Cotidiano | 18/06/2026 | Atualizado em: 18/06/26 ás 14:23

Pesquisa inédita reconstrói a vida de Emílio Carlos Jourdan, o fundador de Jaraguá do Sul

Historiador Rafael José Nogueira reuniu registros da Bélgica e do Brasil e remontou a trajetória do fundador da cidade, de Namur ao Vale do Itapocu.

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Pesquisa inédita reconstrói a vida de Emílio Carlos Jourdan, o fundador de Jaraguá do Sul

Montagem da equipe do JDV, com auxílio de inteligência artificial, a partir de foto original de Emílio Carlos Jourdan

Resumo completo

Nome: Emílio Carlos Jourdan, fundador de Jaraguá do Sul

Nascimento: 19 de julho de 1835, em Namur, Bélgica

Pais: Charles Marie Jourdain, farmacêutico, e Joséphine Virginie Lapierre

Naturalização: súdito belga naturalizado brasileiro, processo de 1864 a 1865, em Pernambuco

Fundação da colônia: 25 de julho de 1876, o Estabelecimento Jaraguá, às margens do rio Itapocu

Casamento: Rio de Janeiro, 1874, com a francesa Helena Agostinha Elisabeth Julia Caffier

Morte: 9 de agosto de 1900, em Niterói, registrado como coronel honorário e engenheiro

A maioria das cidades conhece seu fundador por um nome em placa de rua, uma estátua na praça, uma data no calendário. De Emílio Carlos Jourdan, o homem que deu início à história de Jaraguá do Sul, já se conheciam os traços principais da trajetória, mas algumas peças ainda precisavam de estudo.

Agora, no ano em que a cidade completa 150 anos, uma pesquisa inédita do historiador Rafael José Nogueira reuniu documentos guardados na Bélgica e no Brasil e ampliou esse retrato, remontando, registro a registro, a vida do fundador, do país onde nasceu ao Brasil onde construiu uma colônia e terminou seus dias.

O trabalho cruza fontes primárias guardadas em dois continentes e em arquivos que quase nunca conversam entre si: o assento de nascimento lavrado em Namur, na Bélgica, o processo de naturalização que tramitou no Império do Brasil, o registro de casamento no Rio de Janeiro, o assento de óbito em Niterói e um longo depoimento de história oral deixado por um neto. Juntos, esses papéis transformam uma figura quase lendária em uma biografia documentada, com datas, endereços, nomes próprios e episódios que nenhuma placa de rua poderia conter.

A pesquisa nasceu da curiosidade de Rafael José Nogueira, 32 anos, historiador formado pela Universidade da Região de Joinville (Univille), investigava a própria genealogia quando descobriu que seu tetravô, o imigrante alemão Karl Wachter, conhecido na região como Carlos Walter ou o “Carlos Alemão do Itapocu”, fora amigo, compadre e padrinho de batismo de um dos filhos de Jourdan. Foi esse fio que o levou ao fundador da cidade.

“Por ser uma figura conhecida, e ter mais dados disponíveis, facilitou a busca, embora muitos dados estivessem incorretos ou equivocados, o que exigiu mais aprofundamento”, conta o historiador.

O trabalho levou anos, entre idas e vindas, à espera de respostas de arquivos e do cruzamento das fontes.

Página do livro de registros civis de Namur de 1835 com o assento de nascimento de Émile Charles Jourdain
Assento de nascimento civil de Émile Charles Jourdain, lavrado em Namur em julho de 1835 (registro no canto superior direito). Reprodução/Acervo da pesquisa de Rafael José Nogueira

Um belga nascido em Namur

O ponto de partida da reconstituição é o assento de nascimento civil de Jourdan, lavrado em Namur em julho de 1835. O documento, escrito em francês na caligrafia da época, registra que ele nasceu no dia 19 daquele mês, às nove e meia da noite, e que o ato foi formalizado no dia 22, diante do oficial do estado civil da cidade. O pai, Charles Marie Jourdain, era farmacêutico. A mãe, Joséphine Virginie Lapierre, aparece sem profissão declarada. A família morava na rua Gravière, número 1048, uma via que ainda existe em Namur, na região da Valônia.

O registro civil só foi possível porque aquela parte da Europa passou a exigir esse tipo de documento depois da anexação à França, no período napoleônico, quando o Código Civil tornou obrigatório o registro de nascimentos.

