Da indústria ao café da manhã: quais setores mais utilizam as águas do Rio Itapocu?
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Quem abre a torneira em Jaraguá do Sul e região dificilmente pensa em quantas atividades diferentes dependem da mesma água que chega dentro de casa. Antes de virar café na xícara ou ser usada para lavar louça e tomar banho, ela percorre um caminho complexo dentro da bacia hidrográfica do Rio Itapocu, um dos sistemas hídricos mais importantes do Norte de Santa Catarina.
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A água do Itapocu é compartilhada por diversos setores da sociedade. Esse modelo é chamado de uso múltiplo da água, quando um mesmo recurso ambiental atende simultaneamente diferentes atividades. Entre elas estão o abastecimento, a irrigação, a indústria, a criação de animais, a geração de energia, a recreação, a mineração e até a manutenção dos próprios ecossistemas.
Mas afinal: qual setor que mais usa a água do Itapocu? É o que o JDV, com auxílio da Associação dos Municípios do Vale do Itapocu (Amvali) e do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Itapocu, vai responder nesta reportagem da série especial do Dia da Água.
Cultivo do arroz
A maior fatia da água utilizada na bacia do Itapocu não vai para as cidades nem para as fábricas. Ela vai para as lavouras.
De acordo com estudos do Plano de Recursos Hídricos da Bacia, 51,76% da água captada é destinada à irrigação da rizicultura, atividade tradicional na região. O cultivo de arroz exige grandes volumes de água, especialmente entre novembro e março, período de plantio e desenvolvimento da cultura.
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A demanda anual estimada para essa atividade chega a 14 milhões de metros cúbicos de água.
Boa parte dessa irrigação é viabilizada por um sistema organizado de distribuição. Em Guaramirim, por exemplo, agricultores criaram em 1968 a Sociedade Distribuidora de Águas de Guaramirim (Sodag), responsável pela construção de uma represa que garantiria água para as lavouras.
Com o crescimento da atividade agrícola, a entidade evoluiu e hoje funciona como Associação Distribuidora de Água para Irrigação (Adai). O sistema capta água do Itapocu e a distribui por meio de um canal de aproximadamente 22 quilômetros, que atravessa localidades como Guamiranga, Caixa d’Água, Poço Grande e Quati.
Sem essa infraestrutura, especialistas apontam que uma parte significativa da produção de arroz na região seria inviável por falta de água.
A água que chega à mesa
Depois das lavouras, o segundo maior uso da água da bacia é aquele que todos conhecem bem: o abastecimento público.
Cerca de 23,76% da água da bacia é utilizada para abastecer as cidades, garantindo água tratada para milhares de moradores. É essa água que chega às casas para beber, cozinhar, tomar banho e preparar o café da manhã.

Pela legislação brasileira de recursos hídricos, o abastecimento humano é considerado o uso prioritário da água, seguido do consumo animal.
Cada município da bacia possui seu próprio sistema de captação e distribuição, administrado por concessionárias estaduais, prefeituras ou empresas privadas.
Criação de peixes também depende do rio
Outro uso importante da água do Itapocu está ligado à criação de peixes.
A aquicultura responde por 12,16% do consumo de água da bacia, sendo uma atividade relevante especialmente em propriedades rurais. Viveiros de piscicultura utilizam água captada do sistema hídrico e depois devolvem parte desse volume ao ambiente.
Na região, a piscicultura aparece como uma das atividades de criação animal com maior relação direta com os recursos hídricos, já que depende de fluxo constante e qualidade adequada da água.
O motor da economia
Apesar de a região ser conhecida pela força industrial, o uso da água pelas fábricas representa uma parcela menor do total consumido.
A indústria utiliza cerca de 7,85% da água da bacia do Itapocu. Ainda assim, esse percentual é fundamental para manter um dos motores econômicos do Norte catarinense.
Entre os principais setores que dependem da água estão:
- indústria metalomecânica
- indústria têxtil
- indústria de alimentos
A água é utilizada em processos de produção, resfriamento de máquinas, limpeza industrial e em diversos sistemas de transformação.
Rio que sustenta várias atividades
Além dos usos principais, o Itapocu também atende outras demandas, como:
- mineração, responsável por 4,41% do consumo de água
- recreação, como pesca e lazer no rio
- geração de energia elétrica
- diluição de esgoto
- manutenção dos ecossistemas naturais
Esses usos menores, mesmo somados, representam uma parcela pequena do consumo total, mas continuam sendo importantes para o funcionamento da bacia.

