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Os motivos da demissão de Cléber Machado. A perda da sucessão de Galvão para Luis Roberto. E a chegada de Villani e Renata

Depois de 35 anos, o narrador especialista em jogos dos clubes paulistas perdeu espaço politicamente na Globo. O sonho de suceder Galvão Bueno virou demissão

24/03/2023

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Eu estava saindo da sala de Ciro José, diretor de jornalismo esportivo da TV Globo. Ele havia me dado uma entrevista para o Jornal da Tarde. O assunto: monopólio das transmissões de futebol.

Quando estou para ir embora, vejo Cléber Machado. Ele era repórter e narrador da TV Gazeta. Eu o conheço porque também escrevia algumas matérias para o JT.

Ele fica vermelho ao me encontrar. Me chama de lado e fala bem baixinho.

“Cosme, por favor, não escreva que eu vim para a Globo. Preciso falar antes para a TV Gazeta. Quero sair numa boa.”

Entendi a situação e garanti que não escreveria nada.

Cumpri o pacto.

Cléber Machado tinha 25 anos.

Já o encontrava em coberturas de clubes e jogos, sempre muito dedicado, estudioso, falante.

Ao longo dos últimos 35 anos, foram várias vezes que nos vimos.

E me chamava a atenção que, ao contrário de Galvão Bueno, cercado sempre por uma trupe de produtores e repórteres, Cléber era discreto. Sozinho, sem ostentação, carregando pastas enormes sobre as competições que iria transmitir.

Muito estudioso, de estilo mais contido, mas com opinião firme sobre o que seria mostrado.

Enquanto Galvão Bueno dominava os jogos da seleção e os torneios mais importantes, Cléber se solidificou como a voz da Globo no futebol de São Paulo.

Versátil, fez história no comando do programa Arena, debates sobre futebol no canal a cabo da emissora carioca, o Sportv.

Narrou corridas de Fórmula 1, boxe, vôlei, basquete, São Silvestre.

Cleber, a partir de 1998, com a chegada de Luis Roberto, passou a ter um sério concorrente para ser o segundo narrador da Globo. O substituto de Galvão Bueno.

Luis Roberto, também paulista como Cléber, fixou-se nas transmissões do Rio de Janeiro. Enquanto Galvão ficava com as partidas da seleção e os jogos mais importantes dos confrontos nacionais entre os clubes.

O estilo mais vibrante, mais alegre de Luis Roberto contou muito na silenciosa briga de bastidores para substituir Galvão. A preferência pessoal da chefia no Rio de Janeiro também trabalhou contra Cléber Machado.

Como em todo lugar, além do talento, contam as oportunidades. E elas passaram a ser maiores, mais constantes para Luis Roberto.

Os dois narraram desde Copa do Mundo e Olimpíada até Carnaval.

E a alegria de Luis Roberto se impôs, além do óbvio fato de ser excelente narrador.

Bordões dos dois lados, narrações importantes, inesquecíveis.

Enquanto Galvão Bueno caminhava para a aposentadoria forçada.

Acompanhando os “novos tempos”, a Globo decidiu que precisava ter mulheres narrando futebol. E elas foram contratadas. Renata Silveira, a principal delas, trabalhou na Copa do Catar.

O Mundial de 2022 serviu como referência do que estava para vir. Cleber Machado foi deixado de lado. Transmitiu jogos dos estúdios no Brasil, não foi para a Ásia.

Péssimo sinal, em um momento de profunda reformulação na TV Globo. Por conta da crise financeira e, principalmente, pelo investimento no streaming.

O também paulista Gustavo Villani surgiu como um raio na Globo.

Assim como Luis Roberto, Villani teve a escola da extinta rádio Globo de São Paulo, seguindo a maneira vibrante de transmitir de Osmar Santos, herdada por seu irmão Oscar Ulisses.

Dezenove anos mais novo que Cleber Machado, Villani passou pela ESPN, ficou quatro anos importantes na extinta Fox Sports e, em fevereiro de 2018, indicado por Galvão Bueno, que o via como seu futuro substituto, passou a trabalhar na Globo.

Villani é outro paulista.

A hierarquia da emissora carioca dos narradores passou a ter Galvão Bueno, depois Luis Roberto, em seguida. Gustavo Villani se revezava nos jogos importantes de competições nacionais entre Globo, Sportv e Premiere.

E Cleber seguiu com as partidas importantes dos paulistas.

Até que veio a Copa do Catar.

Renata Silveira passou a dividir narrações nobres na Globo. A força da mulher no esporte

Renata Silveira passou a dividir narrações nobres na Globo. A força da mulher no esporte

REPRODUÇÃO/TWITTER

Villani e Cléber não foram. Machado não se posicionou publicamente.

Já Gustavo mostrou de forma impactante sua desilusão.

“Eu vivo dos meus sonhos, tá? Dos meus projetos pessoais, não vivo apenas do planejamento que a empresa tem para mim. É importante eu sonhar. Por que eu estou decepcionado por não ir ao Catar? Porque, para mim, ao não ir para 2018, era uma pretensão ir para 2022. No meu íntimo, com os meus sonhos, na minha conversa de quem narrou a final de 2014, e que ia narrar o Brasil em 2018, eu estou p…”, disse ao canal Duda Garbi.

Ao contrário do que poderia acontecer, as declarações de Villani não o prejudicaram. Mas demontraram quanto ele queria trabalhar.

Villani estava sendo preparado para substituir Cléber Machado em São Paulo.

Além do crescente apoio ao estilo descontraído de Everaldo Marques.

E ontem houve a demissão do tradicional narrador dos jogos dos paulistas.

Com ele saiu o narrador Jota Junior.

Gustavo Villani. Sem meias meias-palavras. Assumiu ter ficado 'p...' por não ter ido ao Catar

Gustavo Villani. Sem meias meias-palavras. Assumiu ter ficado ‘p…’ por não ter ido ao Catar

REPRODUÇÃO/YOUTUBE

Além de a Globo acabar com a Central do Apito, não haverá ex-árbitros nos jogos que a emissora transmitirá. A desculpa foi a chegada do VAR para esclarecer os lances mais polêmicos.

Aos 60 anos, com presença marcante na TV, Cléber tem tudo para continuar a trabalhar em outra emissora.

Seu único erro foi não perceber que o coração da Globo está no Rio de Janeiro.

O sonho de substituir Galvão Bueno, além do talento, estava umbilicalmente ligada ao Jardim Botânico, sede da emissora.

 

Publicado por R7

 

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