Cotidiano | 19/06/2026 | Atualizado em: 19/06/26 ás 11:35

Entre túmulos antigos e inscrições alemãs: as histórias do primeiro cemitério de Jaraguá do Sul

Escondido entre árvores no bairro Czerniewicz, o Cemitério Protestante Brüstlein preserva túmulos, inscrições alemãs e histórias dos pioneiros de Jaraguá do Sul.

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Entre túmulos antigos e inscrições alemãs: as histórias do primeiro cemitério de Jaraguá do Sul

Foto: Marcio Martins/JDV

A cerca de 600 metros do Posto de Saúde Aroldo Schulz, no bairro Czerniewicz, um dos lugares mais antigos de Jaraguá do Sul permanece quase escondido pela vegetação. No alto de uma colina está o Cemitério Protestante Brüstlein, onde lápides centenárias, inscrições em alemão e túmulos cobertos pelo musgo preservam parte da história dos primeiros moradores da cidade.

O local surgiu ainda nos tempos da antiga Colônia Jaraguá e atravessou mais de um século acompanhando a formação da cidade. Um espaço que se tornou um retrato preservado da imigração e das famílias pioneiras que ajudaram a construir Jaraguá.

Com o passar das décadas, o Brüstlein se incorporou à paisagem do Czerniewicz. Em meio à encosta tomada pelo verde, ficaram guardados sobrenomes que atravessaram gerações e ajudaram a formar a cidade. Hoje, o local possui 86 lápides catalogadas.

A recém-nascida que marcou o início do cemitério

O primeiro sepultamento registrado no local aconteceu em dezembro de 1901. A pequena Gertrud Todt, uma recém-nascida que viveu apenas cinco dias, tornou-se o marco inaugural do cemitério.

Mais de um século depois, o nome da menina ainda aparece como o primeiro registro do Brüstlein, ligando o início do cemitério aos primeiros anos da antiga Colônia Jaraguá.

Foto: Marcio Martins/JDV

O túmulo ornamentado que atravessou um século

Alguns túmulos chamam atenção imediatamente. Entre eles está o de Henriette Verch, sepultada em 1923 aos 73 anos.

A estrutura em tom rosado, marcada pelo desgaste do tempo, possui cruz no topo, vasos ornamentais e uma placa em alemão trabalhada em alto relevo com motivos florais. Logo acima da inscrição, um pequeno anjo de pedra permanece sobre a lápide.

Na placa está escrito:

“HIER RUHT
HENRIETTE VERCH
GEST. 15. APRIL 1850
GEST. 5. OKT. 1923
RUHE SANFT”

Em tradução livre: “Aqui repousa Henriette Verch. Nascida em 15 de abril de 1850. Falecida em 5 de outubro de 1923. Descanse suavemente.”

Túmulo de Henriette Verch e nota de falecimento. | Foto: Marcio Martins/JDV

Na época, a despedida mobilizou familiares, vizinhos e amigos. Em nota publicada nos jornais, a família agradeceu às pessoas que ajudaram a ornamentar o caixão e acompanharam o cortejo até o sepultamento.

“A todos os vizinhos, amigos e conhecidos que nos apoiaram nas horas difíceis, que enfeitaram tão ricamente o caixão e a sepultura com flores e que acompanharam a querida falecida até o seu último lugar de repouso, expressamos nossos mais sinceros agradecimentos.”

O padeiro que entregava doces a cavalo pela colônia

Outro personagem sepultado no Brüstlein ajuda a contar um capítulo diferente da história da cidade. Ali também está Friedrich Müsse, imigrante alemão responsável por estabelecer, em 1905, a primeira panificação de Jaraguá do Sul.

Foto: Marcio Martins

Naquele tempo, os doces, bolachas e roscas produzidos por Müsse eram transportados no lombo de um cavalo e entregues diretamente nas casas e comércios locais.

O primeiro administrador de Jaraguá descansa ali

Entre os nomes sepultados no Brüstlein, talvez o mais ilustre morador seja Max Schubert. Nascido na Alemanha e radicado aqui na região no fim do século 19, ele participou do processo de ocupação e desenvolvimento local, atuando na abertura de estradas, em atividades comerciais e também na organização da comunidade que começava a se formar.

Conheça a história de Max Schubert, pioneiro ligado à formação de Jaraguá do Sul
Foto: Marcio Martins

Em 1896, Schubert foi nomeado intendente do Itapocu, tornando-se o primeiro administrador da localidade em meio às disputas territoriais da época. Mais de um século após sua morte, seu túmulo permanece no cemitério, enquanto seu nome segue presente na história da cidade. Clique aqui para conhecer a história dele.

O cemitério chegou a ser desativado

A história do Brüstlein também atravessou períodos de interrupção. Durante a administração do prefeito nomeado Leonidas Cabral Herbster, entre 1938 e 1945 e novamente entre 1946 e 1947, o cemitério chegou a ser desativado.

Em 1951, o então prefeito Waldemar Grubba autorizou sua reativação, permitindo que a comunidade voltasse a utilizar o espaço.

Mesmo com o crescimento urbano de Jaraguá do Sul, o cemitério continuou recebendo sepultamentos de forma pontual até os anos 2000. A última pessoa enterrada no local foi Hertha R. Duwe, em novembro de 2005.

Tombamento preservou a história do Brüstlein

Pouco tempo depois, projetos de ampliação vertical chegaram a ser apresentados para a área. As propostas geraram discussões sobre preservação histórica e proteção do patrimônio cultural do município.

Em 2007, órgãos ligados ao patrimônio histórico solicitaram a interrupção das intervenções até a conclusão dos procedimentos técnicos e administrativos necessários.

O reconhecimento definitivo da importância cultural do espaço veio em outubro de 2010, quando o município oficializou o tombamento do Cemitério Protestante Brüstlein. A proteção foi consolidada em 2011.

Hoje, o antigo cemitério permanece silencioso sobre a colina do Czerniewicz. Entre árvores, pedras antigas e inscrições quase apagadas pelo tempo, o Brüstlein continua atravessando gerações em Jaraguá do Sul.

Como isso impacta sua vida?

O Cemitério Protestante Brüstlein ajuda a manter viva parte da história de Jaraguá do Sul. Em meio ao crescimento da cidade, o espaço preserva nomes, trajetórias e marcas da imigração que ajudaram a formar a identidade do município.

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Marcio Martins

Profissional da comunicação desde 1992, com experiência nos principais meios de Santa Catarina e no poder público. Observador, contador e protagonista de histórias, conheço Jaraguá do Sul como a palma da mão

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