Mais de 80 km de caminhada: a rota de fé que atrai peregrinos de todo o Brasil para Jaraguá do Sul
Um percurso que atravessa cidades, paisagens e histórias para chegar ao lugar onde tudo se conecta: o Espaço Padre Aloísio, no bairro Nereu Ramos
Grupo caminha por estrada de interior durante peregrinação do Caminho Padre Aloísio | Foto: Instituto Padre Aloísio Boeing/JDV
Entre tantas coisas que movem o brasileiro todos os dias, a fé segue como uma das mais presentes. Em Jaraguá do Sul, esse movimento tem ganhado força nos últimos anos, impulsionado por um caminho que chama a atenção de quem busca mais do que uma simples visita.
É o chamado Caminho Padre Aloísio, uma rota que liga cidades da região até o túmulo do sacerdote, no bairro Nereu Ramos. Em processo de beatificação, Aloísio Boeing se tornou símbolo de devoção na região, e o percurso convida a uma caminhada que vai além da estrada, conectando espiritualidade, natureza e momentos de reflexão.
>> Esta reportagem integra uma série especial do JDV sobre o legado de Padre Aloísio e mostra como a peregrinação tem se transformado em uma experiência que ultrapassa gerações.
Um caminho que atravessa cidades e histórias
Esta caminhada começa em Rio Negrinho, no Seminário São José, e segue por São Bento do Sul e Corupá até chegar a Jaraguá do Sul. Ao todo, são cerca de 87 quilômetros que costumam ser percorridos em até três dias, dependendo do ritmo de cada peregrino e da organização do grupo.

O trajeto não é apenas um deslocamento entre cidades. Ele passa por igrejas, pequenas capelas no interior, trechos próximos à ferrovia, áreas de mata e rios que acompanham o caminho. Em muitos momentos, o ambiente convida ao silêncio; em outros, a própria natureza cria uma espécie de trilha sonora para quem segue a pé.
Segundo o padre José Napoleão Lauriano dos Santos, diretor do Instituto Padre Aloísio, o percurso já está sinalizado e tem atraído cada vez mais pessoas interessadas nesse tipo de experiência.
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Ele destaca que alguns trechos acabam marcando mais quem faz o caminho, principalmente pela paisagem e pelo contato com a natureza.
“O trecho de São Bento até Corupá encanta muito, porque vai acompanhando o rio, a natureza. Já de Corupá até Nereu Ramos também é muito bonito, com todo o verde e construções da região.”
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Roteiro do Caminho Padre Aloísio: principais pontos do trajeto
O Caminho Padre Aloísio é percorrido, em geral, em três dias de pura introspecção e contato com a natureza. Mas a organização já estuda ampliar o trajeto para quatro dias, permitindo que a caminhada seja feita com ainda mais calma e contemplação.
Ao longo do trajeto, os peregrinos passam por igrejas, capelas, pontos históricos e locais de apoio para descanso, alimentação e pernoite.
1º dia — Rio Negrinho até São Bento do Sul
O início da caminhada acontece no Seminário São José, em Rio Negrinho, onde os peregrinos costumam fazer a primeira parada para café da manhã. Ainda na cidade, o trajeto passa pela Igreja Matriz Santo Antônio e pela estação de trem, que preserva locomotivas e vagões antigos.

Ao longo do percurso, surgem cenários típicos do interior, como áreas com araucárias e pequenas propriedades rurais. Entre os pontos de parada estão a Capela Santa Luzia do Rio Salto, que oferece estrutura básica para os peregrinos, e a Capela São Felipe Benício.
No caminho, também há apoio em locais como o Mercado Sousa, utilizado para pequenas compras e uso de banheiro.
Já em São Bento do Sul, o trajeto inclui passagem pela Igreja Matriz São José Serra Alta, espaço de descanso, e segue até a Igreja Matriz Puríssimo Coração de Maria, onde muitos encerram o primeiro dia. O local conta com estrutura turística, hospedagens e a estátua de São Bento, um dos marcos do percurso.

2º dia — São Bento do Sul até Corupá
O segundo dia começa com trechos que alternam natureza e pequenos pontos de fé. Entre eles estão a Capela São Francisco de Assis e o pórtico de entrada para a região de Rio Natal.
Ao longo do caminho, os peregrinos encontram espaços simples, mas significativos, como a Capelinha Nossa Senhora das Graças, utilizada para descanso e oração, além de trechos com passagem de trem e pequenas quedas d’água.

A parada para alimentação costuma acontecer em restaurantes ao longo da rota, antes da chegada em Corupá.
Já na cidade, o percurso passa pela Paróquia São José e segue até o Seminário de Corupá, ponto tradicional de pernoite e um dos locais mais simbólicos da trajetória de Padre Aloísio.

