Jaraguá do Sul | 22/01/2026 | Atualizado em: 22/01/26 ás 14:45

Como uma professora de Jaraguá mudou a vida de uma estudante surda por meio da Libras

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Como uma professora de Jaraguá mudou a vida de uma estudante surda por meio da Libras

Foto: Arquivo pessoal de Clery Dreher

A professora Clery Dreher, moradora de Jaraguá do Sul, dedicou três décadas à educação de pessoas surdas. Mas foi em 2025, com uma aluna em especial, que ela viveu um dos momentos mais marcantes da carreira: ajudar uma jovem de 16 anos, que nunca havia lido, a descobrir o mundo das palavras – e mais do que isso, ajudou-a a conquistar autonomia para conviver e se comunicar com as pessoas à sua volta.

Para entender esse momento, é preciso revisitar a trajetória de Clery e de sua profissão. Ela lembra que sempre sonhou em ser professora, mas não esperava se dedicar à Língua Brasileira de Sinais. “A Libras me escolheu”, resume.

Desde os 17 anos, ela estuda e atua com a comunidade surda. Já são mais de 30 anos de experiência, mais de 3 mil horas de cursos e uma pós-graduação em Tradução e Interpretação no IFSC Bilíngue, em Palhoça.

Foi nessa caminhada que ela reencontrou Suane, uma adolescente surda que já conhecia de atendimentos anteriores, quando atuava na Secretaria Municipal de Educação de Jaraguá do Sul.

“Eu fazia assessoria para os tradutores e intérpretes de Libras nas escolas municipais. Atendi a Suane quando ela era criança. Quando a reencontrei, ela já era uma moça!”

O vínculo que transforma

Clery assumiu o desafio de acompanhar Suane em sala de aula na Escola Estadual Duarte Magalhães. “Ela estava insegura, sabia que eu era exigente. Mas fui com jeitinho, criando vínculo afetivo, até ela confiar”, conta.

No primeiro dia de aula, conversaram sobre as expectativas para o ano. Suane confessou que não gostava de estudar, e Clery decidiu que isso iria mudar.

Clery Dreher ao lado da estudante Suane em ambiente escolar, ambas sorrindo
Clery Dreher ao lado da estudante Suane | Foto: Arquivo pessoal de Clery Dreher

A professora percebeu que, apesar da idade, Suane não sabia ler. E mais: não demonstrava interesse. “Ela não lia nem o nome do bairro onde pegava o ônibus escolar. Foi um choque de realidade para ela.”

Clery então propôs um desafio: deu de presente um livro e sugeriu que ela lesse meia página por dia, anotando as palavras desconhecidas e buscando os sinais correspondentes.

A proposta tocou Suane profundamente. “Ela começou a chorar. Disse que estava traumatizada com tentativas frustradas em outras escolas. Foi um momento muito forte. Mas ela aceitou tentar.”

A leitura como conquista emocional

O plano deu certo. Pouco tempo depois, Suane passou a andar pela escola lendo cartazes, placas e avisos. O gosto pelas palavras foi despertado. Em uma aula de biologia, Clery desafiou a aluna a ler um slide no quadro.

“Ela disse que não conseguiria, mas insistimos. Quando ela leu, os olhos se encheram de lágrimas. Parei a aula, falei pro professor: ‘Ela leu!’. A turma inteira aplaudiu em Libras. Foi um momento inesquecível.”

Estudante surda Suane concentrada na leitura de um livro em sala de aula
Suane concentrada na leitura de um livro | Foto: Arquivo pessoal de Clery Dreher

A mãe de Suane, Faby, também percebeu a mudança. “Ela está lendo sim, pra minha própria surpresa. Agora, antes de dormir, orientamos ela a ler pela manhã, com a cabeça mais focada.”

A transformação foi além da leitura. Suane passou a escrever no celular para se comunicar com os colegas e professores. “Ela não precisava mais de mim como intermediária. Ganhou autonomia. Isso é poderoso.”

“Ensinar alunos surdos exige sensibilidade; não é só ensinar conteúdo, é criar conexão. E quando você vê o brilho nos olhos deles, tudo vale a pena.”

Inclusão que deveria ser natural

Com três décadas de experiência, Clery conhece bem os desafios da inclusão. Ela critica o fato de ainda precisarmos falar em “inclusão” como algo à parte. “Se fosse natural, nem existiria essa palavra. As pessoas deveriam pensar no todo. A empatia precisa ser praticada.”

Ela lembra que há muitos surdos com formação superior trabalhando em funções de base por falta de oportunidades reais. “A acessibilidade não pode parar na contratação. Tem que continuar com formação e suporte.”

Sobre a Libras, Clery reforça: “Não é linguagem de sinais. É língua de sinais. Como a língua portuguesa. É uma língua completa, que exige tempo, estudo e fluência para ser usada corretamente.”

Hoje, Clery atua com sua empresa de acessibilidade e oferece cursos e palestras. “Levo sempre um surdo comigo. Nada sobre nós sem nós. As pessoas se emocionam ao vivenciar essa interação. Isso gera empatia. Assim como aprendemos inglês, deveríamos aprender Libras.”

Como isso impacta sua vida?

Histórias como a de Clery e Suane mostram que educação é transformação. Em Jaraguá do Sul, a dedicação de professores comprometidos com a acessibilidade pode abrir portas antes trancadas. A leitura, que para muitos é algo natural, para outros é uma conquista gigante.

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Maria Eduarda Günther

Jornalista em formação na FURB, nascida em Jaraguá. Cresci entre filmes, livros e peças teatrais. Após criar conteúdo para redes socias sobre Formula 1 e esportes descobri a paixão por jornalismo e a área de comunicação. Nunca perco a oportunidade de conhecer novos lugares e novas histórias por ai.

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