Como era andar de Litorina, o trem que saía de Corupá e atravessava Jaraguá do Sul até o litoral
Entre 1944 e 1991, três gerações de jaraguaenses viajaram numa automotriz a diesel que ligava a serra ao mar. Agora o trem volta ao debate.
A Litorina chega à plataforma da Estação Ferroviária de Jaraguá do Sul. Entre 1944 e 1991, a automotriz cruzou o Vale do Itapocu diariamente ligando Corupá a São Francisco do Sul. Foto: Arquivo Histórico Municipal Eugênio Victor Schmöckel
Resumo completo
Operação: fevereiro de 1944 a janeiro de 1991
Trecho: Corupá a São Francisco do Sul, com parada em Jaraguá do Sul
Tipo de veículo: automotriz movida a óleo diesel
Frequência: três horários diários (manhã, meio-dia e fim de tarde)
Motivo do fim: avanço da BR-280 e do transporte rodoviário
Estação ferroviária atual: tombada em 1998, hoje sede da Fundação Cultural
Debate atual: associações pedem ao Governo Federal estudo para trem regional usando a mesma malha
O advogado Rodrigo Winter, hoje com 49 anos, tinha 10 quando entrou pela primeira e única vez numa Litorina. Era 1986, terceira série da Escola Eleodoro Borges, viagem de estudos para São Francisco do Sul. A automotriz parou nos trilhos atrás do colégio, no bairro Baependi, e a turma embarcou com a professora. Quando o vagão deixou Jaraguá do Sul, a paisagem que ele conhecia, comércio, postos, casas na beira da estrada, sumiu da janela.
“Era como se estivesse viajando pra um outro lugar, mas era a mesma região. O trem passava dentro do mato. Cortava montanhas, passava em cima do rio. Era uma visão que a gente nunca tinha visto”, lembra.
A Litorina circulou diariamente entre Corupá e São Francisco do Sul por 47 anos, de fevereiro de 1944 até janeiro de 1991. Para quem cresceu em Jaraguá do Sul nas últimas décadas de operação, ela foi a viagem que pais confiavam aos filhos sozinhos, o ritual de comprar bilhete impresso na hora em papel Paraná.

O ritual da viagem começava nos guichês
O professor universitário Zeca Jr. tinha 12 anos quando andou de Litorina pela primeira vez, em 1983. Um grupo de amigos do colégio ia para um aniversário em Guaramirim, e os pais decidiram levar todos até a antiga estação ferroviária de Jaraguá do Sul, que hoje abriga o Museu da Paz. Dali em diante, as crianças seguiam sozinhas.
“Na época isso só acontecia porque a Litorina transmitia muita segurança às famílias. Diferente do ônibus, ela fazia um trajeto mais direto, sem várias paradas pelo caminho, o que deixava nossos pais mais tranquilos. Para nós, era uma mistura de liberdade, aventura e encantamento”, conta Zeca.

O ritual começava antes do embarque. Os bilhetes saíam dos guichês da estação, impressos na hora em papel Paraná, numa impressão rudimentar feita pelas máquinas da época. Era um gesto burocrático que, visto hoje, tinha algo de cerimonial.
Bancos de couro, cheiro de diesel e creolina nas estações

Por dentro, a Litorina parecia um ônibus comprido sobre trilhos. Os bancos eram revestidos em couro ou material parecido, dispostos dos dois lados de um corredor central, com compartimentos abertos acima dos assentos para malas e pertences. A diferença em relação a uma viagem de carro estava no que se sentia.
“As memórias mais fortes talvez sejam sensoriais. O cheiro do óleo diesel usado como combustível era marcante. E também o cheiro de creolina nas estações onde a Litorina parava. O som metálico dos trilhos, o balanço constante do vagão, tudo isso acabou ficando guardado na memória”, descreve Zeca
Diferente das antigas Marias Fumaças, a Litorina não soltava fuligem. O motor a diesel ficava no próprio vagão de passageiros, sem a fumaça de carvão que obrigava as composições mais antigas a deixarem os passageiros no fim do trem para evitar a sujeira. Aqui, todo mundo viajava junto, sem se preocupar com isso.
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Uma paisagem que só os trilhos mostravam
Quem viajava de Litorina via uma faixa de Santa Catarina que a rodovia escondia. O repórter Márcio Martins, que andou pela primeira vez em 1988, descreve a experiência como uma miniaventura, pela própria natureza do veículo. Para quem era da cidade, era rotina de transporte. Para o visitante, era outra coisa.
“A viagem era mais confortável porque não passava pelas trepidações de estradas e rodovias e não sofria com variações bruscas de velocidade. Não enfrentava engarrafamentos, semáforos, obras e outros obstáculos que outros meios de transporte costumam enfrentar”, relata Márcio.

