Colunas

Coluna: O badalar das horas

A sala está repleta de relógios de parede, de todos os tipos, cores e formatos. Alguns estão com os ponteiros girando loucamente. Mas há alguns que estão parados em horários diferentes, como que congelados em algum momento específico.

13/06/2021

Por

Sônia Pillon é jornalista e escritora, formada em Jornalismo pela PUC-RS e pós-graduada em Produção de Texto e Gramática pela Univille. É Presidente de Honra da ALBSC Jaraguá do Sul.

Por Sônia Pillon

O relógio de parede antigo anunciava as horas pausadamente, naquele ritmo cadenciado e uniforme. As badaladas sempre transmitiam uma sensação de constância e segurança. Marrom escuro, de madeira nobre, tinha um rococó esculpido na parte alta e contornos delicados que lembravam ondas. O pêndulo dourado era tão brilhante que parecia ser realmente de ouro. Sem dúvida, uma peça genuinamente artesanal e com detalhes de marcenaria artística, que marcou a infância e o início da adolescência de Maria. Seria o My precious!, se ainda estivesse com ela…

Hoje, com o ritmo alucinado que vivemos no dia a dia, praticamente não há espaço para relógios de engrenagens mecânicas. Geralmente as pessoas preferem os automáticos, digitais e high tech. Por isso, os nostálgicos se obrigam a percorrer antiquários, ou fazerem buscas minuciosas em sites de raridades, para finalmente encontrarem uma preciosidade como aquela. “São relíquias muito bem guardadas e, quando encontradas, estão disponíveis para poucos”, pensou Maria, enquanto apreciava o domingo de sol da varanda da fazenda.  

A infância ficou para trás, mas as lembranças daquela época vinham sempre na memória de Maria-menina, com um gostinho doce de saudade. Reminiscências de um tempo remoto, quando os costumes eram outros e o passar das horas e dos dias aconteciam sem muitos sobressaltos.

Ao vasculhar o passado, Maria recorda que aguardava ansiosamente o badalar daquele relógio, tão solene na sala de estar. Às vezes sentava em frente, atenta ao lento girar dos ponteiros e ao vai-e-vem do pêndulo. Os ouvidos apurados apreciavam o leve tic-tac, que quebrava o silêncio do ambiente. Gostava de ver quando o Opa subia no banquinho e girava a chave para dar corda no relógio.

Oma sentava na poltrona ao lado do relógio. Era ali que controlava o tempo enquanto tricotava casacos, blusões, coletes e cachecóis no inverno, e as roupas de fio no verão.

Hoje Maria lembrou desses detalhes com uma certa melancolia. Os avós já se foram há muitos anos e aquela casa hoje não pertence mais à família. “A vida é assim. A gente cresce, amadurece, o tempo vai passando e tudo se modifica”.

O sol começa a baixar. Maria se levanta e fecha as janelas. Logo chega o frio e será preciso se agasalhar. Depois ela vai esquentar a sopa de ervilha, enquanto assiste o noticiário da TV. “Que mundo insano! Quanta violência!”, diz baixinho para si mesma. Assiste a novela favorita e o cansaço chega. Maria deita a cabeça na almofada e fecha os olhos levemente .

Minutos depois, se levanta assustada. A sala está repleta de relógios de parede, de todos os tipos, cores e formatos. Alguns estão com os ponteiros girando loucamente, como se o tempo estivesse correndo numa maratona sem fim. Um relógio-cuco está acionado sem parar. Mas há alguns que estão parados em horários diferentes, como que congelados em algum momento específico.

De repente, o Coelho da Alice no País das Maravilhas apareceu correndo e gritando “Não tenho tempo! Não tenho tempo!”. Com os olhos arregalados e sem entender mais nada, Maria diz para si mesma: “O que está acontecendo aqui?! O que é isso?!”.

Maria esfrega os olhos e quando abre, a sala está como antes, com os quadros e retratos de família.

“Ah, acho que fiquei tão mergulhada no relógio da Oma que acabei sonhando com o Tempo, que hoje acelera sem parar, sem parar…”

Maria olhou para o celular. O gato Mignon pulou no colo dela todo dengoso. Já estava na hora de se recolher. Amanhã será outro dia.

Notícias relacionadas

x