É por isso que, quase dois séculos depois, existe um papel oficial atestando onde e quando começou a história do fundador de Jaraguá do Sul. A definição da data e do local de nascimento, aliás, é um dos pontos que a pesquisa ajudou a esclarecer, dando precisão ao restante da trajetória.

O assento de casamento, lavrado décadas depois no Brasil, acrescenta um detalhe que o registro de nascimento não trazia: Jourdan foi batizado na freguesia de São José, em Namur. A pesquisa de Nogueira segue em busca do registro paroquial original do batismo, em contato com a diocese belga, o que pode acrescentar mais uma camada à reconstituição.

Rua de Gravière em Namur.

Do Império brasileiro ao Batalhão de Engenheiros

A vida de Jourdan no Brasil começou a tomar forma documental na década de 1860. O processo de naturalização que Nogueira localizou no Arquivo Nacional mostra um súdito belga residente em Pernambuco pedindo ao imperador Dom Pedro II a condição de cidadão brasileiro, entre 1864 e 1865. Os papéis registram que ele havia declarado, perante a Câmara Municipal, o desejo de fixar residência no Brasil, que se dizia católico apostólico romano e que era maior de 21 anos, no gozo de seus direitos civis e políticos.

O mesmo processo revela o detalhe que liga Jourdan à engenharia, vocação que o acompanharia pelo resto da vida: ele aparece como soldado voluntário do Batalhão de Engenheiros, sediado na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. A tramitação passou pelo presidente da Província de Pernambuco e foi endereçada ao Ministro do Império, José Bonifácio de Andrade e Silva, o Moço. Entre as assinaturas do processo está a de João Carlos Villagran Cabrita, então comandante interino do Batalhão de Engenheiros, nome que viria a morrer na Guerra do Paraguai e é hoje lembrado como um dos patronos da Engenharia Militar brasileira.

Para o historiador, o gesto de se naturalizar carrega significado. Jourdan pediu a cidadania brasileira em meio ao período da Guerra do Paraguai, servindo ao Exército imperial.

“É a comprovação documental de que ele realmente possuía um sentimento de afeto ao Brasil”, avalia Nogueira.

Assento de casamento de 1874 de Emílio Carlos Jourdan com assinatura de Benjamin Constant como testemunha
Assento de casamento de Emílio Carlos Jourdan e Helena Caffier, lavrado na Matriz do Santíssimo Sacramento em 1874. No rodapé, a assinatura da testemunha Benjamin Constant Botelho de Magalhães.

Um casamento no Rio, uma francesa e uma testemunha ilustre

Em outubro de 1874, na Matriz do Santíssimo Sacramento, no centro do Rio de Janeiro, Jourdan se casou com Helena Agostinha Elisabeth Julia Caffier. Ela era francesa, batizada na freguesia de Sermorens, na região de Voiron, no antigo bispado de Grenoble, filha de Carlos Augusto Caffier e Maria Julia Caffier. O registro do casamento confirma os nomes dos pais de Jourdan e reafirma sua origem belga.

Entre as testemunhas do casamento aparece um nome que salta aos olhos: Benjamin Constant Botelho de Magalhães, que quinze anos depois seria figura central na Proclamação da República. Segundo o historiador Rafael José Nogueira, trata-se da mesma figura histórica, e a relação entre as duas famílias vai além daquela assinatura.

Os dois provavelmente se conheceram na Guerra do Paraguai, ambos em missões de engenharia. Anos mais tarde, uma filha de Benjamin Constant, Adozinda da Costa Botelho de Magalhães, seria madrinha de batismo de Álvaro, o sétimo filho de Jourdan, um laço de compadrio que confirma a proximidade entre as casas.

Dois retratos de época de Emílio Carlos Jourdan, um fardado e outro jovem ao lado da esposa Helena Caffier
Emílio Carlos Jourdan em dois momentos: à esquerda, em uniforme militar; à direita, mais jovem, ao lado da esposa, a francesa Helena Caffier.

O colonizador que sorria de longe

A ponte entre o engenheiro do Império e o fundador de Jaraguá do Sul tem data precisa. Em 25 de julho de 1876, Jourdan subiu o rio Itapocu e fundou o Estabelecimento Jaraguá, a colônia que daria origem à cidade. Nos primeiros anos, o povoado ainda pertencia administrativamente ao município de Paraty, atual Araquari.