3º dia — Corupá até Jaraguá do Sul
O último dia concentra o trecho final da peregrinação, com destino ao bairro Nereu Ramos, em Jaraguá do Sul.
A chegada acontece no Espaço Padre Aloísio, ao lado da Igreja Nossa Senhora do Rosário, onde está o túmulo do sacerdote. O local marca o encerramento do caminho e é considerado o principal ponto de devoção dos peregrinos.

Importante: o roteiro pode variar conforme a organização de cada grupo, mas esses pontos fazem parte do trajeto mais utilizado atualmente, incluindo locais de apoio e descanso ao longo dos três dias.
Como participar e quando serão as próximas?
A rota completa de cerca de 87 quilômetros não depende de uma data específica e pode ser feita ao longo de todo o ano, conforme a disponibilidade de cada grupo. Além disso, não há um guia obrigatório. Os próprios peregrinos organizam o percurso, incluindo pontos de parada, alimentação e pernoite em cidades como São Bento do Sul e Corupá.
A primeira peregrinação organizada ocorreu em 1º de maio de 2025, reunindo cerca de 25 pessoas de diferentes cidades. Desde então, o caminho passou a atrair participantes de várias regiões, inclusive de outros estados.
Para quem tem interesse em participar em grupo, duas novas peregrinações já estão programadas:
- 22 de maio de 2026, com organização de Matias — (47) 9918-9294.
- De 4 a 7 de junho de 2026, com organização de Andreia — (47) 9213-6510.
Opção reduzida para quem é de Jaraguá e região
Apesar da rota ser relativamente longa, quem é aqui de Jaraguá e região podem optar pela versão menor da peregrinação, que tem ganhado força entre moradores e visitantes: o trajeto de aproximadamente 12 quilômetros dentro de Jaraguá do Sul até o bairro Nereu Ramos.
Essa caminhada acontece todos os meses, sempre no dia 17, e costuma reunir pessoas que buscam uma experiência mais acessível, mas igualmente significativa. É nesse percurso que o próprio padre José Napoleão participa com frequência.
“Sempre saio às quatro da manhã para percorrer esses 12 quilômetros e chegar para a missa das sete”, conta.

A caminhada começa ainda no escuro, em frente à Matriz São Sebastião. Antes de sair, os participantes fazem orações em conjunto e, ao longo do trajeto, alternam momentos de silêncio com rezas e conversas.
“Ora caminhamos em silêncio, ora partilhando a vida. Não é algo muito sistemático. Conforme o espírito suscita, a gente vive esse percurso.”
O grupo varia de um mês para outro. Em finais de semana ou feriados, a participação costuma ser maior, mas há dias em que o trajeto é feito por poucos, quase em silêncio.
No último dia 17 de abril – que marcou os 20 anos de morte de Padre Aloísio -, uma nova proposta foi colocada em prática: a primeira caminhada luminosa, realizada durante a noite e marcada por momentos de oração, paradas reflexivas e participação coletiva.
“Foi para além da expectativa. Me encheu o coração de que valeu a pena”, relata o padre Napoleão.
Uma experiência para além da distância e da caminhada
Para quem participa de qualquer uma das peregrinações, o desafio não se resume ao esforço físico ou à distância percorrida. Existe uma dimensão mais profunda que aparece ao longo do caminho, especialmente nos momentos de silêncio e reflexão.
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Segundo o padre Napoleão, essa busca é algo que faz parte da própria natureza humana. Ele relata que muitos chegam motivados por gratidão, pedidos ou pela necessidade de desacelerar em meio à rotina. Durante o percurso, esse movimento interno acaba ganhando espaço.
“As pessoas vivem em busca de respostas. A peregrinação faz parte do coração humano. É um caminho para dentro de si. Durante o percurso, muitas respostas são dadas ao peregrino. Há como que um rejuvenescimento.”
Essa proposta também está na origem do próprio trajeto. O Caminho Padre Aloísio nasceu a partir de uma iniciativa do padre Léo Heck, vice-postulador da causa de beatificação, com a ideia de ligar seminários e paróquias da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus até o túmulo do Venerável Padre Aloísio. O projeto foi desenvolvido com o envolvimento da irmã Edena Maria Bittencourt, de Laércio Luiz Bertoldi e de Lindolfo Rudnick, responsáveis por percorrer e mapear o trajeto.
Como isso impacta sua vida?
A peregrinação de fé mostra que a experiência pode começar tanto longe de casa, como também num trajeto mais curto, feito ainda antes do amanhecer. A proposta não está apenas na distância, mas no que cada pessoa leva consigo ao longo do percurso. Em um mundo acelerado, parar para caminhar, rezar ou simplesmente ouvir o silêncio pode ser, para muitos, o primeiro passo para encontrar novas respostas.

Maria Eduarda Günther
Jornalista em formação na FURB, nascida em Jaraguá. Cresci entre filmes, livros e peças teatrais. Após criar conteúdo para redes socias sobre Formula 1 e esportes descobri a paixão por jornalismo e a área de comunicação. Nunca perco a oportunidade de conhecer novos lugares e novas histórias por ai.