Pioneiros negros de Jaraguá: memórias de um povo que resistiu e ajudou a construir a cidade
População negra na década de 1980, no Morro Boa Vista. Em destaque, no canto direito, a família de Domingos Rosa. | Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul
A história de Jaraguá do Sul tem muitas camadas sob suas ruas, morros e bairros. Algumas vieram à tona e estão estampadas em placas, nomes de escolas e monumentos. Outras, no entanto, foram deixadas à margem, mesmo tendo sido fundamentais para a existência da cidade.
Entre essas histórias está a do povo negro, que ajudou a construir, com trabalho braçal e resistência, a Jaraguá que conhecemos hoje.
Desde o início da colonização, homens e mulheres pretos estiveram presentes; vieram do Rio de Janeiro, do Norte e Nordeste do país e de diversas regiões de Santa Catarina. Muitos atuaram na abertura de estradas, construção de casas, lavouras e no funcionamento de engenhos. Ainda assim, seus nomes demoraram a aparecer nos livros e mapas.
Neste Dia da Consciência Negra, o JDV resgata parte dessa memória que por muito tempo foi silenciada e como alguns nomes seguem construindo esta história.
Os trabalhadores que abriram caminhos
A chegada de Emílio Carlos Jourdan ao Vale do Itapocu, em 1876, marcou o início da tentativa de colonização organizada da região que hoje é Jaraguá do Sul. Contratado para medir e demarcar terras do Patrimônio Dotal da Princesa Isabel, Jourdan firmou um arrendamento com a coroa e decidiu fundar o Estabelecimento Jaraguá, entre os rios Itapocu e Jaraguá.
Para colocar o plano em prática, reuniu um grupo de 66 trabalhadores. Destes, 35 eram negros. Vieram para cultivar cana-de-açúcar, operar o engenho, construir estradas e erguer estruturas como a olaria, a serraria e os engenhos de fubá e mandioca.
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Entre os nomes desses trabalhadores negros estavam Calixto Domingos Borges – filho de uma escrava alforriada e um português -, que atuou como canoeiro chefe, atravessando o rio Itapocu para transportar pessoas, ferramentas e provisões, e Joaquim Francisco de Paulo, o Chico de Paulo, pedreiro profissional responsável por erguer a casa de Jourdan e as instalações do engenho – ele nasceu em um navio negreiro.
Esses homens atuaram diretamente na implantação do Estabelecimento Jaraguá, que funcionou até 1888. Outros nomes marcantes entre os trabalhadores negros foram os irmãos Domingos, Marcos e Custódio da Rosa, além de Justino de Oliveira.
Muitos foram apagados dos registros oficiais, mas sobreviveram na memória popular e nos sobrenomes que ainda habitam os morros da cidade.
Expulsão, resistência e o surgimento do “Morro da África”
Em 1883, com a falência do projeto de Jourdan e o abandono do engenho, os trabalhadores negros se viram sem casa, sem terra e sem pagamento. Foram progressivamente empurrados para fora da região central da cidade. A partir de 1901, muitos subiram o Morro da Boa Vista, região que passou a ser conhecida, de forma pejorativa, como “Morro da África”.
Em 1907, a situação se agravou drasticamente. Por ordem judicial, policiais comandados pelo cabo Gabriel de Moraes foram enviados para cumprir despejos em terras planas da colônia. Casas foram queimadas, plantações destruídas e famílias inteiras obrigadas a abandonar os locais onde viviam. A alternativa encontrada foi subir o morro, ocupando áreas íngremes e de difícil acesso.

A partir de 1901, o Morro da Boa Vista tornou-se o novo lar dessa população. Embora o início tenha sido marcado por improviso e abandono, ali nasceu uma comunidade resiliente. Famílias construíram casas de madeira cobertas com palha, abriram trilhas, escadas e becos entre os barrancos e deram continuidade à produção agrícola – com destaque para a cana-de-açúcar, mandioca e frutas. Também houve produção de cachaça e farinha, além de criação de pequenos animais para subsistência e comércio local.
Maria Umbelina da Silva: um nome importante para a história
Entre as figuras femininas, o nome Maria Umbelina da Silva tem grande destaque nessa história. Chegou como babá dos filhos de Jourdan e permaneceu na cidade após a partida da família branca. Teve papel central na formação de uma nova geração negra jaraguaense.

