[Opinião] A teoria sobre Flintstones e Jetsons: mesmo mundo, dois andares
Fotos: Reprodução/Hanna-Barbera Productions
♫ “E o motivo todo mundo já conhece/ É que o de cima sobe e o de baixo desce/ E o motivo todo mundo já conhece/ É que o de cima sobe e o de baixo desce/ Bom xibom, xibom, bombom” (Xibom bombom; As Meninas)
Por décadas, duas séries de desenho animado moldaram o imaginário de gerações: Os Flintstones e Os Jetsons. A primeira mostrava uma “idade da pedra” entre dinossauros curiosamente moderna. A segunda, um futuro tecnológico exuberante, com cidades suspensas, robôs domésticos e carros voadores.
Aparentemente, era só isso mesmo. Mas uma teoria curiosa começou a circular entre fãs e estudiosos da cultura pop: e se as duas séries se passam no mesmo tempo histórico?
Segundo essa hipótese, o mundo teria sofrido um grande colapso civilizatório (ambiental ou tecnológico, não se sabe). Parte da humanidade teria sido forçada a sobreviver na superfície devastada do planeta, reconstruindo uma espécie de sociedade “pré-histórica”. Os Flintstones. Enquanto isso, uma elite (ou super-elite) altamente tecnológica teria escapado para cidades suspensas, vivendo em um ambiente ultramoderno e protegido. Os Jetsons.
Para corroborar essa teoria, alguns detalhes intrigam: Os Flintstones comemoram Natal, conhecem conceitos típicos da modernidade, têm empregos formais, publicidade, televisão e hábitos sociais que lembram claramente uma sociedade contemporânea. Não parecem habitantes de um passado remoto, mas sobreviventes adaptados a um mundo de ruptura.
Já os Jetsons, por sua vez, vivem em um ambiente onde a tecnologia resolve quase tudo: transporte, trabalho, alimentação, comunicação. O cotidiano é automatizado. A escassez não existe, assim como parece acontecer com o mundo (o povo) lá embaixo.
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O mundo como ele é, ou poderá ser
Curiosamente, essa ficção dialoga com preocupações muito reais do presente. O historiador Yuval Noah Harari frequentemente alerta sobre o risco da revolução tecnológica, especialmente com inteligência artificial, biotecnologia e automação, produzir um novo tipo de desigualdade histórica: a civilizacional.
Uma pequena parcela da humanidade poderia ter acesso a tecnologias que ampliam capacidades cognitivas, médicas e produtivas, enquanto grandes populações permaneceriam à margem desse avanço. Será um abismo social.
Não se trata apenas de diferença de renda, mas de realidade. Enquanto alguns viveriam em um mundo ultramoderno, outros enfrentariam escassez, instabilidade e acesso limitado a conhecimento e infraestrutura.
Dois mundos simultâneos
A ficção dos Flintstones e dos Jetsons, vista sob esse prisma, parece menos absurda do que à primeira vista. Ela se aproxima de muitas distopias literárias em que sociedades se fragmentam em camadas tecnológicas distintas.
Algo semelhante aparece naquela imaginada por Eson Aram no romance Delacroix Escapa das Chamas, ambientado em um não tão distante 2068. Ali, o mundo também se divide entre aqueles que conseguem escapar do colapso e aqueles que permanecem presos às consequências dele.
A diferença entre os dois grupos é quase existencial. Os que podem pagar, vivem nos prédios-cubo, verdadeiras cidades verticais. Os que não podem, vivem fora, praticamente uma zona de guerra e desespero contínuos.
A história humana já conheceu desigualdades profundas. Mas a tecnologia tem o potencial de ampliá-las de forma inédita. Quando o acesso a conhecimento, inteligência artificial, medicina avançada e automação se torna tão desigual, a própria trajetória das sociedades pode se separar. Ou colapsar.
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Talvez seja por isso que essa teoria aparentemente divertida dos desenhos provoque um certo desconforto. Ela lembra que o avanço tecnológico não garante progresso coletivo. Sem políticas públicas, educação digital e distribuição equilibrada de oportunidades, a inovação aprofundará abismos.
E, nesse cenário, o mundo pode acabar se parecendo com essa teoria: um planeta dividido em dois andares. Em cima, carros voadores e robôs domésticos. Embaixo, sobrevivência desesperada.
A pergunta não é se teremos tecnologia suficiente para viver como os Jetsons. A verdadeira questão é quantas pessoas serão convidadas a subir.
Raphael Rocha Lopes
Disrupção.TUDO! - Raphael Rocha Lopes é advogado e professor. Escreve sobre educação, comportamento e transformação digitais | @raphaelrochalopesadvogado