Quatro meses depois, como estão e por onde andam os jaraguaenses que decidiram pedalar até a Patagônia?
Bruna de Moraes e Rodrigo Tranquilo durante cicloviagem na Patagônia argentina | Foto: Reprodução/Instagram @projetoandalento
Após deixarem Jaraguá do Sul para atravessar a América do Sul de bicicleta, a designer gráfica Bruna de Moraes e o músico Rodrigo Tranquilo já percorreram mais de 3 mil quilômetros, cruzaram a Patagônia argentina e agora seguem viagem pelo Chile.
Prevista desde o início como um dos principais destinos da cicloviagem, a chegada à Patagônia marca uma das etapas mais importantes do percurso. O trecho concentra parte significativa dos mais de 6 mil quilômetros planejados para a jornada.
Vivendo com o essencial, carregado em duas bicicletas, o casal entra agora em uma nova fase, marcada por mudanças de clima, adaptação de rota e decisões que reforçam a proposta inicial do projeto: priorizar o caminho, e não apenas o destino.
Mais de 3 mil km depois, a estrada muda
Com o passar dos meses, o planejamento se tornou a nova rotina dos aventureiros. E essa rotina, por sua vez, passou a ser guiada por fatores como clima, terreno e resistência física, exigindo decisões constantes ao longo do caminho.
Ao completarem quatro meses de viagem, Bruna e Rodrigo resumiram o momento com uma percepção que revela o ritmo da experiência.
“A gente pisca e quando vê já está há quatro meses vivendo na estrada com o que é possível carregar em duas bicicletas.”
Além da distância percorrida, o período trouxe mudanças internas. Segundo Bruna, experiências acumuladas, o contato com outro idioma e a saudade de casa passaram a fazer parte do cotidiano, dividindo espaço com a prática diária do pedal.
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Do começo em Santa Catarina até a virada no Sul
A jornada começou com desafios ainda em território catarinense. Foram 16 dias de viagem na travessia pelo estado, com 10 dias efetivos de pedal, 432 quilômetros percorridos e mais de 7 mil metros de altimetria acumulada, números que já indicavam o nível de exigência da proposta.
Esse primeiro trecho serviu como base para o que viria depois, ajudando a ajustar ritmo, equipamentos e expectativas.
Na sequência, foi no Rio Grande do Sul que a viagem começou a ganhar outro contorno. As condições mudaram, com estradas de areia, vento constante e retas longas que pareciam não ter fim.
Bruna relembra que foi nesse momento que o pedal deixou de ser apenas uma ideia colocada em prática e passou a exigir adaptação diária. “O Rio Grande do Sul foi onde o pedal começou a ganhar outro ritmo”, relatou.
Ao mesmo tempo, encontros pelo caminho e pausas inesperadas reforçaram o lado humano da experiência, que segue sendo um dos elementos mais marcantes da jornada.
A chegada à Patagônia: um marco, não o fim
Após cerca de três meses e meio e mais de 3 mil quilômetros pedalados, o casal cruzou a linha que marca a entrada na Patagônia argentina. O momento foi tratado como simbólico, mas longe de representar uma conclusão.
“Ir longe assim, andando lento, tem um significado difícil de explicar”, compartilharam.
Ao entrarem na região, destacaram o impacto da paisagem, marcada pela imensidão, pelo vento forte e por características naturais que exigem respeito e adaptação. A chegada à Patagônia representa, até aqui, um dos pontos mais marcantes da viagem, mas o roteiro segue aberto.
Rota dos lagos e o avanço até o Chile
Já dentro da Patagônia, o casal percorreu trechos conhecidos, como a Rota dos Sete Lagos, na Argentina, um trajeto de cerca de 110 quilômetros que liga Villa La Angostura a San Martín de los Andes e é conhecido pelas paisagens naturais e mirantes.
A partir da região de Bariloche, no entanto, eles decidiram não seguir o caminho mais direto para o sul. Em vez disso, optaram por explorar mais a região.
