Cotidiano | 30/04/2026 | Atualizado em: 30/04/26 ás 18:29

Mais de 80 km de caminhada: a rota de fé que atrai peregrinos de todo o Brasil para Jaraguá do Sul

Um percurso que atravessa cidades, paisagens e histórias para chegar ao lugar onde tudo se conecta: o Espaço Padre Aloísio, no bairro Nereu Ramos

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Mais de 80 km de caminhada: a rota de fé que atrai peregrinos de todo o Brasil para Jaraguá do Sul

Grupo caminha por estrada de interior durante peregrinação do Caminho Padre Aloísio | Foto: Instituto Padre Aloísio Boeing/JDV

Entre tantas coisas que movem o brasileiro todos os dias, a segue como uma das mais presentes. Em Jaraguá do Sul, esse movimento tem ganhado força nos últimos anos, impulsionado por um caminho que chama a atenção de quem busca mais do que uma simples visita.

É o chamado Caminho Padre Aloísio, uma rota que liga cidades da região até o túmulo do sacerdote, no bairro Nereu Ramos. Em processo de beatificação, Aloísio Boeing se tornou símbolo de devoção na região, e o percurso convida a uma caminhada que vai além da estrada, conectando espiritualidade, natureza e momentos de reflexão.

>> Esta reportagem integra uma série especial do JDV sobre o legado de Padre Aloísio e mostra como a peregrinação tem se transformado em uma experiência que ultrapassa gerações.

Um caminho que atravessa cidades e histórias

Esta caminhada começa em Rio Negrinho, no Seminário São José, e segue por São Bento do Sul e Corupá até chegar a Jaraguá do Sul. Ao todo, são cerca de 87 quilômetros que costumam ser percorridos em até três dias, dependendo do ritmo de cada peregrino e da organização do grupo.

Placa de sinalização do Caminho Padre Aloísio fixada em poste indicando direção da rota
Placas ajudam a orientar peregrinos ao longo do Caminho Padre Aloísio | Foto: Foto: Instituto Padre Aloísio Boeing/JDV

O trajeto não é apenas um deslocamento entre cidades. Ele passa por igrejas, pequenas capelas no interior, trechos próximos à ferrovia, áreas de mata e rios que acompanham o caminho. Em muitos momentos, o ambiente convida ao silêncio; em outros, a própria natureza cria uma espécie de trilha sonora para quem segue a pé.

Segundo o padre José Napoleão Lauriano dos Santos, diretor do Instituto Padre Aloísio, o percurso já está sinalizado e tem atraído cada vez mais pessoas interessadas nesse tipo de experiência.

Placa do Caminho Padre Aloísio em estrada rural com peregrino caminhando em Santa Catarina
Placa indica direção do Caminho Padre Aloísio em trecho rural | Foto: Instituto Padre Aloísio Boeing/JDV

Ele destaca que alguns trechos acabam marcando mais quem faz o caminho, principalmente pela paisagem e pelo contato com a natureza.

“O trecho de São Bento até Corupá encanta muito, porque vai acompanhando o rio, a natureza. Já de Corupá até Nereu Ramos também é muito bonito, com todo o verde e construções da região.”

>> Leia também: O outro lado de Padre Aloísio Boeing, um homem que amava pescar, assistir Chaves e fazer rir

Roteiro do Caminho Padre Aloísio: principais pontos do trajeto

O Caminho Padre Aloísio é percorrido, em geral, em três dias de pura introspecção e contato com a natureza. Mas a organização já estuda ampliar o trajeto para quatro dias, permitindo que a caminhada seja feita com ainda mais calma e contemplação.

Ao longo do trajeto, os peregrinos passam por igrejas, capelas, pontos históricos e locais de apoio para descanso, alimentação e pernoite.

1º dia — Rio Negrinho até São Bento do Sul

O início da caminhada acontece no Seminário São José, em Rio Negrinho, onde os peregrinos costumam fazer a primeira parada para café da manhã. Ainda na cidade, o trajeto passa pela Igreja Matriz Santo Antônio e pela estação de trem, que preserva locomotivas e vagões antigos.

