as opções, estão iguarias como falafel, kibbe (cru e frito), esfiha, arroz com lentilhas, tabule, babaganouj, homus e fatoush – além do tradicional “prato árabe”, uma combinação generosa de porções típicas.

Outros destaques são o zingol (massa fina recheada com carne) e o kebab. Os preços variam entre R$ 13 R$ 40, com porções que agradam tanto quem quer experimentar quanto quem busca uma refeição completa.

Prato típico com charuto de repolho recheado, tabule e arroz com lentilhas, no Inshallah Gastronomia Árabe.
Foto: Divulgação/Inshallah

“A comida é muito boa, mas as vendas ainda não atendem ao que precisamos. Esperamos que logo mais pessoas conheçam o restaurante e compartihem conosco o que mais amamos da culinária árabe”, complementa Sam.

Apesar dos desafios e dificuldades, o casal segue apostando no negócio e conta com o apoio de clientes fiéis e moradores da cidade, que aos poucos vão descobrindo o sabor do recomeço.

“Estamos felizes aqui. Temos amigos sinceros, gente que nos apoia. Jaraguá do Sul é uma cidade excelente para viver”, completa.

O restaurante funciona de segunda a sexta, das 18h às 23h; aos sábados, das 11h às 23h; e aos domingos, das 15h às 23h. Os pedidos também podem ser feitos pelo WhatsApp (47) 99753-6120 ou pelo iFood. Acompanhe o restaurante no Instagram: @inshallahjaraguadosul.

Como isso impacta sua vida?

A história dessa família mostra como Jaraguá do Sul pode ser um lugar de acolhimento, oportunidades e recomeços. Apoiar iniciativas como essa não é apenas consumir um produto diferente, mas também fazer parte de uma rede de solidariedade que transforma vidas. Eles fugiram da guerra, enfrentaram desafios e escolheram nossa cidade para recomeçar. Agora, cabe a nós escolher apoiá-los.

Notícias de Jaraguá no seu WhatsApp Fique por dentro de tudo o que acontece na cidade e região.
Entrar no Canal

Gabriela Bubniak

Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
Hospedagem por ServerDo.in
©️ JDV - Notícias de Jaraguá do Sul e região - Todos os direitos reservados.
guiwes.com.br