No Mundo de Luáh: a pequena chef de Jaraguá do Sul e suas receitas para viver o extraordinário
Aos 3 aninhos, Luáh transforma a rotina na cozinha em exemplo de inclusão e autonomia na infância.
Foto: Reprodução/Redes Sociais
Luáh Kamchen tem apenas 3 aninhos, mas já conquistou milhares de fãs ao mostrar que a infância pode ser cheia de descobertas e autonomia. Natural de Jaraguá do Sul, ela ficou conhecida como a mini chef do perfil No Mundo de Luáh, onde aparece preparando receitinhas na cozinha e transformando a rotina simples do dia a dia em estímulo, aprendizado e novas possibilidades.
Claro que quem guia toda essa experiência diariamente é a família. Principalmente ao lado da mãe Marlete Magda Duarte, de 33 anos, Luáh vive momentos de descobertas que vão muito além da cozinha. São vivências que, de forma natural e divertida, acabam falando sobre inclusão, empatia e respeito.
De registros em família a fenômeno nas redes
Como fica sozinha com a filha durante boa parte do dia, Marlete – ou Mah, como prefere ser chamada – começou a gravar a rotina para que o pai, Gustavo Kamchen, e os familiares que moram longe pudessem acompanhar o desenvolvimento da menina. Os vídeos registravam exercícios, avanços e momentos simples do cotidiano que, pouco a pouco, passaram a ganhar outro significado.

Com o passar do tempo, os vídeos começaram a circular para além do círculo íntimo. A evolução da criança chamava atenção, a conexão entre mãe e filha emocionava quem acompanhava, e mães de crianças com trissomia do cromossomo 21 (ou Síndrome de Down) passaram a se identificar com aquela rotina.
“Outras mães de crianças com T21 se identificaram e começaram a se inspirar em nós duas, na nossa conexão”, conta.
Conteúdos em alta

Hoje, com o maior alcance do perfil no Instagram – mais de 400 mil seguidores -, as mensagens de quem acompanha a rotina delas chegam diariamente. Algumas são pedidos de orientação, ou elogios e interações diversas. Mas há também o contato de pessoas que não convivem diretamente com a Síndrome de Down e que afirmam terem mudado a forma de enxergar a deficiência após acompanhá-las.
“No nosso perfil você não encontra publicações informativas. A gente mostra na prática as possibilidades”, afirma Mah e, para ela, este detalhe faz a diferença ao mostrar que a vida pode ser leve, independentemente dos desafios.
Um mundo visto por outro ângulo
É dessa vivência compartilhada que nasce também a identidade do perfil. O nome não surgiu por acaso. Para Marlete, No Mundo de Luáh foi uma forma de posicionamento.
Quis provocar essa reflexão: como seria o mundo visto pelos olhos dela? Um caminho marcado por incertezas ou um horizonte repleto de possibilidades?”, diz.
A provocação sintetiza o dilema enfrentado por muitas famílias após o diagnóstico, marcado por projeções sociais que tendem a limitar o potencial da criança.
Para a família, porém, a Síndrome de Down nunca representou um obstáculo ou limite. E enxergar o todo por essa perspectiva, segundo Mah, é essencial para quebrar estigmas sociais e dentro das próprias famílias.
“O mundo de Luáh é olhar além da deficiência. Minha intenção sempre foi mostrá-la como pessoa, como criança. Porque o que a define não é a deficiência, mas, sim, a personalidade única e alegria que ela tem; quero mostrar as conquistas dela.”
A cozinha como território de autonomia
Os conteúdos que mais encantam os seguidores são de Luáh na cozinha, concentrada, colocando a mão na massa e se divertindo muito. E essa relação começou de maneira espontânea, quando ela tinha cerca de 1 ano. Ao lado da mãe na bancada, observava os utensílios, tentava tocar nos ingredientes e demonstrava curiosidade genuína.
Mah percebeu que aquele ambiente despertava entusiasmo e, ao mesmo tempo, favorecia o desenvolvimento. “Eu notei o quanto aquilo a fazia feliz e o quão benéfico era para o desenvolvimento”, afirma. Assim, as receitas começaram a ser registradas para as redes sociais.
Os reflexos desse envolvimento vieram de forma concreta. Luáh passou a aceitar melhor diferentes alimentos e texturas, apresentou avanços na coordenação motora, fortaleceu a interação durante as atividades e também evoluiu na fala, estimulada pelas conversas constantes durante o preparo das receitas.
Hoje, ela se encanta especialmente com aquelas que permitem colocar a mão na massa, como os bolos, embora não tenha um prato favorito e se mostre curiosa para experimentar novos sabores.
A identificação do público com as receitas foi tanta que marcas da região passaram a procurar o perfil para estabelecer parcerias, entre elas a Rede de Postos Mime, ampliando a atuação da mini chef também como influenciadora digital local.
Mas o dia a dia de descobertas não se limita à cozinha. Em casa, Luáh é incentivada a participar dos afazeres diários, do autocuidado e das experiências cotidianas fora do ambiente familiar, como o comportamento em espaços públicos.
Para a família, o aprendizado precisa estar inserido na vida real, garantindo oportunidades contínuas de vivência, participação e autonomia.
Além dos estímulos ao lado dos pais e familiares, a rotina da menina inclui terapias duas vezes por semana, com acompanhamento em terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicomotricidade, psicopedagogia e fisioterapia, reforçando o trabalho já desenvolvido dentro de casa.
Esse cuidado constante, no entanto, não se traduz em um roteiro fechado para o futuro. Mesmo com planos e expectativas naturais de qualquer família, Máh e Gustavo evitam projetar um caminho rígido para a filha.
“Queremos dar a oportunidade de escolha a ela. Nesse momento, só queremos que ela seja feliz todos os dias.” A prioridade, segundo eles, é construir memórias afetivas, fortalecer a autoestima e permitir que a infância seja vivida com plenitude, respeitando o tempo e as escolhas da própria criança.

Maternidade sem rótulos
O diagnóstico da filha não mudou a forma como Marlete enxerga e sempre enxergou a maternidade. Para ela, criar um filho é uma das maiores oportunidades de ensinar valores e, ao mesmo tempo, reaprender o mundo sob outra ótica.
“Eu sempre sonhei em viver a maternidade e sua beleza, não sobreviver a ela”, diz.
E essa decisão de viver a experiência com plenitude moldou também a forma como a família reage às dificuldades. Além disso, o peso maior não vem da rotina dentro de casa, mas de fora. “Os olhares, os comentários, o medo do preconceito. O maior desafio sempre foi externo”, resume.
Foi nesse contraste entre o ambiente acolhedor da família e as expectativas limitadas da sociedade que nasceu o propósito de mostrar a filha com naturalidade, sem reduzi-la à condição genética ou permitir que rótulos antecipem seu futuro.
Na bio do perfil, a frase “vivendo o extraordinário” sintetiza essa filosofia. Para Máh, o extraordinário não está em grandes feitos, mas nos detalhes do cotidiano e na presença.
“Quando eu olho pra ela só consigo pensar em como ela é meu milagre na vida. E eu aproveito cada segundo da maternidade”, conclui.
Como isso impacta sua vida?
A história da mini chef jaraguaense mostra que inclusão começa dentro de casa, no cotidiano, nas pequenas oportunidades oferecidas desde cedo. Ao compartilhar sua rotina, Luáh ajuda a ampliar o olhar da comunidade sobre a Síndrome de Down e reforça que cada criança, independentemente de qualquer diagnóstico, merece viver uma infância cheia de descobertas, autonomia e felicidade.
Gabriela Bubniak
Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.