O que levou uma jaraguaense a viver 24 dias em um templo Hare Krishna na Inglaterra?
Durante um mochilão pela Europa, a advogada decidiu mergulhar em uma vivência alternativa e desafiadora, bem longe da própria zona de conforto.
Foto: Arquivo pessoal/Natacha Ferreira
Quando decidiu fazer um mochilão pela Europa, em outubro de 2025, Natacha Zanghelini Borba Ferreira não buscava somente por turismo e belas paisagens. Advogada, aos 34 anos, a jaraguaense que vive atualmente em São José dos Campos (SP), desejava viver algo que fosse além; uma experiência única.
Foi assim que acabou passando quase um mês em um templo Hare Krishna no interior da Inglaterra, onde viveu uma experiência de voluntariado marcada por trabalho no campo, convivência multicultural, espiritualidade e mergulho no autoconhecimento.
Agora, de volta ao Brasil, ela incorporou à rotina os aprendizados e vivências de uma jornada que deixou marcas profundas e transformou seu olhar sobre a vida. E, em entrevista ao JDV, Natacha compartilhou como foi essa imersão fora do país e explicou também como funcionam as plataformas que conectam voluntários a projetos ao redor do mundo.

“Fui para experienciar o que tivesse que ser vivido, para expandir externa e internamente. Essa viagem me tirou de uma zona de conforto, de mais de 30 anos morando na mesma cidade, de uma rotina na frente do computador 8h por dia”, resume.
A ideia que virou mochilão e voluntariado
A experiência surgiu como uma evolução natural de um plano inicial: fazer um intercâmbio para melhorar o inglês. Mas, ao buscar algo mais flexível e imersivo, Natacha optou por uma experiência diferente do modelo tradicional. O voluntariado permitiria que ela viajasse por mais tempo, com menos custos e mais conexão.
“Preferi fazer isso num país em que o idioma principal fosse o inglês, justamente para ter esse contato real com a língua”, conta.
Conteúdos em alta
Mesmo sendo sua primeira experiência como voluntária em outro país, ela se sentia segura. Já conhecia pessoas próximas que haviam participado de iniciativas semelhantes, como o marido, que ficou três meses na Tanzânia pelo Workaway, e uma amiga que viajava com o companheiro pela América Latina através da Worldpackers.

A rotina em uma fazenda espiritual
O destino escolhido foi o templo Hare Krishna Bhaktivedanta Manor, localizado na região de Hertfordshire, a cerca de uma hora de Londres. A propriedade de 80 acres abriga um santuário espiritual, um projeto de agricultura orgânica e uma comunidade devocional.
Além de ser um dos templos mais visitados da Europa, o espaço também recebe voluntários do mundo todo dispostos a colaborar com as atividades da fazenda em troca de hospedagem, alimentação e vivências culturais.
Natacha ficou hospedada por 24 dias em containers adaptados, que dividia com outros voluntários vindos de países como EUA, Irlanda, México, Argentina e Moldávia. A rotina envolvia cinco horas diárias de trabalho, principalmente em atividades ligadas à colheita e manutenção dos campos de cultivo.
“Plantei e colhi couve, beterraba, abóbora, tomates, pimentão, milho, espinafre… tudo era usado no templo, seja nas refeições comunitárias ou para os animais, que são considerados sagrados.”
A rotina na fazenda misturava tarefas braçais com momentos de introspecção. Na jardinagem, por exemplo, ela ficava sentada arrancando ervas daninhas no meio da plantação, em silêncio, meditando ou pensando na vida. “Em alguns momentos, moradores do templo passavam oferecendo um chá, um doce, sempre com gratidão.”
Ela conta que também havia atividades como yoga, meditações e participação nos rituais do templo, tudo de forma opcional. O trabalho era feito de sexta a terça-feira, com as quartas e quintas livres para descanso.











Mesmo não sendo uma região central, havia bicicletas disponíveis para os voluntários e transporte público acessível para quem quisesse explorar os arredores. Nos dias de folga, Natacha visitou Londres e também o estúdio de gravação de Harry Potter, que fica na mesma cidade do templo.
Entre desafios, descobertas e conexões
O período, no entanto, também trouxe desafios. A alimentação lacto-vegetariana, com influência da culinária indiana, foi um deles.
“Sou sensível à pimenta, e teve dias em que mal consegui comer. Em um almoço, achei que era feijão, mas era amendoim… chorei de saudade de casa. Na hora pensei: se já to assim na primeira semana, como serão as próximas 12 semanas da viagem? Mas deu tudo certo”, lembra.