>> Leia também: A história de como Jaraguá do Sul nasceu e cresceu em torno dos seus rios

Como era a vida naquela colônia recém-nascida aparece em duas fontes que se confirmam: o depoimento do neto, Carlos Leal Jourdan, registrado pela Fundação Oswaldo Cruz entre 1987 e 1988, e uma carta da filha do fundador, Helena Jourdan Ruiz, escrita em 1974. Os dois relatos, colhidos de pessoas diferentes e separados por mais de uma década, descrevem o mesmo gesto: Jourdan deixava ferramentas, fumo e objetos em pontos combinados, numa espécie de escambo silencioso com os indígenas da região, que retiravam os itens sem contato direto.

O neto lembra o avô “de longe sorrindo, com um sorriso bondoso”; a filha registra que, “quando entrava na zona deles, deixava fumo, ferramentas, etc. que, ao voltar, não mais as encontrava”.

Essa convivência à distância, porém, não foi sempre pacífica. Em fevereiro de 1883, a Colônia Jaraguá foi alvo de um ataque indígena, do povo Laklãnõ Xokleng, episódio que tem registro tanto em telegrama oficial da polícia da província quanto na memória da própria família de Jourdan.

Cacique ‘Camrém’, líder dos Xokleng à época do contato com E. Hoerhan. Foto de autoria provável de E. Hoerhan. | Foto: Acervo Arquivo Histórico José Ferreira da Silva (AHJFS), da Fundação Cultural de Blumenau

Ascensão e ruína

A trajetória de Jourdan no Sul terminou em uma sequência de perdas. Os investimentos na Colônia Jaraguá pesaram sobre suas finanças, e o fim da vida foi marcado por dificuldades econômicas, que aparecem tanto na pesquisa de Nogueira quanto, em outra versão, na memória do neto.

Carlos Leal Jourdan descreveu um avô que teria visto indústrias destruídas por incêndio e que, em uma viagem ao Rio de Janeiro, foi assaltado no retorno e roubado em cerca de 100 contos de réis, quantia que chamou de “dinheiro como diabo naquele tempo”.

Há apenas uma divergência entre a memória da família e os documentos encontrados por Nogueira. O neto afirma que o avô nasceu em 1838, mas o registro civil de Namur registra o nascimento em 1835. Diante dessa diferença, prevalece a data do documento.

Vista da orla de Niterói por volta de 1900, com barcos atracados e construções ao fundo
Vista de Niterói por volta de 1900, cidade onde Emílio Carlos Jourdan passou seus últimos anos.

O fim da trajetória, em Niterói

Emílio Carlos Jourdan morreu em 9 de agosto de 1900, aos 65 anos. O assento de óbito, lavrado no cartório do segundo distrito de Niterói, o registra como coronel honorário, engenheiro e brasileiro, morador em São Cristóvão. O documento confirma que o belga nascido em Namur de fato se naturalizou brasileiro ao longo da vida, fechando o arco que o processo de 1864 havia aberto.

A morte foi registrada no atestado como asfixia por submersão e teve repercussão na imprensa carioca da época. Jourdan deixou viúva e sete filhos, cinco deles ainda menores.

A descendência seguiu adiante. O neto que prestou o longo depoimento à Fiocruz, Carlos Leal Jourdan, tornou-se engenheiro e atuário de carreira no Rio de Janeiro, sinal de que a vocação técnica do avô atravessou gerações.

Quem assina a pesquisa

Rafael José Nogueira, 32 anos, é licenciado em história pela Universidade da Região de Joinville (Univille) e historiador registrado sob o número 0000037/SC. Na área de história militar, dedica-se a temas como a Revolução de 1930, sobretudo no sul do Brasil, e a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, com foco nos expedicionários catarinenses.

Também se dedica a estudos genealógicos de militares e às relações familiares e sociais que cercam os eventos militares da história do Brasil, linha de trabalho que o levou à reconstituição da trajetória de Emílio Carlos Jourdan.

O historiador Rafael José Nogueira, autor da pesquisa sobre o fundador de Jaraguá do Sul
O historiador Rafael José Nogueira, autor da pesquisa que reconstituiu a trajetória de Emílio Carlos Jourdan. Foto: Arquivo pessoal

Como isso impacta sua vida?

Para os jaraguaenses, pesquisas como esta costuram ainda melhor a história da codade. No ano dos 150 anos, a cidade ganha algo que muitas cidades maiores não têm: a origem do seu fundador documentada de ponta a ponta, em registros que qualquer morador pode, em tese, ir conferir. Entender de onde veio quem fundou Jaraguá do Sul é também entender como a própria cidade começou.

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Max Pires

Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.

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