Como uma ponte pênsil evitou que a WEG saísse de Jaraguá do Sul nos anos 1970
Em 1974, a empresa cogitava expandir suas operações para outro município por problemas de infraestrutura e acesso dos trabalhadores às fábricas.
Foto: IA JDV
Em 1974, Jaraguá do Sul corria o risco de ver a WEG, uma de suas principais empresas, expandir suas operações em outra cidade. A empresa, criada no município, parecia não ver muitas vantagens de continuar crescendo por aqui.
A decisão não estava ligada apenas a questões estratégicas ou financeiras, mas a um problema estrutural: a infraestrutura urbana não acompanhava o ritmo do crescimento industrial.
Entre os pontos levantados, um chamava mais atenção: a dificuldade de acesso dos trabalhadores às fábricas.
O problema que colocava tudo em risco
A própria direção da empresa detalhou a situação na época. Segundo o diretor-presidente Eggon João da Silva, havia entraves sérios ligados à mobilidade e à estrutura urbana. Um dos exemplos mais críticos envolvia a ligação entre a Ilha da Figueira e a região da rua Joinville, onde estavam unidades industriais.
Mesmo morando próximos fisicamente, trabalhadores precisavam fazer um deslocamento muito longo dentro da cidade. A ausência de uma ligação direta obrigava muitos a percorrerem cerca de 5 km, dificultando o acesso diário ao trabalho.
Além disso, o presidente da WEG também citou outros problemas que impactavam a operação:
Conteúdos em alta
- trechos sinuosos e mal iluminados da rua Joinville (atual avenida Waldemar Grubba), com registro de acidentes;
- dificuldades no escoamento de águas pluviais, que causavam alagamentos em áreas industriais;
- limitações no sistema viário e de transporte;
- dificuldades na passagem de nível ligando as ruas Venâncio da Silva Porto e Getúlio Vargas pela Bernardo Grubba.

Diante desse cenário, a empresa chegou a admitir que estudava levar a nova fábrica para outro município que oferecesse melhores condições.
A resposta da prefeitura e o início das obras
A situação foi levada diretamente à administração municipal. Sob comando do prefeito Eugênio Strebe, a prefeitura passou a atuar para resolver os gargalos apontados pela empresa e pela comunidade.
Entre as medidas adotadas, uma obra ganhou protagonismo: a construção da ponte pênsil sobre o rio Itapocu, ligando a Ilha da Figueira à rua Joinville.
Ainda em agosto de 1974, a obra já avançava para permitir a travessia de pedestres, especialmente operários das indústrias da região, reduzindo significativamente o tempo de deslocamento.
Até então a única ligação entre o bairro e a fábrica era pela ponte Francisco Tavares da Cunha Mello Sobrinho, que liga a Ilha da Figueira ao Centro através da rua Procópio Gomes de Oliveira.
A inauguração e o impacto imediato
A ponte pênsil foi inaugurada em 26 de outubro de 1974 pelo prefeito Eugênio Strebe, com a presença de autoridades municipais, entre elas o vice-prefeito João Lúcio da Costa, o presidente da Câmara José Carlos Neves, vereadores e lideranças locais.
Com 216 metros de extensão, a estrutura se tornou uma das maiores do tipo em Santa Catarina naquele período, construída com recursos da própria municipalidade.
Na prática, a ponte encurtou um trajeto que antes exigia longos deslocamentos pela cidade, de moto ou bicicleta, criando uma conexão direta entre moradia e emprego.
A ponte pênsil que garantiu por muitos anos a passagem de trabalhadores da Ilha da Figueira até a Vila Lalau, onde a Weg está instalada, funcionou até o início da década de 1990, quando foi inaugurada a ponte Antônio Ribeiro, também conhecida como Ponte do Trabalhador.

A decisão da WEG veio logo depois
Poucas semanas após a inauguração, em novembro de 1974, a WEG tornou pública sua decisão: a nova fábrica seria construída em Jaraguá do Sul, ao lado das unidades já existentes.
A mudança de cenário foi reconhecida pela própria direção da empresa. Segundo Eggon João da Silva, os problemas de infraestrutura haviam sido discutidos com a prefeitura e começaram a receber soluções concretas.
E assim, as melhorias consolidaram a permanência e a expansão da empresa no município, reforçando o parque industrial local.
Outras melhorias vieram na sequência
Embora a ponte tenha sido central, ela não veio sozinha. Outras ações citadas na época também contribuíram para a mudança de cenário:
- Na rua Joinville, onde estavam concentradas as unidades industriais, a prefeitura implantou um novo sistema de iluminação com lâmpadas de gás de mercúrio. Assim, os trechos escuros e perigosos que já haviam sido associados a acidentes graves, inclusive com vítimas;
- Foi concluído o projeto de uma nova passagem de nível – cruzamento direto entre vias no mesmo nível – ligando a rua Venâncio da Silva Porto à Avenida Vargas, criando uma alternativa para um acesso considerado difícil, principalmente para veículos pesados que atendiam as fábricas da região;
- A própria rua Venâncio da Silva Porto, frequentemente citada pelas condições precárias, entrou no planejamento de calçamento, medida vista como necessária para melhorar o fluxo e dar suporte ao crescimento industrial;
- Problemas recorrentes de alagamento na região das unidades industriais passaram a ser enfrentados com projetos para implantação de um novo sistema de escoamento de águas pluviais, ligando a área da WEG II até o rio Itapocu;
- Na área de comunicação, estava em vias de instalação o sistema de telex, que atenderia empresas de grande porte e reduziria as dificuldades nas ligações interurbanas, consideradas um entrave operacional na época.
Como isso impacta sua vida?
A permanência da WEG em Jaraguá do Sul não foi um acaso, foi resultado de decisões estruturais em um momento crítico. A ponte pênsil, construída para resolver um problema imediato de mobilidade, acabou tendo um efeito muito maior: ajudou a garantir a expansão de uma empresa que se tornaria uma das maiores do país. Isso se refletiu em empregos, crescimento urbano e desenvolvimento econômico que ainda hoje fazem parte da realidade da cidade.
Marcio Martins
Profissional da comunicação desde 1992, com experiência nos principais meios de Santa Catarina e no poder público. Observador, contador e protagonista de histórias, conheço Jaraguá do Sul como a palma da mão