Colunas

Coluna: Os desafios em ser um aposentado no Brasil

Sobreviver dignamente num período da vida em que os custos com consultas e medicamentos tendem a aumentar é um desafio. E como o tempo de contribuição previdenciária esticou, é preciso abrir mais espaço ao profissional sênior.

30/05/2021

Por

Sônia Pillon é jornalista e escritora, formada em Jornalismo pela PUC-RS e pós-graduada em Produção de Texto e Gramática pela Univille. É Presidente de Honra da ALBSC Jaraguá do Sul.

Por Sônia Pillon

O relógio marcava pouco mais de seis e meia da tarde quando o marceneiro José abriu o portão da casa e caminhou os poucos metros que o conduziam à porta da cozinha. Como de costume, soltou um sopro de cansaço, que mais parecia um suspiro, tirou o boné marrom e o pendurou atrás da porta. Naquele dia, ele chegou com dois peixes defumados, comprados do João, um velho conhecido, que percorria as ruas da vizinhança com sua cesta de vime, cuidadosamente coberta por tecido branquíssimo. Décadas se passaram, mas basta sentir o aroma de um peixe defumado para despertar em mim essas doces memórias da primeira infância.

Naquela época, opa José já estava oficialmente aposentado, mas a modesta aposentadoria fazia com que ele seguisse trabalhando. Lembro como se fosse hoje, das peças produzidas com exímia habilidade. Foram aquelas mãos, calejadas pelo manuseio da madeira e das ferramentas, que garantiram o digno sustento dos filhos. Exerceu o ofício até quando a saúde permitiu. Quanto orgulho! Quanta saudade! Ao acionar essas memórias afetivas, de tão cálidas lembranças, também surge a constatação de que essa realidade segue na atualidade.

Para a maioria da população, após fechar o ciclo laboral começa um novo desafio: sobreviver dignamente com parcos recursos, num período da vida em que os custos com consultas médicas e medicamentos tendem a aumentar. E é por isso que muitos se veem obrigados a seguir trabalhando. As “vantagens” de ser aposentado, de ingressar na “melhor idade”, para viajar, ter mais tempo para curtir os netos e desenvolver hobbies, são privilégios para poucos.

A estimativa de vida do brasileiro gira em torno de 74 anos. Vale lembrar que em 2020 a pandemia do coronavírus reduziu a expectativa em dois anos. Em novembro de 2019, a idade mínima para uma mulher se aposentar estava em 60 anos, passando para 60 anos e meio em janeiro de 2020. E nesse período de transição até a nova Reforma da Previdência, parte das requerentes com direito à regra antiga entraram na Justiça para garantir o benefício. Havia o temor de seguirem na fila para a avaliação dos dados e ingressarem no novo enquadramento previdenciário…

Em janeiro deste ano, a idade mínima para aposentadoria das mulheres aumentou para 61 anos. Para os homens, permaneceu a regra vigente desde 2019, de 65 anos.

Agora vem a pergunta que não quer calar: como seguir contribuindo até os 61 anos e 65 anos, quando o mercado de trabalho ainda costuma jogar para escanteio os profissionais com idade acima de 50 anos, mesmo com reconhecida qualificação e experiência? É claro que essa tendência está mudando e existem inúmeros exemplos de veteranos “batendo um bolão” por aí. São os que se reinventam a cada dia, antenados nas novas tecnologias e nas novas mídias. Entretanto, ainda há barreiras a serem derrubadas nesse sentido.

Está lançado o desafio às agências de empregos, de fazerem essa ponte entre o profissional sênior e o empregador, contribuindo para acabar de vez com esse preconceito injustificado. A ordem do dia é abrir espaço para o conhecimento e a experiência. Bora lá?

Notícias relacionadas

x