O ganho não estava só no conforto. A janela mostrava o que o asfalto escondia.
“Era sempre uma atração à parte observar a paisagem ao longo da viagem, trocando asfalto por trechos de belas paisagens naturais”, diz.
Rodrigo reforça a sensação. Entre Jaraguá do Sul e São Francisco do Sul, a Litorina passava por trechos sem comércio, sem casas, sem postos de gasolina. Só mato, montanha e rio. Para uma criança da terceira série, era uma viagem para outro mundo.
“O trem passava dentro do mato. Era uma visão de um, era como se estivesse viajando pra um outro lugar, mas era a mesma região”, relembra.

Quem usava a Litorina no dia a dia
A Litorina não servia só a passeios escolares. Márcio resume bem o papel dela na região: “Era uma alternativa segura, acessível e prática para quando as pessoas precisavam se deslocar entre os municípios.” Era ferramenta de trabalho, de estudo e de comércio para muita gente. Zeca lembra dos pais, que começavam no ramo da confecção quando ele era menino.
“Minha mãe produzia peças de roupa em casa, colocava tudo em malas e viajava de Litorina para cidades como Rio Negrinho e São Bento do Sul para vender a produção”, conta. “Era um meio de transporte importante para quem precisava se deslocar pela região.”
Em 1987, quando começou a estudar no Colégio Bom Jesus, em Joinville, o próprio Zeca passou a usar a Litorina fora do horário das aulas, quando precisava ir à cidade vizinha para trabalho escolar e o ônibus fretado não estava disponível. Era trajeto tranquilo, ele descreve, e bonito.
Rodrigo, que via a Litorina passar quase todo dia, lembra que ela movimentava mais a linha férrea do que os trens de carga da época. “Naquela época o transporte de carga não era como é hoje, que leva 90 vagões. O maior trânsito era de Litorina mesmo, não era de trem de carga. Passava de manhã, passava de meio-dia e passava no final do dia.”

A estação como centro de tudo
A Litorina circulava num cenário maior. A nova Estação Ferroviária de Jaraguá do Sul, inaugurada em 1943 e projetada pelos engenheiros Achilles Colli e Pozzoli, era o coração social da cidade. Notícias do Brasil inteiro chegavam pelos trilhos.
A Avenida Getúlio Vargas, antiga Rua Independência, foi alargada para acompanhar o crescimento comercial em torno do prédio. Hotéis como o Central, o Brasil, o Wensersky e o Becker se multiplicaram para receber quem fazia conexão na cidade.
Era ali, na frente da estação, que os jovens passeavam, que as famílias esperavam parentes, que se trocavam notícias e olhares. O fluxo de embarques e desembarques fazia do entorno o ponto de encontro mais movimentado da Jaraguá do Sul daquele tempo.
A área de lazer construída ao redor do prédio, somada ao prolongamento até o Mercado Público e ao que hoje é o Terminal Urbano, deu forma ao Centro Histórico que se reconhece hoje.

O fim em janeiro de 1991
A Litorina saiu dos trilhos em janeiro de 1991. A causa foi uma transformação no padrão de deslocamento da região. A BR-280 ganhou tráfego, o ônibus interestadual oferecia mais destinos, e o trem de passageiros foi sendo deixado para trás. O transporte ferroviário no Vale do Itapocu passou a ser quase exclusivamente de carga.
A Estação Ferroviária ainda viveria outro ciclo. Em 1998, o prédio e o armazém de cargas foram tombados pela Fundação Catarinense de Cultura. Em 2005, a Fundação Cultural de Jaraguá do Sul comprou os dois imóveis. A revitalização do Centro Histórico, finalizada em 2008 com recursos da Lei Rouanet, transformou o entorno antes deteriorado em praça e anfiteatro.

Mas o trem de passageiros não voltou.
“Quando ela parou, não foi apenas um meio de transporte que desapareceu. A cidade perdeu um pouco da sua identidade e da sua conexão com a ferrovia”, finaliza Zeca Jr.
Como isso impacta sua vida?
A Litorina parou em 1991, e desde então quem precisa ir de Jaraguá do Sul para Joinville, São Francisco do Sul ou São Bento do Sul depende da BR-280 e dos ônibus interestaduais. Mas o debate sobre voltar a colocar passageiros nos trilhos do Norte catarinense voltou à mesa em Brasília esta semana.
Associações de municípios da região, incluindo Amunesc, Amplanorte e Amvali, pediram ao Governo Federal a inclusão da ferrovia EF-485 nos estudos nacionais para trem regional de passageiros. É a mesma malha que a Litorina percorria. Saber como era andar nela, e por que ela fez tanta diferença na vida de quem morava aqui, é uma forma de entender o tamanho do que se perdeu, e o que pode ser reaberto se o estudo, dessa vez, sair do papel.
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Max Pires
Já criei blog, portal, startup… e agora voltei pro que mais gosto: contar histórias que fazem sentido pra quem vive aqui. Entre um café e um latido dos meus cachorros, tô sempre de olho no que importa pra nossa cidade.