COLUNISTAS: Traição no trabalho: seis meses de encontros e um desfecho constrangedor
Imagem ilustrativa mostra conversa reservada em escritório ao entardecer
Começaram a transar na noite de inauguração da filial de Buenos Aires. Otávio, solteiro, recém-saído de um longo relacionamento, desde que foi contratado observava os movimentos da madura e voluptuosa Schirley, com discrição – e muito desejo.
Ela era casada, família tradicional, bem resolvida. Achava o colega feio – o narigudo, costumava dizer – mas, se divertia com as histórias que ele contava no cantinho do café. Um homem engraçado é mais perigoso que outro bem harmonizado. Logo essa teoria se confirmaria.
Naquele coquetel de expansão da firma, ficaram conversando em um canto. Sem perceber, deixaram que seus colegas cumprissem o que a chefe havia pedido: “Quero que vocês colem nos clientes, igual a marcação do futebol, cada um marca um”.
Depois do terceiro drink, enquanto mexia constantemente no cabelo, Shirley já estava achando que o problema de Otávio era os óculos estilo aviador, um pouco ultrapassados e nem lembrava da aliança de 12mm de largura que tinha na mão esquerda.
Despois de boas insinuações, de ambos os lados, foram para o quarto de Shirley e todas as expectativas da conversa se confirmaram naquela madrugada gelada – e suada – no 301.
Passaram a marcar viagens para o mesmo destino. Cada um cumpria a sua agenda e se encontravam ao anoitecer. Por uns seis meses, tinham pelo menos um encontro quinzenal em Brasília, Montevidéu, Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza, sempre com o trabalho muito elogiado e metas batidas mês a mês.
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Contrariando a sabedoria popular, Otávio segurou a tentação e não contou sobre o caso no escritório, nem quando os colegas comentavam sobre as curvas da corpulenta Shirley, circulando entre as mesas do departamento.
Até que, em uma viagem para o interior, ele tomou a decisão de dar-lhe uma notícia. Depois do ritual costumeiro: visitas de trabalho, noite de sexo, madrugada de sono, com Shirley dormindo com a cabeça no seu peito e café da manhã, optou por deixar para conversar, no trajeto, enquanto dirigia.
– Shi, preciso falar um assunto sério contigo…
– Vais sair da empresa… tenho visto as tuas interações no Linkedin…
– Não é sobre o trabalho…é sobre nós…
– Hummm, qual a novidade?
– Temos que parar com essa aventura…
– Aventura, Otávio?
– Sim, temos que parar com isso. Está muito arriscado…
– Você contou pra alguém?
– A questão é outra…
– Como assim?
– Sabe a Juliana?
– Do escritório?
– Sim.
– O que tem ela?
– A gente tá saindo.
– O quê, Otávio? Aquela seca, sem sal? Que nem sabe se vestir direito?
– Pois é, aconteceu. Prefiro que você saiba por mim.
Shirlei teve um acesso de raiva, começou a socar o painel do carro corporativo com os dois punhos e a fazer ameaças impublicáveis. Otávio teve que estacionar, até que a situação amenizasse.
Seguiram em silêncio total. Até o som do carro estava desligado. Quando chegaram em frente à casa de Shirley, o marido sorrindo a esperava com o portão aberto, enquanto segurava o filho do casal, em uma bicicletinha.
Ao descer do carro, ela enfiou o corpo para dentro do veículo e sussurrou para Otávio, uma pergunta quase inaudível:
– Vocês já transaram?
– Não!
Na manhã seguinte, Shirley chamou Juliana para uma sala e contou a história toda, ignorando as consequências que a próxima ação traria para sua imagem irretocável, abriu a porta, saiu do recinto e gritou:
– E vou te dizer mais uma coisa! Pode ficar com o Otávio pra ti, aquele pinto dele é menor que o nariz.
Parafraseando Nelson Rodrigues (1912-1980): A fidelidade deveria ser facultativa.
Marcelo Lamas é cronista e autor de Papo no cafezinho, Indesmentíveis, Arrumadinhas e Mulheres casadas têm cheiro de pólvora.
marcelolamasbr@gmail.com
Marcelo Lamas
Marcelo Lamas Cronista, autor de 4 livros. Sou gaúcho radicado em Jaraguá, há 3 décadas, porém, estou mais para jaraguaense, nascido no RS. Frio, doces, cafés, gatos, livros, futebol e Coca-Cola são as minhas preferências.