A falta de privacidade também exigiu adaptação: “Eu morava sozinha, e dividir quarto e banheiro com desconhecidos foi um desafio à parte”.
Apesar disso, ela destaca a riqueza da convivência multicultural e a troca com pessoas de diferentes culturas, idades e perspectivas.
“A maioria das pessoas era muito receptiva e disposta a ajudar. Tínhamos conversas profundas, mesmo com meu inglês limitado, sobre autoconhecimento, espiritualidade e vida equilibrada”.
Entre cantos devocionais e um novo olhar sobre o mundo
Um dos momentos mais marcantes da experiência foi a participação espontânea em uma meditação às 4h da manhã no templo. “Era escuro, frio, tudo muito novo. Mas senti uma paz e uma energia que me atravessaram. Fiquei emocionada.”








Outro ponto alto foi o Harinama em Londres, uma prática devocional nas ruas em que devotos entoam mantras e dançam. “Foi uma experiência livre de julgamentos. As pessoas se juntavam àquela celebração com alegria, sem importar a origem ou crença”.
A experiência mudou seu olhar sobre o mundo. “A gente percebe que todo mundo está buscando algo. Mesmo com culturas diferentes, sempre existe uma conexão. A gentileza, a escuta, o desejo de viver melhor… isso une as pessoas”.
Após o voluntariado na Inglaterra, ela ainda passou por outros países e finalizou a viagem com uma segunda experiência, dessa vez em Lovaina, na Bélgica, ajudando uma senhora a cuidar de dois cachorros. Ficou três meses na Europa ao todo.
“Me senti privilegiada por viver tudo isso. Expandi o amor dentro de mim e sigo disposta a transmitir esse amor por onde passar.”
Hoje, de volta ao Brasil, Natacha não tem planos imediatos de repetir a experiência, mas não descarta uma nova jornada.
“Dependendo do que eu estiver buscando. Mas foi transformador, e eu recomendo essa experiência para quem quer se conectar com algo maior e consigo mesmo”.
Como funciona esse tipo de voluntariado?
A experiência de Natacha foi viabilizada pela plataforma Workaway, uma rede global de trocas culturais, onde viajantes colaboram com anfitriões em atividades diversas em troca de hospedagem, alimentação e imersão cultural.
Criada como alternativa a programas de intercâmbio pagos, a Workaway oferece mais de 50 mil oportunidades em mais de 170 países, incluindo hospedagens em templos, fazendas, ONGs, casas de família e projetos sustentáveis.

Para participar, o voluntário paga uma taxa anual para acessar a plataforma e entrar em contato com os anfitriões. As experiências não envolvem remuneração financeira, mas garantem vivências autênticas, aprendizado de línguas, desenvolvimento pessoal e conexão com estilos de vida alternativos.
No caso de Natacha, a escolha foi motivada pela busca por imersão na língua inglesa e por uma vivência espiritual diferente do habitual.

“Eu queria um lugar que me oferecesse contato com a natureza, com outras pessoas e comigo mesma. O templo Hare Krishna me chamou a atenção pelas avaliações e pela abordagem acolhedora”.
>> Existem outras plataformas na mesma linha, que promovem experiências como estas. É o caso da Worldpackers, que é brasileira e também conecta voluntários a anfitriões ao redor do mundo em propostas de trabalho colaborativo; e a WWOOF (World Wide Opportunities on Organic Farms), voltada especialmente para quem deseja atuar em fazendas orgânicas.
Como isso impacta a sua vida?
A história de Natacha mostra que um voluntariado pode ser mais do que uma troca prática. Pode ser uma pausa no ritmo do mundo, uma abertura para o diferente, um reencontro com o essencial. De Jaraguá do Sul para o interior da Inglaterra, ela carregou consigo a coragem de sair da zona de conforto para viver o que fosse preciso. E voltou com um olhar novo sobre o mundo; e sobre ela mesma.
Gabriela Bubniak
Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.