Uma bacia ainda preservada
Outro aspecto que ajuda a garantir a disponibilidade de água no Itapocu é o estado de conservação do território.
Cerca de 60% da área da bacia é formada por espaços naturais, incluindo florestas em diferentes estágios de preservação. Esse fator ajuda na infiltração da água no solo, na manutenção das nascentes e na regulação do fluxo dos rios.
Esse equilíbrio entre áreas naturais e atividades produtivas é um dos elementos que ajudam a manter o sistema hídrico funcionando.
Projetos que ajudam a cuidar da água do Itapocu
Se a água do Itapocu abastece cidades, move a economia e sustenta a agricultura, também existem iniciativas estruturadas para garantir que esse recurso continue disponível no futuro. Entre elas, estão o Plano de Bacia Hidrográfica e o Proeva.
O Plano de Bacia do Rio Itapocu, finalizado em 2017, recebe acompanhamento e apoio da Amvali, e é considerado o principal instrumento de gestão dos recursos hídricos. Elaborado com recursos do governo do Estado, o documento contou com coordenação da Unisul e envolvimento direto do Comitê Itapocu.
Na prática, o plano funciona como um guia estratégico para o futuro da água na região. Ele reúne diagnósticos, projeta cenários e estabelece metas e ações para garantir quantidade e qualidade adequadas para todos os usos: do abastecimento humano à atividade econômica.

Entre os principais desafios identificados estão a qualidade da água, a disponibilidade hídrica em alguns trechos, a necessidade de avançar no saneamento básico, a ampliação de áreas protegidas e o fortalecimento da gestão dos recursos hídricos. O plano também propõe medidas para reduzir riscos de enchentes, enxurradas e períodos de seca, além de incentivar ações permanentes de prevenção à poluição.
Ao lado do planejamento técnico, a conscientização da população também ganha espaço. É nesse ponto que entra o Programa de Educação e Valorização da Água (Proeva), desenvolvido pelo Samae em parceria com a Secretaria de Educação e que também tem apoio da Amvali.
Voltado a estudantes do quarto ano, o programa ensina, de forma prática, temas como uso consciente da água, saneamento básico e preservação ambiental. Com atividades em sala, visitas à Estação de Tratamento de Água e ações educativas, o Proeva aposta em um efeito multiplicador: crianças que aprendem e levam esse conhecimento para dentro de casa.
Juntos, o Plano de Bacia e o Proeva mostram que cuidar da água do Itapocu vai além de administrar o presente: é um esforço coletivo que envolve planejamento, educação e a participação ativa de toda a região.

Programa Produtor de Água: preservar na nascente para garantir no futuro
Outra iniciativa importante voltada à preservação dos recursos hídricos na região é o Programa Produtor de Água do Rio Vermelho, criado em 2010 pelo Samae de São Bento do Sul.
Diferente de ações voltadas diretamente ao consumo ou à educação, a proposta é incentivar proprietários rurais a preservarem e recuperarem áreas naturais por meio de compensação financeira.
Na prática, quem adere ao programa se compromete com ações de conservação ambiental, como proteção de nascentes, recuperação de vegetação e melhoria de práticas no uso do solo. Em troca, recebe pagamento pelos serviços ambientais prestados.
O foco está na região montante da bacia, onde nascem os rios e onde a preservação tem impacto direto na quantidade e qualidade da água que chega às cidades.
Até agora, os resultados mostram o alcance da iniciativa:
- 347 hectares de vegetação conservados ou recuperados
- 6,95 quilômetros de estradas rurais adequadas
- Cerca de R$ 700 mil pagos a proprietários rurais
A lógica é simples, mas poderosa: cuidar da água desde a nascente para garantir que ela chegue limpa e em quantidade suficiente a todos os outros usos ao longo do rio.
O caminho até a xícara
No fim das contas, o caminho da água do Itapocu passa por muitos lugares antes de chegar às casas. Ela pode irrigar uma lavoura de arroz, abastecer um viveiro de peixes, resfriar máquinas em uma fábrica ou simplesmente correr pelo leito do rio mantendo a vida nos ecossistemas.
E, para milhares de pessoas, a água do Itapocu está sempre presente de manhãzinha, abastecendo a chaleira do café para que mais um dia produtivo possa começar.
