Cotidiano | 11/07/2026 | Atualizado em: 11/07/26 ás 13:51

Após sofrer homofobia, professor de Jaraguá do Sul relata como caso virou lição de respeito na escola

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Após sofrer homofobia, professor de Jaraguá do Sul relata como caso virou lição de respeito na escola

Foto: Alexander Grey/Pexels

A escola é um dos primeiros lugares onde crianças e adolescentes aprendem sobre convivência, respeito e diferenças. Mas também é um espaço onde preconceitos, muitas vezes trazidos de fora dos muros, acabam se manifestando.

Em Jaraguá do Sul, o professor de uma escola estadual viveu na pele essa realidade. Ele descobriu que alunos do ensino fundamental haviam transformado fotos dele em figurinhas com ofensas homofóbicas.

Apesar da dor causada pelo episódio, o professor decidiu compartilhar essa história com o JDV porque acredita que o final dela merece ser contado. Para ele, o que aconteceu depois mostrou, na prática, como a educação pode transformar pessoas e ajudar a formar cidadãos mais conscientes.

>> Para preservar a identidade dos envolvidos, ele pediu para não ser identificado.

O diálogo como resposta

A direção acolheu o professor e explicou que ele tinha o direito de registrar um boletim de ocorrência, afinal, a homofobia é crime – desde 2019, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), atos de homofobia e transfobia são equiparados ao crime de racismo e podem ser punidos com base na Lei nº 7.716/1989.

Porém, antes de qualquer coisa, ele decidiu seguir outro caminho: conversar com os estudantes. Para o professor, aquele episódio era uma oportunidade de mostrar por que aquelas ofensas eram graves e não poderiam ser tratadas como uma brincadeira.

“O que me fez pensar foi que talvez muitos daqueles alunos nunca tivessem parado para refletir sobre a gravidade do que fizeram. Antes de punir, eu queria fazer meu papel de educador”, contou ao JDV.

A proposta do professor foi aceita pela direção, que decidiu conversar com as turmas antes de adotar qualquer outra medida. Segundo ele, a diretora percorreu as salas de aula explicando a gravidade do episódio e deixando claro que a homofobia é crime.

Mais tarde, o próprio professor também conversou com os alunos. Para ele, aquele era um momento em que a escola podia cumprir um dos seus principais papéis: ensinar.

“Disse que respeito cada um daqueles alunos e que espero o mesmo de volta. Que respeito é a base de qualquer conversa, sobre esse assunto e sobre qualquer outro.”

O pedido de desculpas dos alunos

Nos dias seguintes, alguns dos estudantes que participaram dos ataques procuraram o professor para pedir desculpas. Reconheceram o erro e disseram que haviam entendido a gravidade do que fizeram.

O que mais o marcou, porém, veio de alunos que não tinham envolvimento com as ofensas.

Segundo o relato, alguns se aproximaram espontaneamente, inclusive emocionados, para pedir desculpas em nome dos colegas. Disseram que não queriam que ele tivesse passado por aquela situação. Houve abraços, conversas e demonstrações de empatia que ele não esperava encontrar depois de um episódio tão doloroso.

“O pedido de desculpas de quem errou já teria sido importante. Mas ver alunos que não participaram daquilo se sensibilizando foi o que mais me marcou”, contou.

Procedimentos da rede estadual

A escolha do professor pelo diálogo está alinhada às orientações da Secretaria de Estado da Educação (SED) para situações de violência e discriminação no ambiente escolar.

Segundo Cristiana Poltronieri Ziehlsdorff, coordenadora do Núcleo de Educação, Prevenção, Atenção e Atendimento às Violências na Escola (NEPRE), todas as escolas da rede estadual recebem uma cartilha com orientações para lidar com casos de violência, como bullying, racismo, homofobia e outras formas de discriminação.

O protocolo prevê que o primeiro passo seja acolher tanto a vítima quanto quem praticou a agressão. Ela explica que, muitas vezes, o autor da violência não compreende a gravidade da própria conduta e nem percebe que está cometendo um ato discriminatório. Por isso, o acolhimento também tem um papel educativo, ajudando a conscientizar e prevenir que situações semelhantes se repitam.

Na sequência, as famílias são comunicadas sobre o ocorrido e as medidas adotadas pela escola. A unidade também precisa elaborar um plano de ação pedagógico para trabalhar o tema com todas as turmas. Dependendo da situação e da idade dos envolvidos, outros órgãos da rede de proteção, como o Conselho Tutelar, também podem ser acionados.

Segundo Cristiana, todas as ocorrências são registradas na plataforma do NEPRE, da Secretaria de Estado da Educação. Nesse sistema, a escola informa o que aconteceu e quais providências foram adotadas. A partir desse registro, a Coordenadoria Regional de Educação acompanha o caso, verifica se os protocolos foram cumpridos e avalia se há necessidade de complementar o atendimento, com apoio de profissionais como psicólogos e assistentes sociais.

Como isso impacta sua vida?

Casos de preconceito continuam fazendo parte da realidade de muitas escolas brasileiras. O relato desse professor mostra que responsabilização e educação não precisam caminhar em sentidos opostos. Quando a comunidade escolar enfrenta o problema de forma clara e sem relativizar sua gravidade, o diálogo também pode se tornar parte do processo de aprendizagem.

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Gabriela Bubniak

Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.

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