Siga o JDV - Notícias de Jaraguá do Sul e região no Google
E veja as notícias de Jaraguá do Sul e região com destaque nas suas buscas.
A história de como Jaraguá do Sul virou a “capital dos hotéis” entre as décadas de 1930 e 1950
Muito antes de se tornar referência industrial, Jaraguá do Sul viveu uma fase em que hotéis, trens e viajantes movimentavam o cotidiano da cidade.
Foto restaurada do Hotel Central, em Jaraguá do Sul, na década de 1940. O prédio foi um dos símbolos da fase em que a cidade se destacou pela hotelaria. | Foto: Lolo Zocatelli/Antigamente em Jaraguá do Sul/Restauração JDV)
Resumo completo
Chegada dos trilhos: 1907, ao povoado Jaraguá
Conexão nacional: 1913, ligação em Mafra com a ferrovia São Paulo-Rio Grande
Posição da cidade: principal ponto de embarque e desembarque do norte catarinense
Liderança hoteleira: maior rede do Estado por habitante, entre 1930 e 1950
Fim do ciclo: perda de importância da ferrovia a partir dos anos 1960
Quem hoje associa Jaraguá do Sul a um parque industrial dificilmente imagina que, algumas décadas atrás, a cidade era conhecida por outra coisa: a quantidade de hotéis. Entre os anos 1930 e 1950, a cidade abrigou a maior rede hoteleira de Santa Catarina, considerando o número de leitos por habitante.
A explicação passa por um elemento que mudou o destino da cidade: o trem. A estação ferroviária transformou o município em um dos principais pontos de circulação do norte de Santa Catarina, e o movimento de passageiros criou uma nova demanda: lugares para se hospedar.
Um trem que demorou trinta anos para chegar
A ferrovia já fazia parte dos planos de desenvolvimento da região antes mesmo dos primeiros trilhos aparecerem. No século 19, quando Emílio Carlos Jourdan mediu as terras da Princesa Isabel, ele defendia ao Conde d’Eu que uma estrada de ferro seria fundamental para o crescimento do futuro município.
Jourdan chegou a obter uma concessão do governo imperial para construir a linha, mas o projeto não avançou naquele momento.
Quase trinta anos se passaram até a primeira locomotiva chegar. As obras começaram em São Francisco em 1905 e, dois anos depois, os trilhos alcançaram o povoado Jaraguá. Em 1910, a ligação ferroviária já permitia viagens entre Hansa, atual Corupá, e São Francisco do Sul.

>> Leia também: Como era andar de Litorina, o trem que saía de Corupá e atravessava Jaraguá do Sul até o litoral
Conteúdos em alta
A virada que colocou a cidade no mapa
A grande mudança veio em 1913. Naquele ano, a ligação em Mafra com a ferrovia São Paulo-Rio Grande ampliou o alcance de Jaraguá do Sul e conectou a cidade às principais rotas ferroviárias do Sul do Brasil.
Com isso, passageiros e mercadorias passaram a circular entre o litoral, o Vale do Itajaí e outras regiões catarinenses tendo Jaraguá como ponto de passagem. A estação ganhou importância no cotidiano da cidade e movimentou uma estrutura de serviços para atender quem chegava, partia ou precisava permanecer por alguns dias.

Durante as décadas seguintes, a ferrovia ajudou a consolidar Jaraguá do Sul como um importante entroncamento rodo-ferroviário do norte catarinense. O movimento só começou a perder força a partir dos anos 1960, quando o transporte rodoviário passou a ocupar o espaço que antes pertencia aos trilhos.
Por que tantos hotéis?
Uma estação ferroviária movimentada criava uma necessidade básica: quem chegava à cidade nem sempre podia seguir viagem no mesmo dia. Passageiros precisavam de lugar para dormir, fazer uma refeição e esperar a próxima conexão. Foi essa circulação constante que abriu espaço para o crescimento da rede hoteleira de Jaraguá do Sul.
Um dos símbolos desse período foi o Hotel Central. Localizado próximo de onde hoje fica o shopping Partage Jaraguá do Sul, o estabelecimento atendia viajantes que chegavam pela estrada de ferro e anunciava, nos anos 1940, serviços como hospedagem, bebidas nacionais e estrangeiras. A proximidade com a estação era um dos atrativos destacados pelo próprio hotel.

Não era turismo como se conhece hoje. Os hotéis atendiam principalmente viajantes, comerciantes, representantes e pessoas que passavam pela cidade por causa da ferrovia. A hospedagem fazia parte da estrutura necessária para uma cidade que funcionava como ponto de ligação entre diferentes regiões.
Mas é importante fazer uma ressalva: Jaraguá do Sul não tinha o maior número absoluto de hotéis de Santa Catarina. O destaque estava na proporção. Entre as décadas de 1930 e 1950, a cidade tinha a maior rede hoteleira do Estado considerando o número de leitos por habitante.
Para o tamanho da população da época, era uma concentração expressiva de hospedagens. O mesmo movimento ajudou a sustentar outros serviços ligados à circulação de pessoas e cargas, como carros de aluguel e uma frota de caminhões que atendia a movimentação comercial da região.

A plataforma das sete da noite
A estação ferroviária era mais do que um ponto de embarque e desembarque. No fim da tarde, moradores iam até a plataforma para acompanhar a chegada do chamado “trem das sete”, que vinha de São Paulo e Curitiba e chegava a Jaraguá às 19h. Depois, a composição seguia para Joinville e São Francisco do Sul, retornando na manhã seguinte.
Segundo a descrição registrada por Egon Jagnow no documento dos 150 anos de Jaraguá do Sul, a plataforma era um espaço de convivência. Ali aconteciam encontros, conversas, amizades e despedidas, enquanto o movimento dos trens fazia parte da rotina da cidade.

O fim do ciclo
A mesma ferrovia que ergueu a vocação hoteleira da cidade explica o fim dela. A partir dos anos 1960, o trem perdeu importância no Brasil diante das rodovias e do transporte por caminhão. O fluxo de passageiros que sustentava os hotéis minguou, e a cidade que crescera como ponto de parada passou a crescer por outro motivo: a indústria, que já vinha se robustecendo e se tornaria a marca de Jaraguá do Sul daí em diante.
A rede hoteleira recordista ficou para trás como capítulo de uma fase, não como característica permanente. O que permaneceu foi o hábito de a cidade se reinventar quando a base econômica muda.
Como isso impacta sua vida?
Quem mora em Jaraguá do Sul convive todo dia com os trilhos; mas nem todos sabem que foram eles que primeiro puseram a cidade no mapa do Estado, antes de qualquer fábrica. Entender que o centro já foi cidade de viajantes, e não só de operários e empresários, ajuda a ler a paisagem urbana com outros olhos: a antiga estação, o traçado das ruas centrais e a própria localização da cidade como entroncamento contam uma história anterior à industrialização. Saber de onde a cidade veio é o que permite reconhecer o que ela ainda pode virar.
Max Pires
Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.