Quando Santa Catarina se armou com lança-chamas contra os gafanhotos Matéria Especial
| Em junho de 1947, uma nuvem de gafanhotos passou por Jaraguá do Sul sem causar grandes estragos. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Quando Santa Catarina se armou com lança-chamas contra os gafanhotos

Max Pires

Por Max Pires
Publicada em 08/10/2026

Em 1946, uma nuvem de gafanhotos atravessou o estado e mobilizou veneno, máscaras e lança-chamas. Em Jaraguá do Sul, ela passou em junho de 1947.

Resumo da matéria

Origem: a nuvem de gafanhotos veio do Chaco, passou pela Argentina e atingiu o Rio Grande do Sul no começo de 1946. Chegada a SC: em setembro de 1946, as nuvens devastaram lavouras da Linha Sul e foram vistas em Mafra. Defesa do colono: vassoura de fogo, lança-chamas e isca de esterco de cavalo com verde-paris. Arsenal: o governo enviou a Santa Catarina 6 toneladas de dinitrofenol, 100 lança-chamas, 200 máscaras e 10 toneladas de iscas. Jaraguá do Sul: em junho de 1947, a nuvem passou por Rio do Cerro, Rio da Luz e Garibaldi sem causar grandes estragos. 2020: uma nova nuvem chegou a 250 km do Rio Grande do Sul, e o governo declarou emergência fitossanitária em SC.

Em junho de 2020, quando o Ministério da Agricultura declarou emergência fitossanitária em Santa Catarina por causa de uma nuvem de gafanhotos parada na Argentina, muita gente tratou o assunto como novidade. Não era. Setenta e quatro anos antes, o estado inteiro viveu meses de alerta com a mesma praga, e Jaraguá do Sul acompanhou cada passo dela pela imprensa local.

A história está guardada em edições de jornal de 1946 a 1949, preservadas na Hemeroteca Digital Catarinense, foram elas que permitiram reconstruir o caminho da nuvem, o que se fez para combatê-la e como ela terminou.

Em junho de 1947, a nuvem de gafanhotos passou por Rio do Cerro, Rio da Luz e Garibaldi sem causar grandes estragos. Imagens ilustrativa gerada por inteligência artificial.

A praga que vinha do Chaco

Os gafanhotos chegaram ao Sul do Brasil pelo Rio Grande do Sul. Em janeiro de 1946, o noticiário informava que parte do estado gaúcho continuava “sendo assolado por nuvens de gafanhotos”, com estragos nas plantações e nas pastagens. A invasão tinha vindo “dos terrenos pantanosos do Chaco, depois de atravessar a Argentina”.

Em setembro, a nuvem estava em território catarinense. No dia 19, a imprensa de Jaraguá registrava que os insetos dizimavam as lavouras da chamada linha Sul, entre Joaçaba e Porto União. A preocupação aqui, naquele momento, era outra: o município enfrentava a “praga dos ratos dos taquarais”, que desciam a serra aos milhares na região do Rio Correa e da Grota Funda, enquanto caracóis estragavam o arroz no Itapocuzinho.

Uma semana depois, o tom mudou. No dia 26 de setembro, a manchete era “Os gafanhotos vem aí”. O texto avisava que nuvens tinham sido vistas em Mafra, depois de devastar lavouras gaúchas e da Linha Sul catarinense, e que pareciam seguir para o litoral. Três dias mais tarde, a notícia era de que a nuvem tinha se dividido: uma parte foi para Canoinhas e já tinha alcançado Mafra e Rio Negro, e a outra rumou para o sul do Paraná, até Ponta Grossa.

Em outubro de 1946, Santa Catarina recebeu 100 lança-chamas, 200 máscaras e toneladas de veneno para combater a praga.

Vassoura de fogo e isca de esterco

Junto com o alerta, o jornal ensinou o agricultor a se defender. As instruções falavam em virar a terra com enxada ou arado para expor os ovos ao sol, e em combater os gafanhotos jovens, chamados de saltões, com “vassouras de fogo” e lança-chamas movidos a gasolina ou querosene.

A receita da isca envenenada era detalhada: 60 quilos de esterco de cavalo, um quilo de verde-paris (um veneno à base de arsênio usado na lavoura da época) e um quilo de sal, tudo dissolvido em 20 litros de água. O texto alertava ainda que pulverizar inseticida sem orientação podia intoxicar trabalhadores e envenenar animais domésticos.