Vagões antigos de trem no trajeto do Caminho Padre Aloísio em Santa Catarina
Vagões antigos fazem parte do cenário do Caminho Padre Aloísio | Foto: Instituto Padre Aloísio Boeing/JDV

Ao longo do percurso, surgem cenários típicos do interior, como áreas com araucárias e pequenas propriedades rurais. Entre os pontos de parada estão a Capela Santa Luzia do Rio Salto, que oferece estrutura básica para os peregrinos, e a Capela São Felipe Benício.

No caminho, também há apoio em locais como o Mercado Sousa, utilizado para pequenas compras e uso de banheiro.

Já em São Bento do Sul, o trajeto inclui passagem pela Igreja Matriz São José Serra Alta, espaço de descanso, e segue até a Igreja Matriz Puríssimo Coração de Maria, onde muitos encerram o primeiro dia. O local conta com estrutura turística, hospedagens e a estátua de São Bento, um dos marcos do percurso.

Peregrinos do Caminho Padre Aloísio em frente à Capela São Felipe durante trajeto em Santa Catarina
Grupo de peregrinos durante parada na Capela São Felipe | Foto: Instituto Padre Aloísio Boeing/JDV

2º dia — São Bento do Sul até Corupá

O segundo dia começa com trechos que alternam natureza e pequenos pontos de fé. Entre eles estão a Capela São Francisco de Assis e o pórtico de entrada para a região de Rio Natal.

Ao longo do caminho, os peregrinos encontram espaços simples, mas significativos, como a Capelinha Nossa Senhora das Graças, utilizada para descanso e oração, além de trechos com passagem de trem e pequenas quedas d’água.

Paisagem rural com campos e estrada no Caminho Padre Aloísio em Santa Catarina
Trecho do Caminho Padre Aloísio revela paisagens rurais e áreas de contemplação | Foto: Instituto Padre Aloísio Boeing/JDV

A parada para alimentação costuma acontecer em restaurantes ao longo da rota, antes da chegada em Corupá.

Já na cidade, o percurso passa pela Paróquia São José e segue até o Seminário de Corupá, ponto tradicional de pernoite e um dos locais mais simbólicos da trajetória de Padre Aloísio.

Jardim interno da Pousada do Seminário com fonte, vegetação florida e construções históricas ao fundo
Jardim interno da Pousada do Seminário | Foto: Reprodução/Instagram @pousada.seminario

3º dia — Corupá até Jaraguá do Sul

O último dia concentra o trecho final da peregrinação, com destino ao bairro Nereu Ramos, em Jaraguá do Sul.

A chegada acontece no Espaço Padre Aloísio, ao lado da Igreja Nossa Senhora do Rosário, onde está o túmulo do sacerdote. O local marca o encerramento do caminho e é considerado o principal ponto de devoção dos peregrinos.

Peregrinos sendo recebidos em espaço religioso durante Caminho Padre Aloísio em Jaraguá do Sul
Grupo é recebido ao final da peregrinação no Espaço Padre Aloísio | Foto: Arquivo Pessoal padre José Napoleão

Importante: o roteiro pode variar conforme a organização de cada grupo, mas esses pontos fazem parte do trajeto mais utilizado atualmente, incluindo locais de apoio e descanso ao longo dos três dias.

Como participar e quando serão as próximas?

A rota completa de cerca de 87 quilômetros não depende de uma data específica e pode ser feita ao longo de todo o ano, conforme a disponibilidade de cada grupo. Além disso, não há um guia obrigatório. Os próprios peregrinos organizam o percurso, incluindo pontos de parada, alimentação e pernoite em cidades como São Bento do Sul e Corupá.

A primeira peregrinação organizada ocorreu em 1º de maio de 2025, reunindo cerca de 25 pessoas de diferentes cidades. Desde então, o caminho passou a atrair participantes de várias regiões, inclusive de outros estados.

Para quem tem interesse em participar em grupo, duas novas peregrinações já estão programadas:

  • 22 de maio de 2026, com organização de Matias — (47) 9918-9294.
  • De 4 a 7 de junho de 2026, com organização de Andreia — (47) 9213-6510.