Criou sete filhos, entre eles Emílio da Silva, um dos principais historiadores do município, e foi avó de Eggon da Silva, um dos fundadores da multinacional WEG – uma das maiores indústrias do Brasil.
Negros que seguem construindo a história da cidade
A contribuição negra não se restringiu aos primeiros anos. Mesmo diante da marginalização, a comunidade do Morro da Boa Vista sobreviveu e resistiu. Foram anos de dificuldade de acesso, com ruas de barro, casas sem energia, falta de coleta de lixo, esgoto e transporte. Mas também foram anos de solidariedade, produção coletiva e conexão com a terra.
Domingos Rosa, por exemplo, teve 36 filhos, fundou roças, lutou por posse de terra junto ao Governo do Estado e deixou descendentes que hoje mantêm viva a história do morro.
Com o passar das décadas, outros nomes também romperam barreiras em Jaraguá do Sul. Um deles é o de Francisco Valdecir Alves, primeiro vereador negro eleito para a Câmara Municipal. Natural da cidade, ele cumpriu mandato entre 2009 e 2012, chegando à presidência do Legislativo no último ano da legislatura.

Francisco cresceu no bairro Boa Vista, caçula de uma família com nove irmãos, e desde cedo enfrentou as marcas do preconceito. Mesmo diante das dificuldades, se destacou nos estudos e na luta por igualdade racial. Formado em Administração de Empresas e, mais recentemente, em Direito, Francisco dedicou sua trajetória pública a pautas como a criação da Semana da Consciência Negra e a promoção da representatividade.
“Sendo negro, crescer em uma cidade majoritariamente branca como Jaraguá era se deparar diariamente com olhares tortos e brincadeiras de mau gosto. Me chamavam de ‘neguinho’, mexiam no meu cabelo, e isso me diminuía. Muitas vezes, respondia com brigas. Depois entendi que o caminho era outro”, recorda.
Foi nos estudos que ele encontrou um instrumento de transformação. “Buscar formação era a forma de nos igualar e disputar espaços. Hoje sou corretor de imóveis e conclui minha segunda graduação, em Direito”, afirma. Para ele, o conhecimento muda tudo na hora de lutar por direitos.
Organização e protagonismo: o papel do Moconevi no Vale do Itapocu
Mas anos antes de assumir como vereador, em 2001, Francisco Alves ao lado de Sandra Helena Maciel fundaram o Movimento da Consciência Negra do Vale do Itapocu. O Moconevi se tornou referência regional na valorização da cultura negra, na preservação das tradições afro-brasileiras e no enfrentamento ao racismo estrutural.

Fundado em 5 de agosto de 2001, o movimento surgiu da urgência de dar visibilidade à cultura afro-brasileira na região e enfrentar o apagamento histórico. Como relembra Francisco, o estopim foi o caso de uma mulher negra que, prestes a dar à luz, teve atendimento médico negado por discriminação. O episódio evidenciou a necessidade de um movimento formal, organizado e combativo.
“O negro só era lembrado no Carnaval ou no 13 de Maio, mas temos uma cultura rica, uma história profunda e uma contribuição imensa que não pode mais ser ignorada”, destaca ele.
Desde a sua criação, o movimento atua intensamente no campo da educação, promovendo debates, oficinas, rodas de conversa e ações dentro das escolas, universidades e espaços comunitários. participa ativamente de conselhos municipais, promove formações em escolas e universidades, além de desenvolver projetos como o livro Memórias do Povoado Morro da África, lançado em 2019, e distribuído gratuitamente às redes de ensino como material de referência.

Um de seus principais compromissos é fortalecer a identidade negra, combater estigmas e ampliar o protagonismo de negros e negras na sociedade jaraguaense e no Vale do Itapocu.
“Nosso trabalho é contínuo. Lutamos contra a discriminação, mas também promovemos o conhecimento, o orgulho da identidade negra e a valorização da nossa história”, reforça Francisco.
O grupo realiza reuniões mensais, atende denúncias de discriminação e acolhe todos que queiram somar na luta, independente da cor da pele.


Retrato escrito: a história dos negros em livro
A obra citada por Franisco é essencial para compreender esse passado; o livro “Memórias do Povoado Morro da África”, escrito por Egon Lotário Jagnow com Beatriz de Lima Alves.
Baseado em depoimentos e documentos históricos, o livro traz um panorama detalhado das famílias negras que ajudaram a fundar Jaraguá do Sul e resistiram por gerações no alto do morro. Os relatos compilados mostram uma comunidade organizada, com forte espírito de sobrevivência e identidade coletiva.
O livro pode ser encontrado para leitura e empréstimo na Biblioteca Pública de Jaraguá do Sul. Para saber como emprestar livros e visualizar o acervo completo do espaço, clique aqui.
Como isso impacta sua vida?
Resgatar a história do povo negro de Jaraguá do Sul não é apenas um ato simbólico. É reconhecer que a cidade que conhecemos hoje é resultado da força de homens e mulheres que foram empurrados para os morros, mas não se deixaram calar. É lembrar que a luta por reconhecimento e igualdade não começa nem termina em novembro. Ela está cravada na terra que pisamos e nas histórias que decidimos contar.
Gabriela Bubniak
Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.