Cotidiano | 26/05/2026 | Atualizado em: 26/05/26 ás 11:48

Antes do asfalto: como os mais ricos viajavam de Jaraguá do Sul a Blumenau em 1921

Anúncio mostra como dois empresários conectaram as duas cidades com um automóvel Benz, em viagens que custavam o equivalente a um salário do operário comum.

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Antes do asfalto: como os mais ricos viajavam de Jaraguá do Sul a Blumenau em 1921

Jaraguá do Sul por volta de 1920: rua de chão batido e um automóvel cruzando o centro, no período em que o serviço regular de Benz entre a cidade e Blumenau começava a operar. Foto: Acervo Histórico de JAraguá do Sul

Resumo completo

Veículo: automóvel Benz, de fabricação alemã

Proprietários: José M. Müller (Jaraguá do Sul) e Alfredo Carvalho (Blumenau)

Início da operação: 9 de fevereiro de 1921

Preço por passageiro: 20 mil réis por viagem

Saídas de Jaraguá: segundas, quartas e sextas, após a chegada do trem de São Francisco

Saídas de Blumenau: terças, quintas e sábados, às 14h, do Hotel Holetz

Fonte: jornal Correio do Povo, fevereiro de 1921

Cruzar de Jaraguá do Sul a Blumenau hoje leva por volta de uma hora pela SC-108. No entanto, em 1921, a travessia era uma operação de outra escala. As estradas eram de chão batido, estreitas, e o trajeto entre os dois vales dependia de carroças, cavalos ou da ferrovia. Foi nesse cenário que dois empresários montaram um serviço regular de automóvel entre as cidades, voltado a quem podia pagar.

José Müller, comerciante de Jaraguá do Sul, e Alfredo Carvalho, de Blumenau, anunciaram para a cidade que operariam viagens diárias entre as duas cidades em um automóvel Benz. O serviço começou no dia 9 de fevereiro de 1921.

Um Benz no meio do chão batido

O automóvel escolhido para o serviço dizia tudo sobre o público-alvo. Em uma região onde o transporte ainda dependia de tração animal e da estrada de ferro, ter um Benz alemão circulando entre Jaraguá do Sul e Blumenau não era detalhe. Era assinatura.

Müller e Carvalho não estavam atendendo a operários, colonos ou pequenos comerciantes. Estavam atendendo a quem podia pagar pelo conforto de fazer a viagem sentado em um automóvel, em uma época em que a maior parte dos jaraguaenses e blumenauenses ainda não tinha visto um carro de perto.

Fachada do Hotel Holetz em Blumenau no início do século XX, com automóveis enfileirados na rua e pessoas de chapéu na calçada
O Hotel Holetz, em Blumenau, era o ponto de partida do automóvel Benz que ligava a cidade a Jaraguá do Sul em 1921. Foto: Antigamente Blumenau

A logística pensada para conectar com o trem

O horário das saídas de Jaraguá do Sul não foi escolhido por acaso. As partidas aconteciam às segundas, quartas e sextas-feiras, sempre logo após a chegada do trem vindo de São Francisco do Sul. Isso significava que um viajante embarcado em São Francisco podia, no mesmo dia, descer em Jaraguá, pegar o Benz e seguir até Blumenau.

A volta seguia outro ritmo. De Blumenau, o automóvel saía às terças, quintas e sábados, sempre às 14h, com ponto de partida no Hotel Holetz. O endereço não era escolha aleatória. Inaugurado em 1902 na esquina da Alameda com a Rua XV, perto do antigo porto da cidade, o Holetz era o principal hotel de Blumenau no período e concentrava a hospedagem de comerciantes-viajantes que cruzavam o estado a trabalho. O Benz partia, portanto, do ponto onde já estava reunida a clientela natural do serviço.

Aos domingos, o serviço operava em modelo de ida e volta no mesmo dia: saída de Jaraguá às 7h da manhã, com retorno na sequência.

O preço que recortava o público

A passagem custava 20 mil réis por pessoa, por viagem. Para dimensionar o valor, é preciso lembrar que em 1921 o salário mensal de um operário comum nas indústrias catarinenses ficava na faixa de 80 a 150 mil réis. Uma ida e volta entre Jaraguá do Sul e Blumenau, portanto, consumia entre um terço e metade do salário mensal de um trabalhador.

Esse era o recorte. A nova linha de automóvel não democratizou o transporte entre as duas cidades. Ela ofereceu uma alternativa de conforto e velocidade para a parcela da população que tinha renda compatível, em geral comerciantes, industriais, médicos, advogados e fazendeiros em deslocamento.

Mapa estatístico do município de Blumenau em 1922, com territórios, rotas até outras cidades brasileiras e tabelas populacionais
Mapa estatístico do município de Blumenau, produzido em 1922, mostra o território, distritos e a malha de conexões com outras cidades catarinenses e do Brasil. Foto: Reprodução

Além da rota fixa

Os dois empresários disponibilizavam, ainda, automóveis para viagens sob encomenda, com destino a Florianópolis ou a qualquer outra localidade. Era serviço de fretamento individual, voltado a viagens longas que dificilmente seriam feitas de outra forma com a mesma agilidade.

Vale ainda um detalhe geográfico: em 1921, Jaraguá do Sul nem era município. Era distrito de Joinville, e só ganharia autonomia em 1934. A linha de automóvel de Müller e Carvalho, portanto, antecedeu até a existência formal da cidade que as estradas atuais conectam a Blumenau em uma hora.

Como isso impacta sua vida?

Quem hoje pega a SC-108 sem pensar duas vezes para ir a Blumenau está fazendo, em uma hora, o mesmo trajeto que em 1921 dependia de planejamento, dinheiro e contato com a fina flor do comércio regional. A linha de Müller e Carvalho não pavimentou a estrada, mas ajudou a estabelecer a ideia de que Jaraguá do Sul e Blumenau podiam, sim, ser cidades de trânsito diário. Cem anos depois, esse trânsito é rotina para milhares de trabalhadores que cruzam os dois vales todo dia.

Veja o vídeo

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Max Pires

Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.

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