Opção reduzida para quem é de Jaraguá e região

Apesar da rota ser relativamente longa, quem é aqui de Jaraguá e região podem optar pela versão menor da peregrinação, que tem ganhado força entre moradores e visitantes: o trajeto de aproximadamente 12 quilômetros dentro de Jaraguá do Sul até o bairro Nereu Ramos.

Essa caminhada acontece todos os meses, sempre no dia 17, e costuma reunir pessoas que buscam uma experiência mais acessível, mas igualmente significativa. É nesse percurso que o próprio padre José Napoleão participa com frequência.

“Sempre saio às quatro da manhã para percorrer esses 12 quilômetros e chegar para a missa das sete”, conta.

Peregrinos caminhando em estrada rural no Caminho Padre Aloísio em Santa Catarina
Grupo caminha por estrada de interior durante peregrinação do Caminho Padre Aloísio | Foto: Instituto Padre Aloísio Boeing/JDV

A caminhada começa ainda no escuro, em frente à Matriz São Sebastião. Antes de sair, os participantes fazem orações em conjunto e, ao longo do trajeto, alternam momentos de silêncio com rezas e conversas.

“Ora caminhamos em silêncio, ora partilhando a vida. Não é algo muito sistemático. Conforme o espírito suscita, a gente vive esse percurso.”

O grupo varia de um mês para outro. Em finais de semana ou feriados, a participação costuma ser maior, mas há dias em que o trajeto é feito por poucos, quase em silêncio.

No último dia 17 de abril – que marcou os 20 anos de morte de Padre Aloísio -, uma nova proposta foi colocada em prática: a primeira caminhada luminosa, realizada durante a noite e marcada por momentos de oração, paradas reflexivas e participação coletiva.

“Foi para além da expectativa. Me encheu o coração de que valeu a pena”, relata o padre Napoleão.

Uma experiência para além da distância e da caminhada

Para quem participa de qualquer uma das peregrinações, o desafio não se resume ao esforço físico ou à distância percorrida. Existe uma dimensão mais profunda que aparece ao longo do caminho, especialmente nos momentos de silêncio e reflexão.

>> Leia também: Precisa de um milagre ou uma graça? Saiba como orar a Aloísio Boeing, o padre de Jaraguá que pode virar santo

Segundo o padre Napoleão, essa busca é algo que faz parte da própria natureza humana. Ele relata que muitos chegam motivados por gratidão, pedidos ou pela necessidade de desacelerar em meio à rotina. Durante o percurso, esse movimento interno acaba ganhando espaço.

“As pessoas vivem em busca de respostas. A peregrinação faz parte do coração humano. É um caminho para dentro de si. Durante o percurso, muitas respostas são dadas ao peregrino. Há como que um rejuvenescimento.”

Essa proposta também está na origem do próprio trajeto. O Caminho Padre Aloísio nasceu a partir de uma iniciativa do padre Léo Heck, vice-postulador da causa de beatificação, com a ideia de ligar seminários e paróquias da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus até o túmulo do Venerável Padre Aloísio. O projeto foi desenvolvido com o envolvimento da irmã Edena Maria Bittencourt, de Laércio Luiz Bertoldi e de Lindolfo Rudnick, responsáveis por percorrer e mapear o trajeto.

Como isso impacta sua vida?

A peregrinação de fé mostra que a experiência pode começar tanto longe de casa, como também num trajeto mais curto, feito ainda antes do amanhecer. A proposta não está apenas na distância, mas no que cada pessoa leva consigo ao longo do percurso. Em um mundo acelerado, parar para caminhar, rezar ou simplesmente ouvir o silêncio pode ser, para muitos, o primeiro passo para encontrar novas respostas.

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Maria Eduarda Günther

Jornalista em formação na FURB, nascida em Jaraguá. Cresci entre filmes, livros e peças teatrais. Após criar conteúdo para redes socias sobre Formula 1 e esportes descobri a paixão por jornalismo e a área de comunicação. Nunca perco a oportunidade de conhecer novos lugares e novas histórias por ai.

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