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O que a vida boa de um solteiro ensina sobre o casamento?
Resumo da matéria
Posso afirmar ao leitor que a vida de solteiro é muito boa. Mas como tenho um amigo que duvida muito de mim e me pede provas das minhas histórias, resolvi fazer um pequeno diário, ilustrando a minha tese: Nos dias seguintes, repeti o mesmo ritual, com exceção ao lazer, que em uma noite foi filme, […]
Posso afirmar ao leitor que a vida de solteiro é muito boa. Mas como tenho um amigo que duvida muito de mim e me pede provas das minhas histórias, resolvi fazer um pequeno diário, ilustrando a minha tese:
- Acordei cedo;
- Coloquei comida e água para as minhas gatas;
- Passei colírio nas três;
- Recolhi os dejetos da caixa de areia;
- Escovei os dentes – os meus;
- Tomei banho;
- Me vesti – trabalhado no azul;
- Arrumei a cama;
- Peguei o carro;
- Coloquei minha playlist;
- Cheguei na padaria e pedi sanduíche de mortadela e um café com leite grande;
- Fui para o trabalho;
- Na hora do almoço, fui em casa e esquentei o rango. Depois que almocei, coloquei comida e água para a Berenice, Doralice e Olívia. Limpei a caixa. Passei na padaria, peguei um café com leite grande e parti para o trabalho;
- Fui contar vantagem sobre ter feito tudo isso em 58 minutos e precisei explicar para um colega que alguns gatos têm braquicefalia (a cara achatada) e precisam de cuidados diários;
- Ao final das minhas obrigações profissionais, encontrei um amigo das antigas na padaria, tomei mais um café, comi um sanduíche completo e um bolo de milho. Colocamos a conversa em dia;
- Fui pra casa;
- Coloquei comida e água para as gatas;
- Limpei a caixa de areia;
- Bebi uma Coca-Cola;
- Tomei banho;
- Coloquei pijama;
- Separei uma roupa azul para ir ao trabalho;
- Escovei os dentes;
- Assisti a uma série;
- Dormi.
Nos dias seguintes, repeti o mesmo ritual, com exceção ao lazer, que em uma noite foi filme, em outra leitura e em outra futebol. Como é boa a vida de solteiro.
Na sexta-feira, minha mulher voltou de viagem. Não tinha frutas em casa. Não tinha nada na lixeira de orgânicos. Fiz todas as refeições na rua. Não fui trabalhar de azul, pois, segundo ela, 57% dos homens se vestem com a cor e eu seria mais um na multidão.
Não pude comer o sanduíche de mortadela, pois minha cônjuge lembrou-me dos resultados da minha recente endoscopia. Tive que pegar um café pequeno, com mais leite, pelo mesmo motivo anterior. Não repeti a dose, depois do almoço, tampouco à tardinha, pois minha esposa lembrou-me sobre as recomendações do meu médico.
Não assisti: série, filme ou jogo. A tevê estava ligada em um canal de blogueiragem, no Youtube. Quando minha companheira me recomendou que não abrisse a Coca-Cola de garrafinha de vidro para preencher um copo com gelo, me fiz de surdo, e tomei tudo. Foi nessa hora que ela fotografou a cena e enviou para a minha mãe. Recebi um áudio de cinco minutos da velha.
Pensando bem, com todos esses cuidados e recomendações devo viver uns 15 anos a mais do que viveria sozinho, espero que esse tempo seja suficiente para eu me convencer de que a vida de casado é bem boa.
Parafraseando Ariano Suassuna (1927-2014): O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.
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Marcelo Lamas é cronista. Autor de Papo no cafezinho, Indesmentíveis, Arrumadinhas e Mulheres casadas têm cheiro de pólvora. Quer contatá-lo? Escreva para: marcelolamasbr@gmail.com.