O governo federal também entrou na briga. Ainda em setembro, o Ministério da Agricultura pediu crédito para combater a praga, num serviço que seria “feito com colaboração dos aviões do exercito e dos aeros clubes civis e tanques lança-chamas”, segundo o registro da época.

Vassouras de fogo e iscas de esterco com veneno estavam entre as formas de combate ensinadas aos agricultores em 1946.

Cem lança-chamas para Santa Catarina

Em outubro, as notícias pioraram. No dia 6, o noticiário informava que uma segunda leva de gafanhotos acabava de atravessar a fronteira da Argentina com destino ao Brasil, e que no Paraná as nuvens cobriam uma extensão de 100 quilômetros.

Duas semanas depois veio o reforço. A Comissão de Combate aos Gafanhotos enviou a Santa Catarina 6 mil quilos de dinitrofenol, um veneno usado em pulverização, além de 100 lança-chamas, 200 máscaras e 10 toneladas de iscas envenenadas. O tamanho do arsenal foi comentado com uma mistura de ironia e torcida:

“Esses preparos belicos até parecem guerra de nervos das emissoras alemãs no tempo da guerra. Mas queira Deus que não seja, e que desta vez os acrideos vão mesmo passar mal.”

Registro de imprensa de Jaraguá do Sul, 20 de outubro de 1946

Acrídeo é o nome da família de insetos a que o gafanhoto pertence.

Em 1946, colonos de Santa Catarina usaram lança-chamas contra as nuvens de gafanhotos que destruíam lavouras.

A passagem por Jaraguá

A nuvem demorou a chegar e, quando chegou, causou menos estrago do que se temia. Em 22 de junho de 1947, a notícia da passagem saiu na primeira página, em poucas linhas:

“Passou pelo município de Jaraguá uma nuvem de gafanhotos. Felismente não fizeram muito estragos. Estiveram em Rio do Cerro, Rio da Luz e Garibaldi. Pelo rumo que tomaram, crê-se que devem ter ido para a zona de Timbó.”

Registro de imprensa de Jaraguá do Sul, 22 de junho de 1947 (grafia da época)

Nas edições consultadas não há relato de que o arsenal enviado ao estado tenha sido usado no município, nem de prejuízo grande em lavouras daqui.

Quem venceu os gafanhotos

Em 1948, a praga ainda aparecia no noticiário, mas longe de Jaraguá. Em fevereiro, o senador Salgado Filho pedia ao governo, no Senado, providências contra os gafanhotos que continuavam a devastar plantações no Rio Grande do Sul. Em março, uma crônica publicada na cidade trazia a notícia de que a natureza estava acabando com os insetos em Joaçaba e em toda aquela região: “Os acridios são atacados por vermes, que os matam aos milhões.”

Em abril de 1949, uma nova nuvem entrou no Rio Grande do Sul por São Borja, vinda da Argentina. Dessa vez, as edições consultadas não registram passagem pela região de Jaraguá.

Em 1948, vermes que atacavam os gafanhotos ajudaram a acabar com a praga na região de Joaçaba.

A volta em 2020

O assunto voltou em junho de 2020. Autoridades argentinas monitoravam uma nuvem de gafanhotos perto da fronteira com o Brasil, e o governo da província de Córdoba estimava que um quilômetro quadrado de nuvem podia reunir 40 milhões de insetos, capazes de comer em um dia o mesmo que 2 mil vacas. Formada por gafanhotos da espécie Schistocerca cancellata, a nuvem chegou a cerca de 250 quilômetros da fronteira com o Rio Grande do Sul, e no dia 25 o Ministério da Agricultura declarou emergência fitossanitária no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, por um ano. Em nota, o próprio ministério lembrou que a praga já tinha causado grandes perdas às lavouras de arroz do Sul entre as décadas de 1930 e 1940.

A aposta, naquela semana, era no frio. O pesquisador Dori Navas, da Embrapa, explicou que as temperaturas baixas na fronteira dificultavam o voo dos insetos: “Isso é fator importante que faz com que gafanhoto tenha dificuldade de voar.”

Como isso impacta sua vida?

A praga que assustou Santa Catarina em 1946 é a mesma que voltou a ameaçar o estado em 2020, e ela costuma ressurgir quando clima e alimento favorecem. Se um dia você vir gafanhotos em grande quantidade na sua lavoura ou no seu terreno, a orientação das autoridades é avisar o órgão de defesa agropecuária, que em Santa Catarina é a Cidasc, para que o combate seja feito de forma segura.

E se alguém da sua família lembra da nuvem que passou por Rio do Cerro, Rio da Luz e Garibaldi em 1947, essa história também merece ser contada.

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