Por que Jaraguá do Sul não tem mais Vias Verdes? Saiba como funciona a criação de um parque linear
O que parece um simples parque envolve planejamento, regras ambientais e escolhas que impactam diretamente o futuro da cidade
Foto: Divulgação/Prefeitura de Jaraguá do Sul
Projetos de parques lineares, como a Via Verde às margens do Rio Itapocu, na Ilha da Figueira, vêm ganhando espaço em cidades da região por um motivo claro: conseguem unir lazer, mobilidade e soluções ambientais no mesmo lugar.
O local caiu no gosto da comunidade, que passou a fazer parte do dia a dia, seja na hora de praticar exercícios, para encontros e momentos de lazer. E é justamente daí que surge a dúvida: se os benefícios são tantos, por que Jaraguá do Sul não tem mais vias verdes espalhadas pela cidade?
Para responder a essa pergunta, contamos com a experiência dos técnicos e engenheiros da Amvali (Associação dos Municípios do Vale do Itapocu). Descobrimos que nem toda área pode receber esse tipo de projeto. Para sair do papel, uma Via Verde precisa atender a uma série de critérios técnicos, ambientais e legais.
A partir disso, te convidamos a entender melhor como funciona a criação de parques como esse e o que está por trás dessas decisões.

O que impede a criação de novas vias verdes na cidade?
Nem toda área próxima aos rios pode ser transformada em parque, e esse é um dos principais pontos que limitam a expansão de projetos como a Via Verde.
Um dos fatores mais importantes é a presença das chamadas matas ciliares, que são protegidas por lei e têm papel essencial na preservação dos cursos d’água. Essa vegetação ajuda a evitar a erosão do solo, reter a água da chuva e manter o equilíbrio dos rios.
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Por isso, essas áreas precisam ser preservadas ou recuperadas, e não adaptadas para uso urbano intensivo.
Na prática, isso significa que grande parte das margens de rios não pode receber intervenções como ciclovias, quadras ou outras estruturas típicas de parques lineares.
“A área onde foi implantada a Via Verde em Jaraguá do Sul era um espaço já degradado, que precisava de recuperação e não tinha vegetação nativa preservada”, explica Karine Holler, engenheira florestal da Amvali e presidente do Comitê do Itapocu.
Além disso, remover vegetação nativa para criar espaços de lazer vai na contramão da proposta desses projetos, que têm justamente como objetivo recuperar áreas degradadas e contribuir para a preservação ambiental, inclusive diante dos efeitos das mudanças climáticas.

O que é necessário para um projeto sair do papel
Outro fator que limita a expansão dessas áreas é a própria complexidade envolvida na implantação de um parque como esse.
Antes de qualquer obra sair do papel, é necessário um conjunto de estudos técnicos que avaliam desde a viabilidade do terreno até os impactos ambientais e os custos do projeto.
Esse processo envolve planejamento urbanístico, análises estruturais, paisagismo, licenciamento ambiental e até a participação da comunidade do entorno.
Em muitos casos, também entram questões como desapropriações de terrenos, o que pode aumentar significativamente o custo e o tempo de execução.
“São projetos que exigem planejamento detalhado e integração entre diferentes áreas para que realmente funcionem”, explica a engenheira.
Na prática, isso significa que não basta ter um espaço disponível. É preciso que ele reúna condições adequadas do ponto de vista técnico, legal e econômico para que o projeto realmente seja viável.
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A Via Verde vai além do lazer e cumpre uma função na cidade
Outro ponto importante é entender que uma Via Verde não é apenas um espaço para caminhar ou pedalar.
Esses projetos são pensados para integrar o que especialistas chamam de infraestrutura verde e infraestrutura cinza dentro do mesmo ambiente urbano.
De um lado, estão as áreas permeáveis, com arborização e vegetação, que ajudam na drenagem da água e contribuem para a melhoria do microclima. Do outro, entram ciclovias, calçadas e espaços de convivência que incentivam o uso pela população.
Essa combinação permite que o espaço funcione também como uma área de amortecimento em períodos de chuva intensa, ajudando a reduzir os impactos de alagamentos.

Além das vias verdes: os outros parques de uma cidade
A discussão também passa por outro ponto importante: nem todo parque urbano funciona da mesma forma.
Existem diferentes tipos de espaços dentro do planejamento das cidades, cada um com funções específicas. As Vias Verdes, por exemplo, seguem o modelo de parques lineares, pensados para conectar regiões, recuperar áreas degradadas, dar vazão à água da chuva para reduzir alagamentos e integrar funções ambientais ao uso urbano.
Já outros espaços têm propostas diferentes. Em Jaraguá do Sul, o Parque da Inovação é um exemplo de mais tradicional, voltado para convivência, permanência e uso coletivo, funcionando como um ponto de encontro dentro da cidade.

Além desses, também existem áreas como Unidades de Conservação, que têm foco na preservação ambiental e seguem regras mais rígidas de uso, muitas vezes com acesso controlado.
Segundo a Amvali, todos esses modelos fazem parte de estratégias diferentes dentro do planejamento urbano. Enquanto alguns priorizam conexão e recuperação ambiental, outros são pensados para convivência ou proteção da natureza.
Apesar das diferenças, todos contribuem, de alguma forma, para a qualidade de vida nas cidades e também de preservação da natureza.
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Como isso impacta sua vida?
Na prática, projetos como a Via Verde mostram que nem todo espaço precisa ser ocupado para fazer sentido. Quando surgem, eles revelam oportunidades raras de transformar áreas esquecidas em lugares que melhoram a relação da cidade com seus rios e com o próprio dia a dia das pessoas. Mais do que quantidade, o que está em jogo é a qualidade dessas intervenções – e o impacto que elas conseguem gerar quando são feitas no lugar certo.

Gabriela Bubniak
Jaraguaense de alma inquieta e jornalista apaixonada por contar boas histórias. Tenho fascínio por livros, música e viagens, mas o que me move é viver a energia de um bom futsal na Arena e explorar o que há de melhor na nossa terrinha.