Bruna explica que, ao invés de descer, eles subiram e percorreram a região dos lagos argentinos antes de cruzar para o Chile. A travessia aconteceu por um passo na região de Junín de los Andes, chegando a Pucón.
Hoje, eles já estão em território chileno, avançando pela chamada região dos lagos, depois de terem passado também pela região dos rios. “A gente está nesse momento no Chile, na região dos lagos”, contou.
Clima muda planos e ritmo da viagem
A mudança de país trouxe também uma mudança importante nas condições da estrada. Enquanto a Argentina apresentava um clima mais seco, o Chile tem se mostrado mais úmido e desafiador.
Com a chegada do outono, os dias ficaram mais curtos e as temperaturas mais baixas, o que impacta diretamente o tempo disponível para pedalar e a própria experiência.
“Os dias são mais chuvosos e frios, então não é um clima tão agradável para pedalar”, explicou Bruna.
Além disso, muitos serviços ao longo do caminho deixam de funcionar fora da alta temporada, o que dificulta encontrar locais para dormir, comer ou até acampar, exigindo ainda mais planejamento.
Com o avanço do frio, o casal já definiu o próximo passo: uma pausa na Ilha de Chiloé, no Chile, onde pretendem passar o mês de maio.
Eles estão se deslocando até o arquipélago para realizar um voluntariado em um hostel, trabalhando meio período em troca de hospedagem. Segundo Bruna, a decisão garante um ponto fixo em um período em que o clima dificulta tanto o pedal quanto o acampamento.
Além da estrutura, a ideia é usar esse tempo para explorar a ilha com mais calma e também avançar na produção de conteúdo sobre a viagem, especialmente para o YouTube, onde já começaram a compartilhar a jornada.
O caminho passa a ter mais peso que o destino
Ao longo desses quatro meses, uma percepção tem se consolidado para o casal: o valor da viagem está muito mais no percurso do que em qualquer ponto específico.
Bruna observa que os momentos mais marcantes raramente acontecem em destinos planejados. Muitas vezes, são situações inesperadas que ficam na memória, como encontros no meio da estrada, mudanças no clima ou paisagens que surgem sem aviso.
“Às vezes é um dia comum, um encontro, um momento que a gente nem imaginava”, relata.
Essa forma de viver a experiência reforça a ideia de que o sentido da jornada vai sendo construído aos poucos. “Talvez só agora estejamos começando a entender o que viemos fazer aqui”, escreveram recentemente.

A rotina na estrada também tem provocado mudanças na forma como o casal enxerga o cotidiano. Com o passar dos dias, necessidades básicas passam a ganhar mais importância.
Bruna comenta que, muitas vezes, o foco está em encontrar um bom lugar para dormir, ter um banho quente e conseguir descansar bem. Esse tipo de experiência faz com que elementos simples da rotina sejam ressignificados.
Segundo ela, esse processo ajuda a entender melhor o que realmente importa e também a valorizar aspectos da vida que antes passavam despercebidos.
Uma jornada que ainda está em construção
Apesar dos milhares de quilômetros já percorridos e da chegada à Patagônia, a viagem está longe de terminar. O casal segue em movimento, com planos que continuam abertos e sujeitos a mudanças conforme o caminho se apresenta.
Neste momento, existe a intenção de realizar o retorno também de bicicleta, mas sem um destino final totalmente definido. A experiência na estrada, segundo eles, exige flexibilidade constante.
Como isso impacta sua vida?
A jornada de Bruna e Rodrigo mostra que grandes mudanças não acontecem de uma vez, mas se constroem ao longo do tempo, com decisões consistentes e adaptação constante. A história deixa claro que sair da rotina é apenas o primeiro passo. O que vem depois é um processo contínuo de aprendizado, onde o sentido das escolhas só aparece com o tempo.
Maria Eduarda Günther
Jornalista em formação na FURB, nascida em Jaraguá. Cresci entre filmes, livros e peças teatrais. Após criar conteúdo para redes socias sobre Formula 1 e esportes descobri a paixão por jornalismo e a área de comunicação. Nunca perco a oportunidade de conhecer novos lugares e novas histórias por ai.