COLUNISTAS: O conselho de um amigo fez noivo cancelar casamento a poucos dias da cerimônia
Uma conversa entre amigos fez um noivo cancelar o casamento a 20 dias da cerimônia. E o desfecho surpreende.
Homem aparece sentado na beira da cama, com expressão introspectiva, momentos antes de um casamento. Vestindo camisa social com gravata solta, ele segura as mãos enquanto observa uma aliança sobre a mesa ao lado, junto a um convite de casamento. A cena, iluminada por luz natural lateral, transmite um momento de dúvida e reflexão sobre uma decisão importante de vida. Foto: Ilustração IA
Em uma tarde de sábado, chegamos ao sítio onde jogaríamos futebol. Havia três pessoas às voltas com um cavalo, para aplicarem um medicamento. Antes de descer do carro, ele me disse: “Animal! Vou lá resolver”.
Passou a mão no lombo do cavalo calmamente, conversou com o bicho, abraçou pelo pescoço e… bingo! O animal – de quatro patas – deitou-se no chão.
Esse cara era o meu saudoso amigo, Jefferson. Chamava a mim e a todo mundo com quem tinha alguma intimidade, de “Animal”. Virou o apelido dele.
Para quem o conhecia meio a distância, era classificado como ogro, porque falava o que lhe vinha à mente, sem rodeios, além de gostar de passar o final de semana no campo. Demorei algum tempo para enxergar que o meu amigo, considerado brucutu era a antítese disso, pois tinha uma sensibilidade surpreendente.
Lembrei de outra história que aconteceu num dia normal da firma. Chegou a minha mesa dizendo:
– Animal! Temos que fazer alguma coisa, o Valério não quer se casar.
Conteúdos em alta
– Quê? Ele te falou isso?
– Não!
– De onde tirasse essa ideia?
– Ele não está nada empolgado com essa história.
– Mas falta um mês…
– Pois é! Toda a vez que puxo conversa com ele, me diz: “É, fazer o que? Já moramos juntos, agora é só casar”.
– Sério?
– Sim. Tenho um plano.
Ele chamou o Valério e disse para fazer uma mala, para dois dias, que teríamos uma viagem a trabalho.
Na manhã seguinte, cedinho, chamou a mim e ao noivo – com a mala.
– Olha, não tem viagem nenhuma. Vamos fazer um churrasco lá em casa à noite e vais ficar por lá. Pode trabalhar normalmente aí, que só nós estamos sabendo dessa “viagem”.
O Valério consentiu com a cabeça e a noite foi cheia de conversas, com mais outros comparsas, sobre a “obrigação” dele de se casar, segundo o próprio noivo: “Já que estamos namorando há quase oito anos e morando juntos há dois…”. O Animal explicou a tese dele, que era uma decisão para a vida toda, que precisaria ser bem pensada. Como dizia o Millôr Fernandes, seria um contrato civil, vitalício e religioso.
Quando faltavam 20 dias para o matrimônio, o Valério chamou a mim e ao Animal e disparou:
– Seguinte, pessoal, sobre aquelas nossas conversas, relutei bastante, mas chamei a Carla e falei com ela…
– E aí? – respondemos em uníssono.
– Ela me disse que estava pensando a mesma coisa. Já desmarcamos tudo: igreja, salão do clube de tiro, buffet, bandinha alemã. Amanhã vamos enviar os telegramas, avisando aos convidados sobre o cancelamento.
Hoje, cada um dos ex-noivos, vive uma vida feliz.
No próximo mês, meu amigo Jefferson, o Animal, completaria 51 anos. Certamente haveria uma partida de futebol. Estaríamos no mesmo time e eu gritaria muitas vezes:
– Animal! Passa a bola!
E ouviria dele:
– Animal! Fica na tua posição!
Depois do jogo, recuperaríamos a amizade, tomando refrigerante.
Nota do autor: Sobre a segunda noite do retiro do Valério, fora de casa, assim resumiria o escritor David Coimbra (1962-2022): Não posso contar tudo, causaria separações, destruiria reputações.
Em memória de Jefferson Carbonera Garcia (1975-2011).
Marcelo Lamas é cronista. Autor de Papo no Cafezinho, Indesmentíveis, Arrumadinhas e Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora.
marcelolamasbr@gmail.com
Marcelo Lamas
Marcelo Lamas Cronista, autor de 4 livros. Sou gaúcho radicado em Jaraguá, há 3 décadas, porém, estou mais para jaraguaense, nascido no RS. Frio, doces, cafés, gatos, livros, futebol e Coca-Cola são as minhas preferências.